Numa noite de Natal: Em 1991, renúncia de Gorbachev decretava o fim da União Soviética
Em uma noite gelada de Natal, Mikhail Gorbachev entregou seu cargo em rede nacional; episódio que pavimentou o fim da URSS

Em uma noite de Natal gelada, o mundo testemunhou o fim de um império. Naquele dia 25 de dezembro de 1991, Mikhail Gorbachev, presidente da União Soviética (URSS) e secretário-geral do Partido Comunista, entregou seu cargo em rede nacional, selando o destino da nação que por quase sete décadas competiu com o Ocidente pelo domínio global. Instantes depois da sua renúncia, a icônica bandeira vermelha com a foice e o martelo era arriada sobre o Kremlin pela última vez, sendo substituída pelo pavilhão tricolor (azul, branco e vermelho) da Rússia, que remontava ao regime czarista.
O ato de renúncia de Mikhail Gorbachev não foi uma surpresa, mas sim a formalização de um colapso já em curso. Para todos os efeitos, a União Soviética “não existia mais”. Quatro dias antes, em 21 de dezembro, onze repúblicas que a compunham já haviam migrado para a recém-formada Comunidade dos Estados Independentes (CEI), “desmembrando a união”, aponta o Opera Mundi.
A longa união entre países, que durante 69 anos se tornou uma potência de 15 nações soviéticas, chegava ao seu epílogo em meio à perda de força e propósito.
++ Em 1994, Mikhail Gorbachev cobrou merreca para entrevista de Jô Soares
O golpe fracassado
O poder real havia migrado meses antes para Boris Ieltsin, eleito presidente da Federação Russa em junho de 1991. Com isso, Ieltsin já detinha o controle das decisões estatais do país de maior extensão territorial do planeta. A ascensão de Ieltsin foi acelerada pelo fracasso retumbante de um golpe de Estado ocorrido em agosto do mesmo ano.
Em 19 de agosto de 1991, enquanto Gorbachev concluía suas férias na Crimeia, um grupo nomeado Comitê Estatal para o Estado de Emergência tentou assumir o poder em Moscou. O comitê de oito membros incluía o chefe da KGB, Vladimir Kriutchkov; o ministro das Relações Exteriores, Boris Pougo; e o ministro da Defesa, Dmitri Yazov, ironicamente, “homens que foram nomeados justamente pelo chefe de estado”.

O golpe, no entanto, foi confrontado diretamente pela resistência liderada por Boris Ieltsin. Em um momento que se tornou um símbolo da transição para a democracia, Ieltsin “permaneceu de pé em um tanque para condenar a Junta”, uma imagem que se disseminou pelo mundo e “reforçou extraordinariamente a posição de Ieltsin”, repercute o Opera Mundi.
A maioria das tropas enviadas a Moscou se colocou abertamente do lado dos manifestantes, e o golpe falhou. Embora tenha havido confrontos e a morte de três manifestantes esmagados por um tanque (Vladimir Ousov, Dmitri Komar e Ilia Krichevski), a violência foi contida.
O fracasso da tentativa de golpe precipitou uma série de colapsos nas instituições da URSS. Após seu regresso, Gorbachev tentou punir os conservadores do Partido Comunista, mas acabou se demitindo de suas funções como secretário-geral do PCUS, mantendo-se apenas na presidência da União Soviética até o momento final em dezembro. Ieltsin, por sua vez, aproveitou o vácuo para assumir o controle dos órgãos de comunicação e ministérios.
Discurso de despedida
O pedido de demissão de Gorbachev foi enviado sem “qualquer embate” ao Congresso, marcando o momento em que o território soviético estaria doravante constituído de 15 estados independentes.
Em seu discurso de despedida, o último líder soviético abordou as razões de sua saída. Ele indicou a recente formação da CEI como o motivo principal de sua renúncia, declarando-se “preocupado pelo fato de que o povo deste país tinha deixado de ser a emanação de um grande poder e seria muito difícil para todos lidar com as consequências desta situação”.
Suas palavras, que continham trechos “por vezes arrogantes e outras que demonstravam ressentimento”, expressavam que ele havia chegado ao limite de suas possibilidades de êxito na condução das reformas.

Gorbachev defendeu que suas políticas de Perestroika (reestruturação) e Glasnost (transparência) visavam conduzir o país pelo “caminho da democracia” e mover a economia centralizada para a “economia de mercado”. Ele declarou que o povo russo viveria em um novo mundo, onde a Guerra Fria e a corrida armamentista teriam um fim. Apesar de admitir a possibilidade de erros, Gorbachev foi enfático ao “reafirmar não ter tido qualquer arrependimento quanto às políticas que havia anunciado e levado adiante”.
A realidade, no entanto, era a de uma economia instável e uma crise generalizada. Sobrevivendo à tentativa de golpe apenas graças ao respaldo de Ieltsin, Gorbachev viu sua autoridade minguar. No começo da noite de 25 de dezembro de 1991, o destino já estava traçado. A troca da bandeira, de “vermelha com a foice e o martelo pela tricolor do regime czarista”, representou, segundo o Opera Mundi, “o fim do ciclo revolucionário de 74 anos e a derrocada da União Soviética após 70 anos de existência”.