Vítor Soares / Portlock

Portlock: A vila no Alasca que sucumbiu ao medo de um “Pé Grande Assassino”

Por trás das estruturas apodrecidas do local, esconde-se uma lenda sombria sobre uma criatura que teria expulsado toda uma população

Interpretação artística Nantinaq/ Creative Commons

No extremo sul do Alasca, onde as montanhas envoltas em névoa encontram as águas geladas da baía de Port Chatham, repousam os restos de uma cidade que o tempo e o progresso esqueceram. Ou, como dizem os antigos, uma cidade que o medo destruiu.

Portlock, hoje uma cidade fantasma, já foi um próspero entreposto comercial e de conservas de salmão. No entanto, em meados da década de 1950, o local foi completamente abandonado. Enquanto historiadores apontam razões econômicas, a tradição oral e os relatos dos descendentes dos moradores contam uma história muito mais aterrorizante: a perseguição implacável do Nantiinaq, o “Pé Grande assassino” do Alasca.

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Ascensão e o apogeu

A história oficial da cidade começa no final do século 18, batizada em homenagem ao Capitão Nathaniel Portlock da Marinha Real Britânica, que explorou a região em 1786. Contudo, o assentamento só ganhou fôlego no início do século 20, com a instalação de uma fábrica de conservas de salmão.

A população era composta por uma mistura de descendentes de russos, nativos alasquianos (Alutiiq e Dena’ina), mineiros e pescadores. Durante décadas, Portlock foi uma comunidade vibrante. Em 1921, a vila era importante o suficiente para ganhar seu próprio correio. Mas, sob a superfície da normalidade cotidiana, algo perturbador começava a se manifestar nas profundezas das florestas de abetos que cercavam a cidade.

Reinado de terror

Os relatos de incidentes estranhos começaram cedo. Já em 1905, trabalhadores nativos da fábrica de conservas teriam deixado o local subitamente, alegando que “algo” nos bosques os estava observando. Embora tenham retornado, o clima de tensão nunca desapareceu totalmente.

Na língua nativa Dena’ina, a palavra Nantiinaq (derivada de nant’ina) significa literalmente “aqueles que roubam pessoas”. Para os moradores de Portlock, não se tratava apenas de uma lenda folclórica, mas de uma ameaça física e letal. Ao contrário do Pé Grande tradicional, frequentemente retratado como uma criatura tímida, o Nantiinaq de Portlock era descrito como agressivo e territorialista.

Na década de 1920, relatos de árvores gigantescas arrancadas pela raiz — algo impossível para um ser humano — começaram a circular. Caçadores que rastreavam alces relatavam ter encontrado pegadas de mais de 45 centímetros de comprimento, frequentemente terminando em sinais de luta onde a grama estava amassada e coberta de sangue, indicando que algo grande havia arrastado a presa para as montanhas.

Mortes inexplicáveis e desaparecimentos

O pânico atingiu o auge em 1931, com a morte misteriosa de um lenhador chamado Andrew Kamluck. Segundo os registros da época, Kamluck foi encontrado morto com um golpe terrível na cabeça. O que intrigou os investigadores foi o fato de que a pancada parecia ter sido desferida por uma peça de equipamento de madeira pesada demais para um homem levantar sozinho. Além disso, o corpo foi encontrado a mais de três metros de distância de onde o sangue fora inicialmente derramado.

Nas décadas seguintes, desaparecimentos tornaram-se comuns. Pescadores e caçadores entravam na floresta e nunca mais voltavam. Em um dos episódios mais macabros relatados por moradores, o corpo mutilado e desmembrado de um trabalhador foi encontrado em uma lagoa local, enviando uma mensagem clara à comunidade: Portlock não era mais um lugar seguro para humanos.

Êxodo final

Em 1950, o correio de Portlock foi fechado permanentemente. A cidade foi oficialmente declarada abandonada. Para os registros do governo, o motivo foi simples: a construção da Rodovia Alasca Rota 1 tornou Portlock geograficamente isolada e economicamente inviável. As pessoas simplesmente se mudaram para cidades próximas, como Nanwalek e Seldovia, em busca de escolas melhores e infraestrutura moderna.

Entretanto, para aqueles que viveram lá, a explicação econômica era apenas uma desculpa conveniente para fugir do terror. Malania Kehl, uma antiga moradora nascida em Portlock em 1934, contou ao jornal Homer Tribune que a decisão de partir foi motivada pelo medo constante.

Deixamos nossas casas e a escola e recomeçamos tudo em outro lugar”, afirmou ela, citando um longo período de terror imposto pela criatura.

Controvérsia e o legado

Como em todo mistério, há céticos. Sally Ash, prima de Malania, sugeriu em entrevistas posteriores que algumas das histórias de ataques foram exageradas ou criadas para satisfazer a curiosidade de forasteiros. Segundo Ash, o Nantiinaq era real e os anciãos ensinavam a respeitá-lo e manter distância, especialmente em dias de névoa, mas a mudança da população foi motivada principalmente pela economia e pela igreja.

Ainda assim, o estigma de Portlock permanece. Mesmo hoje, exploradores urbanos e entusiastas do sobrenatural que visitam as ruínas relatam uma sensação opressiva de “estar sendo observado”. A densa vegetação do Alasca rapidamente retomou o que restou das casas, mas a lenda do Nantiinaq continua viva, alimentando programas de TV e debates sobre o que realmente aconteceu naquele vilarejo isolado.

Seja por causa da economia ou de um monstro das florestas, Portlock permanece como um lembrete de que, nas vastidões selvagens do Alasca, a fronteira entre a realidade e o mito é tão tênue quanto a névoa que cobre Port Chatham.

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!