Quando uma cratera se abriu em frente ao Panteão, revelando antiga rua romana de 2 mil anos
No ano de 2020, um cratera com cerca de 3 metros de largura e mais de 2,5 metros de profundidade revelou o pavimento original de Roma, surpreendendo arqueólogos

Uma dolina — um tipo de depressão ou cavidade no solo comum em áreas compostas por rochas solúveis — que se abriu diante do antigo Panteão, em Roma, revelou um achado raro no ano de 2020: o pavimento original colocado há cerca de 2.000 anos, na época da construção do monumento.
Dentro da abertura, que tinha cerca de 3 metros de largura e mais de 2,5 metros de profundidade, arqueólogos localizaram sete lajes antigas de travertino, uma rocha sedimentar típica das obras romanas. Como destacou Daniela Porro, superintendente especial de Roma, em entrevista à Live Science, essas pedras remontam ao projeto de Marco Agripa, aliado do imperador Augusto.
O primeiro Panteão foi erguido ali, na Piazza della Rotonda, entre 27 e 25 a.C. Mas, ao longo dos séculos, diz o portal All That’s Interesting, a estrutura passou por várias transformações. Uma das reformas mais importantes ocorreu entre 113 e 125 d.C., durante o governo de Adriano, responsável pela versão do Panteão que existe até hoje. No início do século 3, durante os reinados de Septímio Severo e Caracala, a área voltou a ser modificada.
Agora, dois milênios depois de os romanos assentarem aquelas pedras, parte do desenho original da praça ressurgiu. Por sorte, ninguém se feriu quando o enorme buraco se abriu, já que a praça, normalmente tomada por turistas, estava vazia devido ao lockdown imposto durante a pandemia em Roma.
Quando o chão cedeu
Quando a dolina se abriu no fim de abril de 2020, cerca de 40 paralelepípedos de travertino, conhecidos como sampietrini, cederam. Embora não tenha havido vítimas, a imprensa local apontou que o episódio se encaixava em um fenômeno ainda mais amplo que afeta toda a cidade.
Conforme relembrou o jornal europeu The Local, em janeiro daquele mesmo ano um prédio residencial precisou ser evacuado após o asfalto desabar próximo ao Coliseu. Dados do Instituto Italiano de Proteção e Pesquisa Ambiental (ISPRA) indicam que as dolinas têm se tornado mais frequentes na capital: foram cerca de 275 ocorrências no último ano. A cidade, que antes registrava uma média de 30 dolinas ou colapsos semelhantes por ano, viu esse número triplicar desde 2008.
De acordo com a geóloga Stefania Nisio, “a área mais sensível é o leste de Roma, de onde materiais eram extraídos na antiguidade”. Ela, que trabalha em um projeto de mapeamento dos desabamentos das ruas da cidade, ainda destacou: “a principal causa de um buraco na cidade é a presença de uma cavidade subterrânea.”
roma Voragine al Pantheon, cedono sampietrini e si apre buca profonda 2 metri https://t.co/BOFn187I8X notizie notizieroma pic.twitter.com/55yREwEOxR
— Roma Today (@romatoday) April 28, 2020
O pior desses incidentes envolvendo dolinas foi uma cratera massiva que engoliu diversos carros e desencadeou múltiplas evacuações de prédios residenciais no ano de 2018.
Antigas construções
Apesar de Roma exibir, na superfície, uma fachada repleta de monumentos milenares, seu subsolo guarda vastas cavidades esquecidas. Há restos de antigas construções que, ao longo dos séculos, foram soterradas e pavimentadas.
“Temos muitos exemplos disso”, declarou Nisio, “especialmente no Lácio, não apenas em Roma, mas também em Viterbo e Rieti.”
Esses vazios subterrâneos, somados ao solo arenoso e frágil da capital — facilmente erodido pela água da chuva e pelas constantes vibrações do tráfego — tornam as ruas especialmente suscetíveis a colapsos.
Não foi a primeira vez
Não foi a primeira vez, porém, que o piso original da Piazza della Rotonda veio à luz. Ele já havia sido descoberto na década de 1990, durante obras na área. Depois de documentado pelos arqueólogos, voltou a ser coberto.
Para enfrentar o avanço desses desabamentos, que podem causar danos severos ao patrimônio histórico, a prefeitura anunciou, em 2018, um plano de investimento de vários milhões de euros para recuperar as vias da cidade. O problema é que o andamento das obras tem sido lento.
Até que a situação seja estabilizada, é possível que mais fragmentos da história de Roma continuem surgindo.