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Os antigos gregos e romanos realmente abandonavam bebês nascidos com deficiência?

Popularmente, se pensa que os antigos gregos e romanos eram brutais e abandonavam bebês nascidos com deficiência; porém, a verdade pode ter sido outra

Antiga representação do deus romano Saturno devorando um bebê / Crédito: Getty Images

Durante a Segunda Guerra Mundial, entre os vários horrores perpetrados pelos nazistas estava um programa sistemático e estatal de “higiene racial”, que pretendia criar uma “raça superior” ariana através da eliminação dos indivíduos considerados “biologicamente inferiores”. Essa prática eugenista levou ao genocídio de milhões de pessoas, incluindo principalmente judeus, mas também ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais e até pessoas com deficiência.

Esse projeto eugenista, por sua vez, foi muito fundamentado na ideia de que os gregos faziam o mesmo. Em 1929, Adolf Hitler elogiou a eugenia espartana durante um discurso, bem como a política de infanticídio seletivo, e ainda exaltou Esparta como “o Estado racial mais puro da história”. No entanto, essa percepção de que os antigos gregos e romanos eram obcecados por força e poder ao ponto de abandonar bebês com deficiência para a morte pode estar bastante errada.

Essa história começou com o filósofo e biógrafo grego Plutarco, do século 1 d.C., que escreveu que os espartanos levavam seus recém-nascidos a um conselho de anciãos para serem avaliados; e aqueles considerados de “nascimento inferior ou deformados” eram deixados ao relento para morrer.

Durante quase dois milênios, essa ideia sobre os antigos gregos e romanos foi persistente, mas evidências arqueológicas recentes vêm comprovando que isso pode até ter sido verdade em certos casos — afinal, tal relato inegavelmente existiu —, mas que não era absoluto. Entenda!

Apoio em desastres

Um estudo recente publicado no Journal of Archaeological Science descreveu escavações relacionadas a vítimas de terremotos na antiga cidade romana de Heraclea Sintica, localizada no sudoeste da atual Bulgária. Segundo as descobertas, em vezes de abandonarem as pessoas com deficiência, os membros da comunidade trabalharam ativamente para resgatar aqueles que não conseguiam enfrentar tais situações sozinhos.

No estudo, foram examinados os restos mortais de seis indivíduos que ficaram presos em cisternas durante um terremoto na área no século 4 d.C. A análise antropológica dos restos mortais revelou que alguns destes indivíduos apresentavam malformações congênitas — um dos mais jovens “sofria de uma condição grave”, possivelmente a rara síndrome genética de Apert, que causa o fechamento precoce das articulações do crânio, provocando numa formação óssea incomum na fase, nos pés e nas mãos, que podem ter causado dificuldades de alimentação, respiração, possíveis problemas de audição, dificuldades de fala e até cegueira, desde o nascimento — e outro parecia ter fenda palatina.

Segundo a equipe de pesquisa, é improvável que o jovem com síndrome de Apert tenha sido capaz de trabalhar, e ele também pode ter sido especialmente vulnerável devido às suas diferenças físicas. “Aplicando as classificações modernas, esse indivíduo seria considerado uma pessoa com deficiência”, fazendo dele altamente dependente dos outros, concluem.

Porém, a descoberta dos restos mortais dentro da cisterna indica que o pequeno grupo possivelmente estava tentando escapar do terremoto no momento de suas mortes. “É possível que uma das outras vítimas do terremoto encontradas na cisterna estivesse acompanhando e tentando ajudar a pessoa com deficiência a sobreviver ao desastre“, escrevem os pesquisadores.

Embora o estudo só tome em consideração uma amostra pequena de pessoas, a própria descoberta já chama atenção por desafiar as suposições modernas tão difundidas de que as pessoas com deficiência eram menos valorosas e deixadas ao relento no mundo antigo, repercute o National Geographic.

Antiga representação com mulheres romanas segurando bebês / Crédito: Getty Images

E os gregos?

Como Plutarco descreveu a brutalidade espartana com os nascidos com deficiência, imagina-se que eles pelo menos tenham sido cruéis de acordo com os relatos, certo? Pois bem, evidências arqueológicas e literárias também sugerem algo diferente.

Um artigo publicado em 2021 na revista Hesperia descreve que “os antigos gregos, seus pais, parteiras e médicos, frequentemente tomavam medidas ativas e extraordinárias para auxiliar e acolher bebês nascidos com uma variedade de deficiências congênitas e físicas”.

Para tal descoberta, a equipe de pesquisa apontou para evidências encontradas em diversas escavações de restos mortais de bebês, que revelaram que, em vez de serem abandonados, os nascidos com deficiência podem ter recebido os devidos cuidados até a morte natural.

Um caso específico descrito foi de um bebê do século 2 a.C. encontrado no Poço Ósseo da Ágora, em Atenas. Apesar de ele apresentar diferença nos membros superiores, o bebê aparentemente não recebeu tratamento diferente de outros bebês saudáveis que foram ali enterrados.

De acordo com o estudo, o sítio arqueológico contém restos mortais de mais de 450 bebês que faleceram muito cedo para receberem um enterro formal, mas que tiveram uma série de cuidados antes da morte. E no caso do bebê com diferença nos membros descrito, as dimensões dos ossos sugeriam “uma grave anomalia de crescimento” que seria aparente desde o momento do nascimento, “que resultou em membros atrofiados”.

Já um segundo bebê com deficiência ali encontrado chamou atenção por ter entre seis e oito meses na época de sua morte. Essa criança, que os pesquisadores apontaram ter hidrocefalia antes de morrer, “recebeu cuidados durante um período em que seu quadro clínico teria se tornado progressivamente mais debilitado”.

Esses exemplos, além do uso de mamadeiras como dispositivo de adaptação para bebês com deficiência, e outros inúmeros exemplos literários de indivíduos com deficiência que viveram até a idade adulta, são evidência de que os gregos não tinham o costume geral de abandonar crianças nascidas com deficiência à morte.

Abandono de bebês

Um fato é que, na Antiguidade, muitos bebês acabavam morrendo jovens, e o abandono infantil realmente acontecia, tanto entre gregos quanto entre romanos. No entanto, os estudos apontam que a principal motivação para estes abandonos não era tanto a aparência ou uma deficiência percebida, mas principalmente questões econômicas.

Logo, o infanticídio e abandono não eram uma atitude padrão com relação à deficiência e à suposta incapacidade, no antigo mundo greco-romano. Isso acontecia em certas sociedades, e filósofos antigos até prezavam pela ideia de perfeição física — autores como Platão e Aristóteles, por exemplo, chegaram a escrever sobre sociedades imaginárias em que a deficiência não existia. No entanto, na prática, majoritariamente as crianças com deficiência eram criadas até a idade adulta, ou até falecerem naturalmente.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.