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Maior assentamento pré-histórico fortificado da Irlanda é descoberto por cientistas

Descoberta de mais de 600 habitações em forte no leste da Irlanda desafia o que se sabia sobre a organização social na Idade do Bronze

Fotografia aérea indica a localização das trincheiras de teste no Anel de Brusselstown / Créditos: D. Brandherm et al

Um assentamento pré-histórico descoberto no leste da Irlanda está levando arqueólogos a reverem o entendimento sobre a densidade populacional e a organização social no final da Idade do Bronze. Evidências de mais de 600 habitações foram identificadas dentro do forte circular de Brusselstown, no Condado de Wicklow, o que faz do local o maior assentamento nuclear já documentado na Irlanda ou na Grã-Bretanha pré-históricas.

Os dados fazem parte de uma nova pesquisa publicada na revista Antiquity, que aponta para uma comunidade permanentemente ocupada e altamente organizada, em contraste com o padrão de pequenos assentamentos dispersos predominante na Irlanda antiga.

O sítio integra o complexo de fortificações de Baltinglass, uma paisagem arqueológica composta por até 13 grandes recintos em topos de colinas, com evidências de ocupação quase contínua desde o Neolítico Inicial até a Idade do Bronze.

Estrutura incomum

Porém, o que diferencia o Anel de Brusselstown de outros sítios similares é, sobretudo, sua escala e configuração. Duas muralhas amplamente espaçadas cercam o assentamento.

Além disso, o limite externo abrange não apenas a fortificação principal, mas também um recinto neolítico próximo, conhecido como Spinas Hill 1. Recintos que se estendem por mais de uma colina são raros na Irlanda e na Grã-Bretanha e incomuns até mesmo em contextos europeus da Idade do Ferro tardia.

Levantamentos aéreos e topográficos permitiram identificar mais de 600 plataformas sutis no terreno, interpretadas como fundações de casas. Dessas, 98 estão localizadas dentro do recinto interno, enquanto mais de 500 se concentram entre as muralhas interna e externa. Esse padrão indica uma ocupação densa e planejada do espaço.

Ocupação prolongada

Para confirmar essas interpretações, os pesquisadores realizaram quatro escavações direcionadas em plataformas de casas de diferentes tamanhos. As datações por radiocarbono, associadas a evidências materiais, indicam que o assentamento foi ocupado principalmente entre cerca de 1200 e 400 a.C., abrangendo o final da Idade do Bronze e o início da Idade do Ferro.

Apesar da variação no diâmetro das casas, os artefatos recuperados não revelam diferenças claras de riqueza ou status social. Isso sugere, segundo os pesquisadores, uma comunidade relativamente igualitária, mesmo diante de uma população numerosa.

De acordo com informações divulgadas pela revista Archaeology News, as escavações também revelaram uma estrutura revestida de pedra incomum, localizada próxima a uma das trincheiras. O interior plano e a proximidade com uma fonte natural de água tornam improvável que se trate de uma casa circular convencional.

Abandono gradual

Os pesquisadores avaliam que essa estrutura pode ter funcionado como uma cisterna, um elemento conhecido em partes da Europa continental, mas ainda não documentado em fortificações irlandesas. Caso essa hipótese seja confirmada, ela indicaria um nível elevado de planejamento para sustentar uma grande população em um topo de colina.

Por fim, as evidências sugerem que o sítio foi abandonado gradualmente ao longo do século 3 a.C., seguindo um padrão observado em outros assentamentos elevados na Irlanda. Esse declínio não parece estar associado a mudanças climáticas, o que reforça a hipótese de que fatores sociais e econômicos tiveram papel central no processo. Pesquisas em andamento buscam agora refinar a cronologia das muralhas e esclarecer por que uma das maiores comunidades pré-históricas da Irlanda deixou de ser ocupada.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli