Camarão sente dor? Documento faz alerta sobre bem-estar dos crustáceos
Documento assinado por 35 especialistas de diferentes países defende diretrizes para o bem-estar de crustáceos como camarões e lagostas

A capacidade de experimentar emoções, definida como “senciência“, tem sido um tema debatido entre especialistas em bem-estar animal, especialmente no que diz respeito aos crustáceos, como camarões e lagostas. A ideia de que esses animais não possuem um sistema nervoso complexo o suficiente para sentir dor ou desconforto já foi comum. E isso justificou práticas como cozinhar frutos do mar ainda vivos para garantir frescor. Contudo, novas pesquisas têm desafiado essa visão.
Recentemente, a ONG Alianima divulgou a chamada “Declaração de Senciência em Crustáceos“, assinada por 35 especialistas internacionais, incluindo cientistas e veterinários. O documento argumenta que os crustáceos são sencientes, capazes de sofrer e sentir dor. Essa afirmação baseia-se em evidências neuroanatômicas, comportamentais e farmacológicas que sustentam a ideia de que esses animais têm a capacidade de perceber estímulos nocivos.
Conforme apontado na declaração, embora haja lacunas na pesquisa sobre a senciência dos crustáceos, as evidências disponíveis sugerem que a capacidade de sentir emoções não é restrita aos vertebrados. De acordo com o portal Galileu, os autores da declaração afirmam que os crustáceos têm um sistema nervoso adaptado para detectar condições potencialmente prejudiciais, como temperaturas extremas e choques elétricos.
Reações a estímulos
Esses animais demonstram reações complexas a estímulos dolorosos, incluindo comportamentos de autocuidado, como esfregar áreas afetadas. Além disso, estudos indicam que quando anestesiados, esses animais apresentam uma diminuição nos comportamentos alterados em resposta a estímulos dolorosos, sugerindo um processamento mais complexo do que simples reflexos.
A pesquisa também revelou que crustáceos são capazes de distinguir cores e objetos, além de produzir e reproduzir sons e reconhecer outros indivíduos. Comportamentos indicativos de memória e tomada de decisões foram observados, assim como indícios de personalidade entre diferentes indivíduos.
Relatório britânico
Em 2021, um relatório do governo do Reino Unido reconheceu legalmente moluscos cefalópodes e crustáceos decápodes como seres sencientes após análise de mais de 300 estudos científicos. Os pesquisadores utilizaram critérios focados tanto no sistema nervoso quanto no comportamento dos animais para embasar essa decisão.
Um estudo recente conduzido na Universidade de Gotemburgo investigou caranguejos-verdes com eletroencefalografia (EEG), revelando aumento da atividade cerebral ao serem expostos a substâncias potencialmente dolorosas. Por outro lado, Robert William Elwood, da Queen’s University ressalta que os crustáceos podem não reagir a todos os estímulos nocivos da mesma forma que os mamíferos, embora haja semelhanças em algumas respostas comportamentais.
A Organização Mundial da Saúde Animal (OMSA) ainda não possui diretrizes específicas para o bem-estar dos crustáceos. Contudo, instituições internacionais estão discutindo abordagens sobre invertebrados aquáticos visando melhorar suas condições.
No contexto atual da produção de frutos do mar, cerca de 440 bilhões de camarões são cultivados anualmente em todo o mundo. Com a pesca inclusa, estima-se que até 76 trilhões de camarões sejam mortos por ano.