Cientistas pedem revisão do recorde de calor extremo no Vale da Morte
Novo estudo indica que a famosa marca de 56,7 ºC registrada em 1913 no Vale da Morte pode ter sido inflada por erros de medição e violações de protocolo

O Vale da Morte, na Califórnia, mantém há 112 anos o recorde de maior temperatura do ar já registrada perto da superfície da Terra, com 56,7 graus Celsius medidos em 10 de julho de 1913 no Rancho Greenland. Pesquisadores afirmam agora que a marca pode estar incorreta e defendem que o registro seja oficialmente revisado.
O estudo, publicado no periódico Bulletin of the American Meteorological Society, analisou dados de estações meteorológicas localizadas em um raio de 250 quilômetros do rancho entre 1923 e 2024, com ajustes de altitude. A comparação indica que a temperatura real no dia do suposto recorde teria sido de aproximadamente 48,9 graus Celsius.
Esse valor é muito abaixo do que é aceito atualmente. Segundo Roy Spencer, pesquisador da Universidade do Alabama, sempre existiu ceticismo entre especialistas. Ele afirma que muitos meteorologistas passaram décadas desconfiando do dado histórico.
Inconsistências nos registros
Conforme informações repercutidas pela revista Live Science, os pesquisadores identificaram que as temperaturas excepcionalmente altas registradas em julho de 1913 não acompanharam as tendências observadas em estações vizinhas. Mesmo em anos recentes marcados pelo aquecimento global, o Vale da Morte raramente ultrapassa 54,4 graus Celsius, marca alcançada somente em 2020 e 2021.

O estudo também aponta possíveis interferências humanas. Fotografias históricas sugerem que o capataz do Rancho Greenland, Oscar Denton, mudou o abrigo meteorológico para uma área mais quente e exposta, sem comunicação oficial. Essa alteração teria causado distorções significativas nas medições.
Possível troca de medições
Outro ponto levantado pela pesquisa envolve a hipótese de que Denton tenha substituído algumas leituras da estação por valores obtidos em termômetros instalados na varanda da propriedade.
Esses aparelhos tinham procedência desconhecida e ficavam em um ambiente com teto duplo, o que favorecia o acúmulo de ar quente. Spencer ressalta que jornais e cartas da época mencionaram temperaturas acima de 135 graus Fahrenheit registradas na varanda, o que reforça um padrão de medições inadequadas.
Pressão por revisão
Especialistas externos também consideram o estudo consistente. Dan McEvoy, climatologista do Instituto de Pesquisa do Deserto, afirma que as conclusões são convincentes e baseadas em evidências históricas sólidas.
Ele defende que a Organização Meteorológica Mundial e a NOAA avaliem novamente o recorde. Mesmo assim, temperaturas recentes extremamente altas ainda podem manter o Vale da Morte como forte candidato ao título de local mais quente do planeta.