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Ancestral mais antigo dos vertebrados tinha quatro olhos, aponta estudo

Descoberta de fósseis de aproximadamente 518 milhões de anos na China indica que ancestrais dos vertebrados podem ter possuído, não dois, mas quatro olhos

Os peixes do gênero Myllokunmingia são considerados por muitos cientistas não apenas os peixes mais antigos do mundo, mas alguns dos ancestrais mais antigos dos vertebrados - Crédito: Xiangtong Lei, Sihang Zhang, Peiyun Cong/Nature

Mutações benéficas para a sobrevivência de uma espécie tendem a ser preservadas ao longo do tempo. Os olhos, por exemplo, passaram por um processo evolutivo significativo, desde simples células fotorreceptoras em organismos primitivos, como os platelmintos, até os complexos globos oculares encontrados em muitos animais terrestres atualmente. Agora, a descoberta de fósseis com aproximadamente 518 milhões de anos, descobertos na China, indicam que ancestrais vertebrados podem ter possuído quatro olhos em vez dos dois habituais.

Um grupo de pesquisa da Universidade de Yunnan analisou dez espécimes do gênero primitivo de peixes Myllokunmingia e constatou que estruturas adicionais encontradas nesses fósseis compartilham semelhanças com olhos fossilizados e podem estar relacionadas ao complexo pineal observado em vertebrados modernos.

Primeiros vertebrados

Os Myllokunmingia, que viveram durante o Cambriano na região que hoje corresponde à China, são considerados um dos primeiros tipos de vertebrados conhecidos. De acordo com o portal Galileu, embora tenham sido objeto de estudos por décadas, uma nova pesquisa publicada na revista científica Nature em 21 de janeiro sugere que cavidades nasais presentes no centro do rosto desses animais poderiam ter características mais associadas a olhos laterais.

Para verificar essa hipótese, os cientistas utilizaram técnicas avançadas de microscopia eletrônica de varredura (MEV) e microscopia eletrônica de transmissão (MET), obtendo imagens de alta resolução das estruturas pigmentadas localizadas entre os antigos olhos laterais.

As análises revelaram a presença de organelas celulares com melanina, um pigmento produzido por melanócitos que também pode ser encontrado em vertebrados atuais e fósseis. Além disso, foram identificadas duas estruturas ovóides semelhantes a lentes nas manchas escuras, sugerindo a capacidade desses organismos de formar imagens. Tal característica é semelhante à encontrada nos olhos laterais de peixes contemporâneos.

De acordo com Jakob Vinther, um dos autores do estudo, esses peixes possivelmente possuíam uma visão altamente desenvolvida, capaz de distinguir formas e oferecer uma percepção tridimensional do ambiente. Ele comentou que a visão poderia ser comparada a uma experiência cinematográfica IMAX devido à presença dos quatro olhos.

Órgãos pineais

O complexo pineal, que consiste em estruturas cerebrais sensíveis à luz e envolvidas na produção hormonal, apresenta funções variadas entre os vertebrados. Em muitos peixes, essa estrutura atua como um “terceiro olho”, funcionando como um receptor direto da luz. Essa particularidade levou os pesquisadores a considerar as pequenas estruturas observadas nos Myllokunmingia como “órgãos pineais ou parapineais”, sugerindo que desempenhavam uma função visual mais complexa durante o Cambriano. Com o tempo e a diminuição das ameaças predatórias, a evolução desses órgãos poderia ter levado à degeneração gradual dos precursores oculares, aproximando-se do funcionamento do complexo pineal encontrado em vertebrados modernos.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.