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Budas de Bamiyan: as estátuas colossais destruídas pelo Talibã no Afeganistão

Duas obras monumentais datadas do século 6 d.C., conhecidas como Buda Oriental e Buda Ocidental, acabaram destruídas pelo Talibã no ano de 2001

Uma das estátuas de Buda antes de sua destruição - Crédito: Wikimedia Commons/Françoise Follot

Localizados no Vale de Bamiyan, no centro do Afeganistão, os Budas de Bamiyan foram duas impressionantes estátuas esculpidas em penhascos de arenito. Datadas do século 6 d.C., essas obras monumentais, conhecidas como Buda Oriental e Buda Ocidental, faziam parte da histórica Rota da Seda, que funcionou como um importante corredor de comércio entre a Ásia e a Europa entre 130 a.C. e 1453 d.C.

Com alturas que chegavam a impressionantes 38 metros e 55 metros, respectivamente, os Budas não apenas dominavam a paisagem do Vale de Bamiyan, mas também simbolizavam uma época em que o budismo florescia na região. Infelizmente, em 2001, esses ícones culturais foram destruídos pelo Talibã, que considerou as representações como incompatíveis com a fé islâmica.

Muitos moradores locais, que eram majoritariamente xiitas, fugiram na época; outros foram capturados pelos fundamentalistas sunitas. Uma parte deles foi executada, outros acabaram feitos reféns. Uma parcela ainda menor foi forçada a colaborar com o grupo radical, sendo obrigada a participar de ações que demonstrariam o poder e a brutalidade dos extremistas.

Mirza Hussain, que tinha então 26 anos, viu-se sem qualquer alternativa a não ser obedecer às ordens do grupo. Refém, ele foi forçado a ajudar na colocação de explosivos nas estátuas que dominavam a paisagem de Bamiyan. Segundo reportagem da BBC, tratava-se das maiores estátuas de Buda do mundo.

“Primeiro, eles atingiram os Budas com tanques e disparos. Quando viram que não fazia efeito, colocaram explosivos para destruí-los”, relatou o afegão à BBC.

Prisioneiros

“Eu estava junto com 25 prisioneiros. Não havia civis na cidade, apenas combatentes do Talibã”, recorda Mirza. “Fomos escolhidos porque não havia mais ninguém. Éramos prisioneiros e tratados como pessoas que poderiam ser descartadas a qualquer momento.”

O afegão contou ainda que, ao ver os extremistas levarem dinamite e armamento pesado ao local, tanto ele quanto os demais reféns tinham plena consciência de que poderiam morrer a qualquer instante — seja pela violência dos guardas, seja nas explosões que se aproximavam.

Assim ficou o local que abrigava uma das estátuas – Crédito: Getty Images

Quando um dos homens, que tinha um problema na perna, não conseguiu mais carregar os explosivos, o Talibã atirou nele na hora e deu o corpo a outro prisioneiro, para que ele o descartasse”, relatou.

Mirza recorda que ele e os demais reféns levaram cerca de três dias para posicionar os explosivos ao redor da imensa estátua. A destruição, porém, foi instantânea: em poucos segundos, a escultura foi reduzida a escombros.

Apesar da condenação de diversos países, os extremistas não recuaram. Pelo contrário, continuaram levando mais explosivos ao local até que nada restasse além de ruínas das estátuas milenares que haviam atravessado mais de 1.400 anos de história.

Fim da peregrinação

De acordo com o portal Live Science, a destruição dos Budas não apenas ceifou uma parte significativa da herança cultural afegã, mas também marcou o fim de um local reverenciado por peregrinos budistas ao longo dos séculos. O complexo onde as estátuas estavam situadas incluía mosteiros budistas, capelas e santuários esculpidos em cavernas. Muitas dessas grutas eram ricamente decoradas com pinturas representando figuras budistas, algumas das quais foram descobertas anos após o ataque que resultou na perda das estátuas.

Atualmente, mais de duas décadas após sua destruição, restam apenas duas cavidades na rocha onde as estátuas antes se erguiam.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.