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Flechas de 60.000 anos são as armas envenenadas mais antigas já descobertas

Pontas de flecha de quartzo encontradas em caverna na África do Sul datam de 60.000 anos atrás, e são as armas com veneno mais antigas já descobertas

Detalhes das pontas de fleca descobertas na África do Sul / Crédito: Isaksson et al., Sci. Adv. 12, eadz3281

Uma recente pesquisa revelou que pontas de flechas com cerca de 60.000 anos, descobertas em um abrigo rochoso na África do Sul, representam as evidências mais antigas conhecidas sobre o uso de armas envenenadas no mundo. Este achado não apenas redefine a cronologia do uso de venenos por caçadores-coletores, como também indica uma compreensão avançada dos efeitos farmacológicos das plantas por parte desses grupos humanos primitivos.

O estudo, publicado na revista Science Advances, envolveu a análise química de dez pontas de flecha que haviam sido escavadas há várias décadas no abrigo rochoso Umhlatuzana. Dos exemplares analisados, cinco ainda continham vestígios de venenos de ação lenta, possivelmente originados de uma espécie de erva daninha conhecida localmente como “bulbo venenoso”. Os pesquisadores destacaram que esses venenos teriam debilitado as presas e reduzido significativamente o tempo e o esforço necessários para caçadas persistentes.

Segundo Sven Isaksson, autor principal do estudo e professor de arqueologia laboratorial na Universidade de Estocolmo, na Suécia, a descoberta demonstra a exploração deliberada das propriedades bioquímicas das plantas pelos humanos pré-históricos. “Os seres humanos dependem das plantas há muito tempo para alimentação e fabricação de ferramentas, mas esta descoberta demonstra a exploração deliberada das propriedades bioquímicas das plantas”, afirmou Isaksson ao Live Science.

A complexidade do pensamento dos caçadores pré-históricos é ressaltada pelo fato de que os venenos requerem um tempo para manifestar seus efeitos. Assim, esses indivíduos precisavam entender relações de causa e efeito e planejar suas estratégias de caça com antecedência.

Armas envenenadas

Antes dessa descoberta, as evidências mais antigas indiscutíveis do uso de armas envenenadas datavam de 7.000 anos atrás, com veneno encontrado em um osso da coxa de um mamífero ungulado no Caverna Kruger, também na África do Sul. Embora existam indícios mais antigos, como um “aplicador de veneno” de madeira com 24.000 anos encontrado na Caverna Border, essas descobertas ainda são objeto de debate entre os especialistas.

A preservação dos vestígios químicos é crucial para essas investigações. No abrigo Umhlatuzana, escavado em 1985, condições favoráveis permitiram a conservação dos venenos por milênios. Os arqueólogos já haviam encontrado 649 fragmentos de quartzo trabalhado da cultura Howiesons Poort, que data entre 65.000 e 60.000 anos atrás, mas nenhuma análise detalhada havia sido realizada nas superfícies desses artefatos até agora.

Na nova pesquisa, Isaksson e sua equipe examinaram 10 das 216 pontas disponíveis que pertenciam a uma camada datada em 60.000 anos. Desses itens, cinco apresentaram traços do tóxico vegetal buphandrine, enquanto um deles continha também o tóxico epibuphanisine. Todos provavelmente foram inicialmente preparados com ambos os compostos; no entanto, a quantidade remanescente não foi suficiente para ser detectada pelas tecnologias atuais.

Ambos os venenos são encontrados em plantas ao longo do sul da África; entretanto, a espécie Boophone disticha se destaca como a mais reconhecida como fonte para venenos utilizados em flechas. Os pesquisadores também conseguiram detectar esses compostos em quatro flechas datadas do século 18 na África do Sul. Embora não haja evidências definitivas da presença da B. disticha naquela época específica, atualmente ela pode ser encontrada a menos de 20 quilômetros do abrigo rochoso.

Justin Bradfield, professor associado de arqueologia na Universidade de Joanesburgo e que não participou do estudo, descreveu a descoberta das antigas flechas envenenadas como “bastante notável”. Ele salientou que os caçadores-coletores da Umhlatuzana parecem ter utilizado um veneno simples; receitas mais complexas podem ter surgido em períodos posteriores.

A pesquisa indica que os caçadores-coletores tinham consciência das toxinas vegetais e suas aplicações práticas. A nova descoberta não só confirma essa percepção como também sugere que esses compostos podem perdurar por dezenas de milhares de anos, o que abre novas possibilidades para investigações futuras no campo.

Os pesquisadores planejam agora investigar depósitos mais recentes no abrigo para determinar se o uso de flechas envenenadas foi uma prática contínua ou se houve interrupções antes do seu reaparecimento na cultura humana.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.