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Aldrich Ames: o agente mais prejudicial da CIA que espionou para a União Soviética

Durante quase uma década, Aldrich Ames comprometeu mais de 100 operações vendendo informações secretas dos Estados Unidos para a União Soviética

Aldrich Ames / Crédito: Getty Images

Com o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, o conflito mais mortal da história da humanidade teve finalmente um ponto final; mas a estabilidade global ainda estava longe de ser alcançada. Isso porque, com o fim do conflito, logo teve início a chamada Guerra Fria, que dividiu o mundo em duas grandes esferas de influência, uma liderada pelos Estados Unidos (capitalista) e outra pela União Soviética (socialista), implicando em uma longa disputa ideológica e geopolítica que durou até o fim da URSS em 1991, gerando assim uma grande corrida armamentista nuclear e a corrida espacial nesse tempo.

Nesse cenário, digno de ser retratado — como foi — em filmes, tópicos como espionagem e venda de informações secretas de governos não eram tão incomuns. E um homem que se destacou especialmente nesse quesito foi o americano Aldrich Ames, faleceu nesta segunda-feira, 5 de janeiro de 2026, e passou quase uma década vendendo informações secretas dos EUA para a União Soviética, o que comprometeu mais de 100 operações clandestinas e levou à morte de pelo menos 10 agentes de inteligência ocidentais — tornando-o, assim, no agente duplo mais prejudicial aos EUA que já viveu.

Aldrich Ames

No ano de 1985, uma série de desaparecimentos envolvendo agentes soviéticos que trabalhavam para a CIA começou a gerar preocupação nas agências de inteligência ocidentais. Esses informantes foram capturados um a um pela KGB, o serviço de inteligência soviético, onde frequentemente eram interrogados e, em muitos casos, executados.

Oleg Gordievsky se destacou como um desses agentes duplos. Atuando como chefe da KGB em Londres, ele havia colaborado secretamente com o MI6, o serviço de inteligência britânico, por vários anos. No entanto, um dia, Gordievsky se viu em Moscou, sob efeito de drogas e exausto após cinco horas de interrogatório, enfrentando a possibilidade real de ser executado por um pelotão de fuzilamento. Sua vida foi salva por uma ousada operação do MI6 que conseguiu resgatá-lo do território soviético escondido no porta-malas de um carro.

Após esse episódio traumático, Gordievsky se dedicou a descobrir quem o havia traído. Em uma entrevista ao programa Newsnight da BBC em 28 de fevereiro de 1994, ele revelou: “Por quase nove anos, fiquei tentando adivinhar quem era o homem, quem era a fonte que me traiu, e não tinha resposta.” Dois meses depois, a revelação chegaria quando Aldrich Ames, um veterano oficial da CIA, confessou em tribunal nos Estados Unidos ter comprometido “praticamente todos os agentes soviéticos da CIA e de outros serviços americanos e estrangeiros que eu conhecia”.

No dia 28 de abril de 1994, Ames admitiu ter revelado as identidades de mais de 30 agentes que espionavam para o Ocidente e comprometeu mais de 100 operações clandestinas. Conhecido pela KGB pelo codinome Kolokol (O Sino), sua traição resultou na execução de pelo menos 10 ativos da CIA, incluindo o general Dmitri Polyakov, um alto oficial da inteligência do exército soviético que havia fornecido informações ao Ocidente por mais de 20 anos. Ames seria posteriormente condenado à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.

A exposição do agente britânico Kim Philby como espião soviético na década de 1960 abalou as estruturas do Reino Unido; agora era a vez de Washington encarar atônito a extensão dos danos causados por Ames, conforme relatou o jornalista Tom Mangold, autor de ‘Cold Warrior: James Jesus Angleton: The CIA’s Master Spy Hunter’, que detalha a caçada de espiões soviéticos e conflitos internos da CIA durante a Guerra Fria em 1994.

Fotografias de Aldrich Ames / Crédito: Getty Images

O papel de Ames como chefe do departamento de contrainteligência soviética da CIA possibilitou-lhe causar tamanho estrago. Ele tinha acesso quase irrestrito a informações confidenciais sobre operações encobertas dos EUA contra a URSS e, crucialmente, sobre as identidades dos agentes no campo. Sua posição também permitiu que ele participasse de entrevistas com outras agências ocidentais. Assim foi como Gordievsky, o mais valioso espião britânico e coronel da KGB passando informações vitais para os serviços MI6 e MI5, acabou em contato com ele. Essa situação peculiar fez com que “o principal desertor da KGB foi interrogado pelo principal agente duplo da KGB”, como descreveu Mangold.

Gordievsky recorda: “Os americanos foram muito minuciosos e realmente muito bons nos interrogatórios. Eu estava entusiasmado. Gostei dos americanos. Queria compartilhar meu conhecimento com eles, e agora percebo que [Ames] estava lá. O que significa que tudo, todas as novas respostas e informações que eu tinha, ele deve ter passado para a KGB.”

