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Plantio de árvores na China sofre revés inesperado

Estudo mostra que reflorestamento intensivo alterou o ciclo hídrico da China: chuva aumentou em algumas regiões e diminuiu em outras

Imagem ilustrativa de uma árvore
Imagem ilustrativa de uma árvore - Imagem de Heiko Stein por Pixabay

A China vive um paradoxo ambiental: suas vastas iniciativas de plantio de árvores e restauração de vegetação, criadas para combater a desertificação e mitigar os efeitos das mudanças climáticas, alteraram de maneira significativa a distribuição da água no território nacional, de acordo com pesquisadores que analisaram dados entre os anos de 2001 e 2020.

Esses esforços de reflorestamento em larga escala — que fazem parte de programas como a Grande Muralha Verde, planejada para cobrir vastas áreas do norte e oeste da China com vegetação — vêm sendo realizados há décadas. O projeto e ações complementares levaram a um aumento substancial da cobertura vegetal no país em comparação com meados do século passado, com florestas e pastagens recuperadas em áreas degradadas e áridas.

Segundo o estudo, publicado na revista científica Earth’s Future, o aumento da cobertura vegetal ativou o ciclo da água em grande escala, redistribuindo a umidade atmosférica e as precipitações pelo país. Isso aconteceu porque as árvores e outras plantas absorvem água do solo e liberam vapor para a atmosfera por meio de um processo chamado evapotranspiração — água que evapora diretamente de superfícies e também é liberada pelas folhas das plantas.

Crise hídrica na China

Como consequência, regiões que somam cerca de 74% do território chinês — incluindo áreas influenciadas pelas monções no leste e regiões áridas no noroeste — registraram uma redução na disponibilidade de água doce, tanto no solo quanto em aquíferos subterrâneos e bacias hidrográficas. Isso tem implicações diretas para moradores, agricultura e ecossistemas locais.

Ao mesmo tempo, a mesma alteração no ciclo hídrico aumentou a disponibilidade de água no Planalto Tibetano, uma área montanhosa de grande altitude que não integra as principais zonas agrícolas do país. Isso significa que a mesma ação que buscava melhorar a situação ambiental em partes da China acabou transferindo os recursos hídricos para outras regiões com efeitos ambíguos.

Especialistas alertam que essa redistribuição de água — apesar de estar ligada à recuperação de ecossistemas e a benefícios ambientais como a redução da expansão dos desertos — também pode criar desafios hídricos para milhões de pessoas, especialmente no norte e noroeste, onde a água está cada vez mais escassa para consumo humano e irrigação agrícola.

Os pesquisadores destacam que esse fenômeno mostra como impactos ambientais podem ser complexos e interligados: uma medida positiva como o reflorestamento não age isoladamente, mas interage com sistemas climáticos e hidrológicos de maneiras que podem trazer efeitos não previstos inicialmente. Eles defendem que políticas de gestão da água e de uso do solo levem em consideração essas mudanças para evitar desequilíbrios ainda maiores no futuro.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.