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Rei holandês diz que ‘não se esquivará’ da história da escravidão em visita ao Suriname

Em visita ao Suriname, antiga colônia holandesa, o rei Willem-Alexander prometeu que tema da escravidão não seria tabu a ser evitado

O rei holandês Willem-Alexander / Crédito: Getty Images

O rei Willem-Alexander da Holanda reafirmou na última segunda-feira, 1º de dezembro, seu compromisso em discutir abertamente o legado da escravidão durante sua visita ao Suriname, ex-colônia onde a prática foi oficialmente abolida há pouco mais de 150 anos.

Acompanhado pela rainha Máxima, o monarca chegou à capital Paramaribo no domingo, uma semana após a nação sul-americana celebrar meio século de independência em relação aos Países Baixos.

Em um pronunciamento durante a visita de três dias, Willem-Alexander enfatizou: “não nos esquivaremos da história, nem de seus elementos dolorosos, como a escravidão.” Essa é a primeira visita de membros da família real holandesa ao país em quase cinquenta anos.

Vale mencionar que a escravidão foi formalmente abolida no Suriname e em outras colônias holandesas no dia 1º de julho de 1863, mas sua prática continuou até 1873, após um período de “transição” de dez anos, conforme repercute o The Guardian. Durante os séculos 16 e 17, a Holanda sustentou sua “era de ouro” imperial e cultural através do tráfico de cerca de 600 mil africanos, principalmente para a América do Sul e o Caribe.

Em uma reunião com a presidente surinamense Jennifer Geerlings-Simons, o rei expressou estar “ciente de quão profundamente isso ressoa entre os descendentes de pessoas escravizadas e as comunidades indígenas. Estamos ansiosos para dialogar com eles.”

Desde a independência em 1975, Suriname tem enfrentado revoltas e golpes. Contudo, a recente descoberta de vastas reservas de petróleo em alto-mar oferece esperança para reverter o destino econômico do país.

O rei afirmou que os Países Baixos estão interessados em fortalecer laços com sua antiga colônia “com base na igualdade e no respeito mútuo“. Ele acrescentou que construir um futuro comum “só faz sentido se levarmos em conta a base sobre a qual nos apoiamos. Essa base é o nosso passado compartilhado”.

Pedido de desculpas

Em dezembro de 2022, o governo holandês apresentou um pedido oficial de desculpas pela escravidão por meio do então primeiro-ministro Mark Rutte, seguido por um pedido real do rei no ano seguinte.

Willem-Alexander e Máxima têm programados encontros com representantes dos descendentes de escravizados, grupos tradicionais e indígenas em reuniões fechadas.

Entretanto, um grupo de afro-surinameses criticou o programa real por não incluir uma cerimônia de colocação de coroas em um monumento em Paramaribo que celebra a abolição da escravidão.

As relações diplomáticas entre os dois países foram severamente afetadas durante o regime militar do ex-ditador Desi Bouterse entre 1982 e 1992, e novamente quando ele voltou ao poder como presidente eleito entre 2010 e 2020. O partido Nacional Democrático (NDP), liderado por Bouterse, é atualmente dirigido por Geerlings-Simons.

Um estudo realizado em 2023 revelou que a família real holandesa gerou € 545 milhões (quase R$ 3,4 bilhões, na cotação atual) em valores atuais entre 1675 e 1770 oriundos das colônias onde a escravidão era predominante. Os ancestrais do rei, Willem III, Willem IV e Willem V, estavam entre os maiores beneficiários do que o relatório holandês descreveu como um “envolvimento deliberado, estrutural e de longo prazo” na escravidão.

Em 2022, Willem-Alexander anunciou que abandonaria a tradicional carruagem real dourada utilizada em ocasiões oficiais devido às imagens que retratam a escravidão presentes nas laterais do veículo.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.