Histórico de Ames

A relação pessoal de Ames com o mundo da espionagem começou cedo; seu pai era analista da CIA e ajudou o filho a conseguir emprego na agência após ele ter abandonado a faculdade. Contudo, sua decisão posterior de trair o serviço secreto foi motivada mais pela necessidade financeira do que por convicções ideológicas.

Embora Ames tenha inicialmente demonstrado potencial como oficial de contrainteligência — começando sua carreira na Turquia nos anos 60 — seu desempenho declinou rapidamente devido ao abuso do álcool e problemas pessoais. Depois de retornar aos Estados Unidos em 1972 — pois seus superiores consideravam que ele não era apto para o trabalho de campo — para trabalhar na sede da CIA, ele falhou em se destacar nas operações no campo e enfrentou dificuldades com seu comportamento irresponsável. Nesse momento ele estudou russo e foi designado para planejar operações de campo contra autoridades soviéticas.

Da mesma forma como o pai, Ames começou a ter seu progresso comprometido pelo consumo excessivo de álcool. Em 1972, ele foi flagrado embriagado e em uma situação comprometedora com uma funcionária da CIA, por outro agente. E não muito depois, sua reputação foi ainda mais afetada após abandonar uma pasta cheia de documentos com informações confidenciais no metrô, em 1976.

Tentando reaver a carreira, Ames aceitou uma missão na Cidade do México em 1981, deixando sua esposa em Nova York. Mesmo em outro país, devido ao seu comportamento e consumo excessivo de álcool, ele não se destacou como agente da CIA; e, para piorar, em 1981 acabou se envolvendo em um acidente de trânsito, e estava tão embriagado que não pôde responder às perguntas da polícia, nem mesmo reconhecer um funcionário da embaixada americana que o teria ajudado. Por isso, seu superior acabou recomendando que a CIA avaliasse o alcoolismo para fazê-lo retornar aos EUA.

Apesar do desempenho abaixo do esperado, Ames ainda ascendeu na hierarquia, e foi nomeado chefe da divisão de contraespionagem para operações soviéticas em 1983, lhe garantindo amplo acesso a informações sobre atividades clandestinas da CIA.

Aldrich Ames / Crédito: Getty Images

O início dos problemas financeiros veio com seu divórcio e as exigências financeiras relacionadas. Além disso, a nova esposa dele tinha gostos caros e sua situação econômica se deteriorou rapidamente. Em suas próprias palavras: “Eu sentia muita pressão financeira, e, em retrospectiva, percebi que estava exagerando.”

Traição

No dia 16 de abril de 1985, depois de algumas bebidas para reunir coragem, Ames entrou na embaixada russa em Washington DC. Dentro do prédio, entregou ao recepcionista um envelope com nomes de agentes duplos e documentos comprovando sua posição na CIA, além de uma nota solicitando US$ 50 mil. Embora inicialmente acreditasse tratar-se apenas de uma solução pontual para suas dívidas crescentes, logo percebeu que havia cruzado uma linha sem retorno.

Nos nove anos seguintes, Ames passou a ser remunerado por fornecer informações altamente confidenciais à KGB. Ele retirava documentos sigilosos detalhando desde dispositivos de escuta até tecnologia avançada relacionada ao armamento nuclear soviético e os transportava sem levantar suspeitas. Usando encontros oficiais com diplomatas russos como cobertura, Ames estabeleceu locais secretos para entrega das informações.

Ao vazar essas informações sigilosas, o KGB conseguiu identificar praticamente todos os espiões da CIA na União Soviética, desmantelando suas operações clandestinas no país. Segundo Leslie G Wiser, agente do FBI que participou da investigação que levou à prisão de Ames ao Witness History, da BBC, em 2015: “Não tenho conhecimento de nenhum outro espião ou agente duplo nos EUA que tenha causado tamanha perda de vidas humanas em termos de agentes infiltrados”. O aumento repentino dos desaparecimentos alarmou as autoridades e provocou investigações internas dentro da agência em busca do traidor desde 1986; entretanto, Ames continuou livre por quase uma década.

Por suas traições financeiras e seus gastos extravagantes — apesar do salário modesto — recebeu cerca de US$ 2,5 milhões ao longo dos anos pela entrega das informações secretas. Sua ostentação culminou na compra à vista de uma casa avaliada em US$ 540 mil e diversos carros luxuosos; esse estilo extravagante chamaria atenção das autoridades e resultaria em sua prisão pela equipe do FBI liderada por Wiser em 1994.

Aldrich Ames durante prisão / Crédito: Getty Images

Após ser detido pelo FBI, Ames colaborou com as autoridades e revelou detalhes sobre suas atividades espiãs em troca de um acordo judicial que garantiu uma pena reduzida para sua esposa Rosario, ciente das transações ilícitas dele. Ela foi liberada após cinco anos enquanto Ames seguiu cumprindo sentença perpétua em uma penitenciária federal nos EUA, até sua recente morte, na última segunda-feira, 6 de janeiro.

Ames nunca demonstrou remorso genuíno pelos danos causados por suas ações ou pelas vidas perdidas resultantes delas. Como comentou Wiser: “Ele tinha uma alta opinião sobre si mesmo… Lamenta ter sido descoberto; não lamenta ter sido espião.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.