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Pira de 9.500 anos revela cremação mais antiga da África

Pira encontrada no norte do Malawi revelou a mais antiga evidência conhecida de cremação humana na África

Equipe recuperando restos humanos cremados - Crédito: Divulgação/Grace Veatch/Universidade de Yale

Uma nova pesquisa publicada recentemente revelou a mais antiga evidência conhecida de cremação humana na África, ampliando em milhares de anos o registro de práticas funerárias no continente e desafiando concepções tradicionais sobre os comportamentos sociais e rituais dos antigos caçadores-coletores. Este achado notável se concentra em uma pira funerária com 9.500 anos localizada ao pé do Monte Hora, no norte do Malawi.

A descoberta, relatada na revista Science Advances por uma equipe internacional de pesquisadores da África, Europa e Estados Unidos, fornece provas da pira de cremação in situ mais antiga conhecida, contendo os restos de um adulto. Embora haja registros de ossos humanos datados de contextos muito anteriores em outras partes do mundo, como os encontrados no Lago Mungo na Austrália, que remontam a cerca de 40.000 anos atrás, esta é a primeira evidência de piras intencionalmente construídas para a cremação de um corpo entre os caçadores-coletores africanos dessa época.

De acordo com informações do portal Archaeology News, a cremação foi identificada em um local denominado Hora 1, situado sob um abrigo rochoso que se eleva várias centenas de pés acima da planície. Escavações arqueológicas sugerem que a área foi habitada desde pelo menos 21.000 anos atrás e serviu como um cemitério entre 16.000 e 8.000 anos atrás, onde ocorreram sepultamentos completos. Portanto, a cremação isolada de um indivíduo há cerca de 9.500 anos representa uma mudança radical nas práticas funerárias estabelecidas.

Fragmentos de ossos

Foram recuperados aproximadamente 170 fragmentos ósseos humanos do extenso depósito de cinzas, indicando que a pessoa cremada era uma mulher adulta de baixa estatura, com idade entre 18 e 60 anos. Os padrões de queima e fraturamento sugerem que o corpo foi colocado na pira logo após a morte, antes que o processo de decomposição tivesse início. Marcas de cortes nos ossos das extremidades indicam que houve desmembramento ou remoção da carne antes da cremação, enquanto a ausência de dentes e fragmentos do crânio sugere que a cabeça pode ter sido removida antes da queima.

A reconstrução da pira indica que seu preparo foi um esforço comunitário, envolvendo a coleta de pelo menos 30 quilos de madeira e grama como combustível. Evidências microscópicas mostram controle do fogo por meio da adição contínua de combustível para manter temperaturas superiores a 500 graus Celsius. Ferramentas de pedra encontradas nas camadas de cinzas podem ter sido colocadas como parte de um ato ritual durante a queima.

A história do local confere uma dimensão adicional à sua importância. Grandes fogueiras foram acesas no mesmo ponto várias séculos antes da cremação e, crucialmente, as pessoas retornaram ao local para fazer novas fogueiras diretamente sobre a pira por séculos após o evento. Apesar de nenhum outro indivíduo ter sido cremado ali, essa atividade repetida sugere que o local permaneceu fixo na memória coletiva como um espaço de significado ritual.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.