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Humanos modernos chegaram na Austrália há 60 mil anos, diz estudo

Novo estudo aponta que os humanos modernos chegaram à Austrália há 60 mil anos, e podem ter se miscigenado com outros humanos arcaicos da região

Mapa indicando possíveis rotas migratórias em Sunda, Sahul e no Pacífico Ocidental / Crédito: Divulgação/Helen Farr e Erich Fisher

Uma pesquisa recente, envolvendo quase 2.500 genomas, traz novas evidências sobre a chegada dos humanos modernos na Austrália, esclarecendo um debate que perdura há décadas. O estudo, publicado na revista Science Advances, analisa um vasto conjunto de dados de DNA de povos aborígenes antigos e contemporâneos de toda a Oceania, indicando que a habitação humana do norte da Austrália começou há aproximadamente 60.000 anos, através de duas rotas distintas.

Historicamente, especialistas discutiram a data de chegada dos primeiros humanos ao continente australiano, um evento que exigiu inovações tecnológicas significativas, como a construção de embarcações. Enquanto alguns pesquisadores defendem uma cronologia mais curta, datando a chegada entre 47.000 e 51.000 anos atrás, outros apoiam uma cronologia mais longa, argumentando que os primeiros habitantes chegaram entre 60.000 e 65.000 anos atrás com base em evidências arqueológicas e no conhecimento aborígene.

A pesquisa mais recente foi conduzida por uma equipe que utilizou um conjunto de dados sem precedentes composto por 2.456 genomas humanos para determinar quando as populações migraram da antiga massa de terra Sunda (abrangendo regiões que hoje correspondem à Indonésia, Filipinas e Península Malaia) para Sahul, um paleocontinente que incluía a Austrália moderna, Tasmânia e Nova Guiné.

Conforme explicou Martin Richards, arqueogeneticista da Universidade de Huddersfield e coautor do estudo, em e-mail ao Live Science, “este é o estudo genético mais abrangente até o momento sobre essa questão e oferece forte apoio à cronologia longa em vez da cronologia curta”.

A análise também identificou dois grupos distintos de migrantes: um vindo do norte e outro do sul. “Essa conclusão se encaixa muito bem com as evidências arqueológicas e oceanográficas/paleoclimáticas de uma entrada em Sahul por volta de 60.000 anos atrás”, complementa Richards.

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores aplicaram uma abordagem de relógio molecular, que considera que as mutações nas sequências de DNA ocorrem a uma taxa relativamente constante ao longo do tempo. Ao comparar diferenças em sequências de DNA, foi possível estimar o período em que essas sequências divergiram.

No decorrer do estudo, métodos estatísticos foram utilizados para analisar o DNA mitocondrial (transmitido pela linha materna) e os dados do cromossomo Y (transmitidos pela linha paterna). Todas as análises indicaram uma data aproximada de 60.000 anos para o assentamento no norte da Austrália.

Além disso, os dados genéticos revelaram dois assentamentos distintos ocorrendo simultaneamente: um grupo chegou via Sunda Meridional (ilhas indonésias), enquanto o outro partiu da Sunda Setentrional (arquipélago filipino). Segundo Richards, os dois grupos eram inicialmente parte da mesma população que deixou a África entre 70.000 e 80.000 anos atrás, e “acreditamos que eles se separaram durante a dispersão para o leste, no sul ou sudeste da Ásia”, possivelmente entre 10.000 a 20.000 anos antes de alcançar a Austrália.

Nossos resultados indicam que os aborígenes australianos, juntamente com os habitantes da Nova Guiné, possuem a ancestralidade ininterrupta mais antiga de qualquer grupo de pessoas fora da África”, destaca o pesquisador.

Miscigenação

Durante essa migração inicial, é possível que esses pioneiros humanos tenham interagido com espécies humanas arcaicas como Homo longi, H. luzonensis e H. floresiensis — popularmente conhecido como “hobbit” — embora ainda não esteja claro até que ponto houve interação entre humanos modernos e essas populações arcaicas na região, repercute o Live Science.

Adam Brumm, arqueólogo da Universidade Griffith na Austrália e não envolvido na pesquisa, afirmou que este estudo reforça a ideia de que os movimentos humanos iniciais foram cruciais para o povoamento de Sahul. “Se eu tivesse que apostar, apostaria no modelo da ‘cronologia longa'”, declarou Brumm.

As implicações desta pesquisa são significativas para a compreensão da antiguidade dos povos aborígenes na Austrália. Helen Farr, coautora do estudo e arqueóloga da Universidade de Southampton no Reino Unido, comentou: “muitos aborígenes australianos e habitantes das Ilhas do Estreito de Torres entendem que sempre estiveram nesta terra”.

Farr acrescentou que “esses dados comprovam uma herança cultural muito rica para essas comunidades e revelam os laços estreitos que as pessoas mantêm com a Terra e o Mar há pelo menos 60.000 anos” — além de evidenciar que conhecimentos navais essenciais à sobrevivência dos primeiros humanos não estão documentados no registro arqueológico.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.