Em 1918, soldados americanos fizeram um Natal improvisado em meio às trincheiras
Longe de casa, soldados americanos comemoraram o Natal de forma improvisada, com direito a jogos e ceia, durante a Primeira Guerra Mundial

O Natal de 1918 vivido pelos soldados americanos em solo francês, tal como relatado pelo capitão Clifton Lisle em texto publicado pela National Geographic em 1919, foi tudo menos convencional. Como destacou Lisle, embora àquela altura já não houvessem mais hostilidades ativas, tendo em vista o armistício de 11 de novembro, muitas divisões de combate ainda mantinham suas linhas exatamente onde os combates haviam cessado.
Apesar das circunstâncias, de estarem em uma terra estrangeira, a milhares de quilômetros de casa, os soldados da 158ª Brigada de Infantaria celebraram a data da melhor maneira possível.
Uma árvore sobre um projétil
“O dia começou cedo para mim e, de forma surpreendente, para dizer o mínimo, pois ao acordar perto do amanhecer, vi ao lado do meu beliche de arame de galinha uma árvore de Natal — uma árvore de Natal de verdade”, dizia o capitão Lisle, explicando como a pequena árvore de cerca de 60 centímetros de altura havia sido montada sobre um projétil de artilharia naquele dia 25 de dezembro e como o papel alumínio das embalagens de chocolate havia sido transformado em bolas decorativas. Fios retirados de telefones de campanha inimigos e bagas e vagens vermelhas colhidas no campo, completavam a decoração.
Apesar de toda a simplicidade, aquela árvore tinha um enorme significado para o capitão: “aquela pequena árvore de Natal ao lado do meu beliche em Réville significava mais para mim do que qualquer árvore chique que eu já tinha visto. […] O Natal ainda seria Natal, com toda a lama e chuva na França no sentido contrário.”
Cenário de destruição
Enquanto a manhã avançava, a paisagem ao redor revelava sua face mais brutal. A névoa se dissipava lentamente sobre a planície do Woëvre, expondo colinas cobertas de neve e, em seguida, os esqueletos das aldeias francesas. Campanários rachados, igrejas sem telhado, vitrôs reduzidos a fragmentos coloridos e o solo completamente dilacerado por crateras de obuses compunham um cenário quase irreal.
“Por toda parte ao meu redor jaziam os destroços da guerra: pilhas de munição deixadas pelos hunos em retirada, cada projétil em seu cesto de vime; caixas de granadas de mão parcialmente abertas; “fracassos” não detonados ainda meio enterrados no chão, pois haviam caído durante os dias de batalha; máscaras de gás descartadas, capacetes habilmente camuflados para atiradores de elite, rifles, mochilas e até botas de borracha estavam aqui e ali apodrecendo nos buracos encharcados de água”, dizia o relato.

Na igreja de Peuvillers
Mesmo assim, os homens seguiram em direção à igreja de Peuvillers para um serviço de cânticos ao amanhecer. Pelo caminho, cumprimentavam-se com votos de “Feliz Natal”. Alguns, inclusive, usavam ramos de azevinho presos aos gorros. Cantavam hinos tradicionais enquanto marchavam pela lama. Dentro da igreja arruinada, decorada com hera, visco e azevinho colhidos na véspera, realizou-se um culto simples e ecumênico. As diferenças religiosas haviam perdido importância diante da experiência comum da guerra.
Ao lado da igreja, um monumento erguido pelos alemães em memória de seus mortos chamava a atenção:
“Seja amigo ou inimigo,
na morte unidos igualmente.
Àqueles que caíram em defesa
de sua pátria,
1914.”
A inscrição, que falava de união na morte, fosse amigo ou inimigo, estava no próprio cemitério da igreja onde os soldados tiveram a chance de assistir a uma celebração religiosa pela primeira vez em vários meses.
Esportes improvisados
A tarde foi dedicada a esportes improvisados, realizados na estrada, uma vez que os campos estavam intransitáveis. Corridas, saltos, cabo de guerra, lutas e provas cômicas, como corrida de sacos e de três pernas, marcaram a data. Quanto mais profunda a lama, maior a rivalidade. Para os franceses que observavam de longe, aquilo, no entanto, parecia uma grande loucura.
Eles nos consideraram loucos, completamente loucos; mas, então, todos os soldados americanos parecem assim para eles, e isso não fazia muita diferença para nós. Deixamos eles sozinhos para a própria celebração do dia com vin rouge, coelho ensopado e caracóis. Os jogos continuaram com gritos ainda mais altos e vivas hip-hip-hurra, no bom e velho jeito anglo-saxão”, dizia Clifton Lisle.
A ceia de Natal
O ponto alto do dia veio com o jantar. Durante semanas, os soldados haviam trabalhado para transformar uma cabana abandonada em um refeitório. Tudo foi reaproveitado: madeira, tapetes, pregos, vidros raros. O espaço foi decorado com ramos verdes, aquecido com fogões de trincheira e animado por um piano destroçado, apelidado de Tara, que milagrosamente voltou a tocar após dias sendo aquecido para secar suas teclas. Contra todas as expectativas logísticas, um caminhão fora até Paris buscar suprimentos, e o resultado foi um banquete completo, com peru, purê, milho, torta de maçã, charutos e doces.
Após meses comendo em pé, sob chuva, na lama, aquele foi o primeiro momento em que muitos puderam sentar-se juntos, em um lugar coberto, como homens e não apenas como soldados. Naquele dia, o general fez um breve discurso, lembrando os mortos e reconhecendo o preço pago pela falta de preparo nos primeiros anos da guerra.
Quando a noite terminou, Tara silenciou novamente, os fogões se apagaram e, dois dias depois, a brigada deixou Reville marchando para alojamentos distantes.