Raro retrato renascentista feito por Sofonisba Anguissola é redescoberto nos EUA

'Retrato de um Cônego Regular', pintado pela artista renascentista Sofonisba Anguissola, uma das primeiras mulheres pintoras famosas da história, estava perdido desde a década de 1970

'Retrato de um Cônego Regular' e autorretrato de Sofonisba Anguissola / Crédito: Divulgação/Robert Simon Fine Art / Getty Images

Durante décadas, historiadores da arte acreditaram que um raro retrato renascentista de Sofonisba Anguissola — uma das primeiras mulheres a alcançar fama como artista — havia se perdido para sempre. Conhecida apenas por uma fotografia em preto e branco preservada na Biblioteca de Referência de Arte Frick, a obra ressurgiu inesperadamente em uma coleção particular na Carolina do Norte e, agora, voltou ao circuito público.

Trata-se de ‘Retrato de um Cônego Regular‘, pintado em 1552, quando Anguissola tinha cerca de 20 anos. A obra foi recentemente exibida na Winter Show, feira de arte realizada no Park Avenue Armory, em Nova York, marcando sua primeira exibição pública. Apresentada pela galeria Robert Simon Fine Art, a pintura foi colocada à venda por US$ 450.000 e integra o grupo restrito de menos de 20 obras assinadas pela artista que sobreviveram até hoje.

O retrato mostra um membro do clero não identificado em meio a uma leitura. Com a mão direita, ele toca uma Bíblia aberta no Evangelho de João, enquanto uma águia — símbolo do evangelista — segura o livro em suas garras, “pairando de forma um tanto ameaçadora na escuridão”, segundo comunicado da galeria. Sobre a escrivaninha, um tapete turco chama a atenção: “um elemento predileto da artista que aparece em diversas variações de suas obras”.

Até recentemente, acreditava-se que a pintura estivesse perdida. A única pista conhecida era uma fotografia em preto e branco feita nos anos 1920. O reencontro com a obra ocorreu em 2024, quando o historiador de arte Michael Cole, autor do livro ‘A Lição de Sofonisba’, apresentou uma palestra sobre a artista na Galeria Nacional de Arte, em Washington, D.C. A apresentação foi publicada no YouTube e acabou sendo assistida pelos proprietários do retrato, residentes em Durham, na Carolina do Norte. Eles haviam herdado a pintura de parentes que a compraram em um leilão local, em 1977.

“Inicialmente, fui contatado para avaliar a pintura e prestar consultoria sobre sua conservação, procedência e emolduramento adequado”, disse o negociante de arte Robert Simon à Artnet. “No fim, os proprietários decidiram vender a pintura, e estou atuando como seu agente para apresentá-la a um público mais amplo.”

Mestra renascentista

Nascida em Cremona, na Itália, por volta de 1532, Sofonisba Anguissola iniciou sua formação artística ainda jovem, incentivada pelo pai. Seu talento chamou atenção rapidamente, a ponto de Michelangelo manter correspondência com a família. Giorgio Vasari, artista e biógrafo renascentista, escreveu que Anguissola “trabalhou com estudo mais profundo e maior graça do que qualquer mulher de nossa época em problemas de design” e que suas pinturas estavam entre “as mais raras e belas”.

O ‘Retrato de um Cônego Regular’ é a obra assinada e datada mais antiga conhecida de Anguissola. A assinatura completa — “Sophonisba Anguissola Virgo”, seguida da data de 1552 — foi revelada após uma recente restauração. No final da década de 1550, sua reputação já havia ultrapassado a Itália. Em 1559, ela foi convidada pelo rei Filipe II a integrar a corte espanhola como dama de companhia da rainha Isabel de Valois. Anguissola permaneceu na Espanha por 14 anos, pintando retratos da família real, ensinando desenho à rainha e cuidando das crianças da corte, repercute a Smithsonian Magazine.

Sofonisba não era qualquer uma”, disse Salvatore Patane ao London Times. “Ela era uma mulher que conseguiu sair de casa e ir para a corte mais importante da época.” Apesar do prestígio, o ambiente espanhol limitava sua liberdade artística. “Na Espanha, todos os retratos tinham que ser parecidos, então ela perdeu muito da sua inventividade”, afirmou Simon ao Art Newspaper.

Por isso, seus primeiros trabalhos italianos — “seus brilhantes retratos da década de 1550” — são hoje especialmente valorizados. Segundo o The Times, Vasari escreveu que suas obras eram “tão bem feitas que parecem respirar”. Após sua morte, em 1625, a reputação de Anguissola declinou, e algumas de suas pinturas chegaram a ser atribuídas a artistas como Ticiano. Nas últimas décadas, porém, sua importância foi reavaliada. Como resume a Galeria Nacional de Arte, Anguissola é “cada vez mais reconhecida como uma das figuras mais importantes do final do Renascimento italiano”.

“Não se encontra uma artista mulher medíocre [desta época], pois elas não teriam tido uma carreira, certo?”, disse Simon. “Elas tinham que ser realmente boas.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.