Vítor Soares / Maria Madalena

Os mitos e incertezas que envolvem a enigmática Maria Madalena

Maria Madalena, apesar de ser uma das mais conhecidas, é também uma das mais enigmáticas figuras presentes na Bíblia; afinal, o que sabemos sobre ela?

Quadro representando Jesus Cristo e Maria Madalena / Crédito: Getty Images

Se, por um lado, Maria Madalena é uma das figuras mais famosas da Bíblia, por outro é também uma das mais enigmáticas. Ela, que é ora confundida com Maria de Betânia, ora mencionada como uma trabalhadora do sexo, chegou até mesmo a ser apontada como esposa de Cristo.

A grande verdade é que não há muito de concreto sobre ela, mas arqueologia possui evidências sobre sua vida. A maior parte constitui-se de textos, dos Evangelhos canônicos atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João, que a identificam como pessoa próxima de Jesus e responsável por encontrar seu túmulo vazio. Ela também é apontada como a mulher que unge seu corpo na manhã de Páscoa.

Detalhes são incertos

Apesar disso, nem sempre os autores concordam nos detalhes sobre sua vida. Lucas, por exemplo, alega que a mulher foi possuída por demônios enquanto que os demais afirmam que a personagem teria sido uma das pessoas que testemunharam a crucificação de Cristo.

Essa falta de certeza sobre a vida de Maria Madalena alimentou uma série de mitos e equívocos históricos, sendo o principal deles o de que ela teria sido uma trabalhadora do sexo. A origem desse mito remonta a 591, quando o Papa Gregório I confundiu Maria com uma “pecadora” mencionada no Evangelho de Lucas. Não há qualquer evidência de que isso seja verdade.

Segundo o portal National Geographic, também há menções a Maria Madalena nos Evangelhos não canônicos. Alguns desses textos, inclusive, ressaltam que discípulos homens a desprezavam pelo simples fato de ser mulher. Como observa Elizabeth Schrader Polczer, professora assistente de Novo Testamento na Universidade de Villanova, “Maria Madalena nunca é nomeada em relação a um homem, como muitas outras mulheres foram. Isso sugere que ela era uma mulher independente.”

Aparecimento de Jesus Cristo a Maria Magdalena (1835) por Alexander Andreyevich Ivanov – Crédito – Wikimedia Commons

Maria, a mulher de Magdala

Outra questão que envolve Maria Madalena é o seu local de origem. Tradicionalmente, muitos assumem que o nome “Madalena” estaria associado a Magdala. Por isso, ela é frequentemente chamada de “Maria de Magdala“. Mas nem mesmo os primeiros teólogos sabiam ao certo onde ficava essa cidade. Uma aposta é que estivesse situada em local próximo ao Mar da Galileia. Conforme destaca a arqueóloga Marcela Zapata-Meza, diretora do Projeto Arqueológico do Magdala de 2010 a 2024, “há histórias de peregrinos que afirmam ter estado na casa de Maria Madalena às margens do Mar da Galileia”, área onde Jesus pregava.

No século 6, um grupo de cristãos começou a se referir a um local específico nas ruínas de uma antiga cidade situada no lado oeste do Mar da Galileia como “Magdala”. Apesar disso, Schrader Polczer, junto da historiadora Joan E. Taylor, professora de Origens Cristãs e Judaísmo do Segundo Templo no King’s College em Londres, argumentou que não há evidências de que a discípula de Jesus tenha vivido ali.

“Durante o primeiro século, esse local era conhecido como ‘Tarichaea'”, aponta Schrader Polczer. “Não era conhecido como Magdala durante a vida de Jesus.”

Evidências arqueológicas

A publicação da National Geographic destaca que escavações em Magdala realizadas em 2009 revelaram uma antiga sinagoga, junto com uma pedra esculpida que representa uma menorá, que ilustraria como moradores do primeiro século podem ter praticado a religião. Eles também detectaram a presença de instalações de água em degraus em espaços públicos e privados, que podem ter sido usadas para purificação ritual na comunidade judaica. “Todas essas instalações recebem água subterrânea e isso as torna as mais puras de todo Israel”, diz Zapata-Meza.

Mas “não há evidências arqueológicas sobre Maria Madalena”, diz Zapata-Meza. Outros pesquisadores afirmam ter rastreado os restos mortais de Maria até a França ou até um túmulo do século 1 em Jerusalém. No entanto, essas alegações têm pouca credibilidade.

Uma possível pista

Mesmo assim, novas pistas sobre a vida de Maria Madalena seguem surgindo à medida que textos antigos vêm à tona. A publicação do manuscrito egípcio P.Oxy 5577, por exemplo, pode revelar informações importantes.

“Maria Madalena pode muito bem ter sido uma das discípulas mais próximas de Jesus”, diz Schrader Polczer, “e este fragmento de papiro recém-publicado apoia essa possibilidade porque Jesus instrui uma mulher chamada Maria sobre como se tornar ‘uma imagem da luz eterna e incorruptível.'” Entretanto, o papiro não identifica explicitamente a mulher como Maria Madalena.

“Há muito que nunca será conhecido sobre Maria Madalena. Não podemos ter certeza de onde ela nasceu, quem era sua família, sua idade na época da crucificação, ou o que aconteceu com ela após os eventos da manhã de Páscoa”, aponta.

Por fim, Schrader Polczer destaca que, apesar da escassez de evidências sobre sua vida “o lado positivo é que Maria serviu como santa padroeira das trabalhadoras do sexo e das ‘mulheres caídas’ ao longo dos séculos.” Também é importante dizer que , com o tempo, ela também passou a ser associada a pessoas historicamente marginalizadas, como os leprosos, tanto que, às vezes, hospitais para leprosos medievais e da época moderna recebiam seu nome.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.