Relatório diz que Putin ordenou envenenamento de ex-espião russo na Inglaterra
Novo relatório conclui que o presidente russo Vladimir Putin ordenou ataque com arma química contra ex-espião russo em 2018, embora negasse acusação

Um inquérito público no Reino Unido, divulgado nesta quinta-feira, 4, atribui ao presidente russo Vladimir Putin a responsabilidade pela ordem de um ataque utilizando o agente nervoso Novichok contra o ex-agente duplo Sergei Skripal em 2018. O relatório descreve a ação como uma demonstração “imprudente” de poder, que culminou na morte trágica da inocente Dawn Sturgess.
Sergei Skripal e sua filha Yulia foram encontrados inconscientes em um banco público na cidade de Salisbury, no sul da Inglaterra, em março de 2018. A investigação revelou que o veneno foi aplicado na maçaneta da porta da casa do ex-espião.
Quatro meses após o incidente, Dawn Sturgess, mãe de três filhos, faleceu em decorrência da exposição ao veneno, depois que seu parceiro encontrou uma garrafa de perfume adulterada utilizada por espiões russos para contrabandear o agente letal.
A investigação, liderada pelo ex-juiz da Suprema Corte britânica Anthony Hughes, concluiu que uma equipe da inteligência militar russa (GRU) foi responsável pela tentativa de assassinato de Skripal, que havia vendido segredos para os britânicos e se estabelecido no Reino Unido após uma troca de espiões em 2010.
Hughes afirmou: “Concluí que a operação para assassinar Sergei Skripal deve ter sido autorizada ao mais alto nível, pelo presidente Putin“. “A evidência de que este foi um ataque do Estado russo é esmagadora”, continuou. A Rússia, por sua vez, sempre negou qualquer envolvimento e rejeitou as acusações como mera propaganda anti-russa.
A embaixada russa em Londres não respondeu imediatamente a solicitações para comentar sobre o relatório. Durante a investigação, ficou claro que os dois agentes russos responsáveis pelo ataque agiram sem considerar o risco que representavam para a população local ao descartar o frasco contaminado.
O inquérito revelou que a garrafa contendo o veneno tinha potencial suficiente para matar milhares de pessoas. Hughes destacou a irresponsabilidade dos autores do ataque e dos oficiais superiores da GRU, incluindo Putin, em relação à morte de Sturgess.
Atividades hostis russas
Como resultado das conclusões do inquérito, o governo britânico anunciou novas sanções direcionadas à GRU e convocou o embaixador russo em Londres para discutir a “campanha em curso de atividade hostil” por parte da Rússia. O primeiro-ministro britânico Keir Starmer declarou: “O Reino Unido sempre enfrentará o regime brutal de Putin e chamará sua máquina assassina pelo que é”.
O envenenamento desencadeou uma onda sem precedentes de expulsões diplomáticas entre o Ocidente e a Rússia desde a Guerra Fria. As relações entre Moscou e Londres continuaram a se deteriorar após a invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022, com o Reino Unido fornecendo apoio militar substancial à Ucrânia.
Dois dos russos acusados pelo governo britânico apareceram na televisão russa negando qualquer envolvimento no incidente, afirmando serem turistas. Todos os três suspeitos negaram participação no envenenamento.
“O ataque a Sergei Skripal pela Rússia não foi, parece claro, projetado simplesmente como vingança contra ele, mas equivaleu a uma declaração pública, tanto para consumo internacional quanto doméstico, de que a Rússia agirá decisivamente naquilo que considera como seus próprios interesses”, diz o relatório. Ele ainda citou eventos anteriores, como a anexação da Crimeia e o abate do voo MH17 da Malaysia Airlines, como indicativos do crescente apetite russo por ações arriscadas, repercute a CNN Brasil.
Embora Putin tenha anteriormente rotulado Skripal como traidor, não houve evidências indicando que ele estivesse sob ameaça iminente ou que medidas poderiam ter sido tomadas para garantir sua segurança. Este inquérito é a segunda grande investigação a apontar diretamente para Putin em relação a ataques em solo britânico contra adversários; um estudo anterior realizado em 2016 já havia relacionado seu nome ao assassinato do dissidente Alexander Litvinenko com polônio radioativo-210.