Neste dia, há 200 anos, nascia o imperador Dom Pedro II
Neste dia, em 1825, nascia o segundo e último imperador brasileiro, que ascendeu precocemente ao trono e foi deposto com a Proclamação da República

Em 2 de dezembro de 1825, há 200 anos, nasceu no Rio de Janeiro o imperador Dom Pedro II, o primeiro governante genuinamente brasileiro, nascido após o reconhecimento internacional da nossa independência. Conhecido pelo caráter profundamente intelectual, o filho de Pedro I e Leopoldina teve formação muito diferente da de outros monarcas do século 19.
Não se tratava apenas da formação de um príncipe, mas do projeto de criação de um governante ideal para um Estado que ainda aprendia a existir. Cresceu cercado de mestres, exposto a uma carga de estudos quase sobre-humana, praticando caligrafia copiando máximas morais que deveriam guiá-lo na vida pública.
Órfão de pai aos cinco anos, criado por tutores liberais e influenciado diretamente por José Bonifácio, Pedro II desenvolveu uma identidade marcada pela filosofia iluminista. Estudou ciências naturais, matemática, filosofia e línguas (pelo menos catorze). Com dois anos, inclusive, o jovem príncipe já falava francês. Como o autor de “D. Pedro II e a emancipação dos escravos” Mauro Henrique Miranda de Alcântara resumiu bem em declaração ao Aventuras, ele estava mais próximo de um intelectual burguês europeu do que de um rei absolutista.
Um imperador de intelecto
Essa formação transbordou para sua ação como chefe de Estado. O homem de letras moldou o homem de governo. Incentivou expedições científicas, fundou instituições de pesquisa, manteve correspondência com intelectuais da Europa e buscou trazer ao Brasil tudo o que visse de útil ou inovador no mundo. A presença de um Instituto Pasteur brasileiro antes mesmo do francês simboliza esse impulso modernizador.
“Essa formação intelectual do imperador faz com que ele fique antenado sobre todas as novidades da ciência, tecnologia, letras, e tenta trazer isso para o Brasil. Então, essa educação vai formar essa pessoa curiosa o suficiente para tentar trazer tudo de bom que existe no mundo para o Brasil”, aponta o escritor Paulo Rezzutti.

Mas aí surge um paradoxo. Tão fascinado pelo conhecimento, Pedro II se afastou das elites agrárias que sustentavam a monarquia. Preferia dialogar com cientistas a negociar com fazendeiros. Governava “de cima”, como analisa José Murilo de Carvalho, — e como uma espécie de “árbitro supremo”, na visão de Miranda de Alcântara — alternando liberais e conservadores no chamado “parlamentarismo às avessas”. Essa engenharia deu ao governo estabilidade, mas ao custo de transformar os partidos em meras facções. A política virou formalidade enquanto o Império, gradualmente, foi perdendo legitimidade.
O nascimento do país
Como aponta Paulo Rezzutti, o custo da estabilidade de um Brasil recém-independente foi o próprio D. Pedro II. Ele nasceu em 1825, apenas um mês após Portugal assinar o Tratado de Paz e Aliança que finalmente reconhecia o Brasil como nação soberana. O nascimento do menino coincidia simbolicamente com o nascimento do país — e isso o transformou, desde o primeiro dia de vida, no emblema da independência brasileira.
Esse peso só aumentou com o tempo. Quando D. Pedro II assumiu o trono em 1840, graças ao chamado Golpe da Maioridade, o Brasil enfrentava grande instabilidade regencial em razão de conflitos entre grupos políticos rivais e revoltas regionais, como a Farroupilha. A ideia das elites era colocar no topo da hierarquia alguém acima das disputas, capaz de pacificar o país.
Mas esse “preço” caiu sobre os ombros de um adolescente. Aos 14 anos, Pedro II foi chamado a encerrar crises que vinham ocorrendo desde a saída de seu pai. A infância, que já era rígida e moldada para o poder, praticamente desapareceu. Ele próprio reconheceu isso numa carta ao cunhado: “Quiseram que eu tivesse 18 aos 14.”
O fim do império
A Guerra do Paraguai foi o ponto de virada que expôs os limites do sistema. O conflito prolongado empurrou o país para o endividamento, matou milhares e fortaleceu o Exército, justamente a instituição que depois derrubaria o Império. Para historiadores como Roderick Barman, 1870 marca o início da crise terminal.
“Seis anos de guerra, centenas de milhares de mortos, país endividado… Pedro II, que era popular como “comandante supremo”, virou bode expiatório. Barman, considera 1870 o divisor de águas. A guerra fortaleceu o Exército, que se tornou republicano, e expôs a fragilidade do sistema imperial”, aponta Miranda de Alcântara.
Além disso, a convivência de soldados brancos com escravizados que lutavam em troca da alforria aproximou parte da tropa do abolicionismo. Acerca deste tema, Luca Lima Lacomini, doutorando e mestre em História pela Universidade Federal do Paraná, destaca:
O governo anunciou que os escravizados que entrassem na guerra receberiam a alforria. Muitos soldados brancos começaram, então, a simpatizar com a causa abolicionista. Por conta da convivência que eles tiveram com os negros ali que eram escravizados e que aceitaram entrar no Exército por conta dessa proposta. A gente também sabe que o Exército também teve um papel primordial na proclamação da República, em parte por conta da experiência com o Paraguai”
Também é importante destacar a grande contradição que envolve a figura de Pedro II. Se por um lado, o monarca costuma ser lembrado como uma figura culta e supostamente abolicionista, por outro, governou uma nação sustentada pela escravidão. Por esse motivo, a própria abolição, somou-se aos fatores determinantes para o fim da monarquia.
Ao final da vida, Dom Pedro II estava politicamente só e, em 15 de novembro de 1889 veio a proclamação da República. O imperador deposto morreria no exílio dois anos mais tarde.