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Adolescente foi morto por urso há 27 mil anos

Restos mortais de adolescente conhecido como "Il Principe" foram descobertos em 1942 na caverna de Arene Candide, no norte da Itália

A cabeça do adolescente, mostrando traumatismos faciais, com uma reconstrução da calota craniana, tal como exibida atualmente (à esquerda). A mesma área após a escavação (à direita) - Crédito: Divulgação/Vitale Stefano Sparacello et al.

Durante o Paleolítico Superior, a habilidade dos seres humanos como caçadores era notável, permitindo-lhes abater grandes animais. Contudo, a convivência com predadores selvagens, como ursos e leões-das-cavernas, tornava esses grupos hominídeos vulneráveis a encontros fatais. Essa teoria é sustentada por evidências funerárias raras da época, uma vez que os corpos frequentemente eram deixados à mercê da natureza, dificultando a preservação de sinais de violência.

Um dos casos mais emblemáticos é o do adolescente conhecido como “Il Principe“, cujos restos foram descobertos em 1942 na caverna de Arene Candide, no norte da Itália. O jovem foi enterrado há aproximadamente 27 mil anos com um sofisticado aparato funerário que preservou quase totalmente seu esqueleto. Desde então, diversos pesquisadores têm investigado suas condições de vida e morte.

Padrão de ferimentos

Uma nova análise conduzida recentemente por uma equipe internacional de especialistas identificou um padrão de ferimentos consistente com um ataque de grande carnívoro, provavelmente um urso. Os resultados foram publicados em dezembro de 2025 no Journal of Anthropological Sciences. Segundo o portal Galileu, as técnicas modernas de ampliação óptica e documentação tridimensional corroboraram as hipóteses levantadas nas décadas passadas sobre um ataque violento.

A avaliação do esqueleto revelou traumas extremos: fraturas no ombro, rosto e coluna cervical, além de lesões na mandíbula e clavícula. Um sulco linear encontrado no crânio sugere um arranhão ou mordida de um animal grande. A análise das lesões exclui a possibilidade de quedas ou violência interpessoal, apontando para a veracidade da hipótese de ataque animal.

A microscopia também revelou indícios cruciais sobre a cicatrização dos ossos. O início da ossificação intertrabecular indica que o jovem sobreviveu apenas entre 48 e 72 horas após o ataque, antes de sucumbir aos ferimentos. Curiosamente, os estudos revelaram lesões anteriores nos pés que poderiam ter dificultado sua mobilidade, aumentando sua vulnerabilidade durante o ataque.

Detalhes do enterro

Apesar da brutalidade da morte, o tratamento funerário foi notável: o corpo foi sepultado sobre um leito de ocre vermelho com adornos elaborados, incluindo conchas perfuradas e pingentes de marfim. Um bloco de ocre amarelo foi colocado próximo ao rosto do jovem, possivelmente como uma tentativa simbólica de cobrir a mutilação ou promover proteção espiritual.

Embora inicialmente se acreditasse que o jovem ocupava uma posição social elevada devido ao rico enxoval encontrado com ele, pesquisas recentes sugerem que enterros elaborados eram reservados a indivíduos cujas mortes envolviam circunstâncias excepcionais, como traumas significativos ou doenças raras. Assim, acredita-se que o ataque de um grande carnívoro exigiu uma resposta ritual específica da comunidade.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.