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Acelerador de partículas deve revelar textos ocultos em antigos pergaminhos egípcios

Há mais de mil anos, monges medievais removeram inscrições em pergaminhos e as substituíram por novos textos; agora, pesquisadores buscam revelar os escritos originais

Parte do Codex Climaci Rescriptus - Crédito: Divulgação/Jacqueline Ramseyer Orrell/SLAC National Accelerator Laboratory

Monges que viveram no Mosteiro de Santa Catarina, localizado no deserto do Sinai, Egito, há pouco mais de mil anos, removeram inscrições em aramaico e em grego palestino ocidental de pergaminhos feitos de pele de animal. No lugar dos textos originais, registraram uma tradução em siríaco de obras de João Clímaco, também conhecido como São João da Escada.

Esse processo resultou na criação de um palimpsesto — um manuscrito cuja escrita inicial foi apagada para dar espaço a um novo conteúdo — hoje conhecido como Codex Climaci Rescriptus. Na época, pergaminhos eram materiais extremamente caros, o que tornava a reutilização uma prática comum.

Apesar disso, o texto original pode não ter sido totalmente perdido. Essa possibilidade anima os pesquisadores, já que os vestígios parecem conter trechos de um catálogo estelar do século 2 a.C., com mapas atribuídos ao astrônomo grego Hiparco, frequentemente chamado de “pai da astronomia científica”. Atualmente, cientistas estão recorrendo a um acelerador de partículas no Laboratório Nacional de Aceleradores SLAC, nos Estados Unidos, para tentar revelar as palavras ocultas sob as camadas posteriores de escrita.

“Feixes de raios X do nosso síncrotron no SLAC estão ajudando a revelar um mapa estelar há muito apagado e sobrescrito, ao escanear metais residuais deixados pelas tintas originais”, informou o laboratório em uma publicação nas redes sociais, segundo a revista Smithsonian.

Revelações anteriores

Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que muitas páginas do Codex Climaci Rescriptus derivam de um livro datado dos séculos 5 ou 6 d.C., que continha uma cópia de um poema astronômico chamado Phaenomena. A obra foi escrita originalmente pelo poeta grego Arato, no século 3 a.C. Junto ao poema, há indícios de transcrições de um catálogo estelar elaborado por Hiparco por volta de 129 a.C. Segundo um estudo publicado em 2022, esse trabalho representa a “tentativa mais antiga conhecida de registrar coordenadas precisas de muitos objetos celestes observáveis a olho nu”.

Grande parte da produção original de Hiparco, provavelmente escrita em papiro, não resistiu à passagem do tempo. Por isso, estudiosos costumam reconstruir seu legado a partir de textos de autores posteriores. Algumas das coordenadas estelares atribuídas a ele chegaram aos pesquisadores modernos por meio de traduções latinas dos poemas de Arato e de escritos correlatos, conforme aponta o estudo.

Pesquisadores estão usando instrumento do Laboratório Nacional de Aceleradores do SLAC para descobrir o texto original de pergaminhos reutilizados – Crédito: Jacqueline Ramseyer Orrell / Laboratório Nacional de Aceleradores SLAC

No mês passado, cientistas do SLAC iniciaram a digitalização de 11 páginas do códice, enviadas ao laboratório em Menlo Park, na Califórnia, pelo Museu da Bíblia, em Washington, D.C. A informação foi divulgada por Ayah Ali-Ahmad, da KQED. O equipamento de fonte de luz síncrotron do SLAC produz feixes intensos de raios X capazes de identificar o texto oculto com base na composição química das tintas, diferente daquela utilizada pelos monges medievais.

Esse trabalho já permitiu identificar a palavra grega antiga para “Aquário” e detalhes sobre estrelas pertencentes a essa constelação, segundo relatou Victor Gysembergh, historiador da ciência do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França e líder do projeto. “O objetivo é recuperar o máximo possível dessas coordenadas”, afirmou. “Isso pode ajudar a responder algumas das maiores questões sobre o surgimento da ciência: por que as pessoas começaram a praticá-la há mais de dois mil anos e como alcançaram tamanha precisão tão rapidamente. As coordenadas que estamos encontrando são incrivelmente precisas para observações feitas a olho nu.”

Posições das estrelas

O escriba responsável por copiar o Phaenomena — obra que descreve como diversas constelações surgem e se põem no céu — incorporou ao pergaminho descrições das posições das estrelas que, ao que tudo indica, se baseiam nos cálculos de Hiparco. O sistema de coordenadas celestes e o nível de precisão correspondem às referências conhecidas dos escritos do astrônomo antigo, segundo relata Adam Mann, da Science News. “Há um apêndice que inclui as coordenadas das estrelas discutidas no poema e, em seguida, pequenos esboços de mapas estelares”, explicou Minhal Gardezi, físico da Universidade de Wisconsin–Madison envolvido no projeto.

Para Bradley Schaefer, historiador da astronomia da Louisiana State University, que não participa da pesquisa, o texto revelado pode ajudar a esclarecer dúvidas persistentes sobre se astrônomos posteriores, como Ptolomeu, realizaram observações próprias ou se reutilizaram parcialmente trabalhos anteriores.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.