Vítor Soares / Crianças Verdes de Woolpit

Enigma Medieval: O mistério das Crianças Verdes de Woolpit

No século 12, duas crianças apareceram na aldeia de Woolpit, em Suffolk, e intrigaram os moradores por conta de uma peculiaridade: elas tinham sua pele de um vívido tom verde

Ilustração da obra "Bebês na Floresta", de Randolph Caldecott, com cores modificadas - Domínio Público

Em algum momento do século 12, durante o reinado de Henrique II na Inglaterra, um evento extraordinário e bizarro teria ocorrido na aldeia de Woolpit, em Suffolk. Esta história, registrada por cronistas da época como William de Newburgh (em sua Historia Rerum Anglicarum) e Ralph de Coggeshall (em Chronicum Anglicanum), permanece até hoje como um dos mistérios medievais mais persistentes e fascinantes: a lenda das Crianças Verdes de Woolpit.

A narrativa central é simples e, ao mesmo tempo, profundamente enigmática. Certo dia, os habitantes de Woolpit, um nome que se traduz literalmente como “poço do lobo”, descobriram duas crianças — um menino e uma menina — perto das fossas utilizadas para capturar lobos. O que as tornava singulares não era apenas o fato de estarem perdidas, mas a sua pele de um vívido tom verde.

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Estranha linguagem

As crianças, que pareciam ter cerca de cinco anos de idade, estavam vestidas com roupas de um material e corte desconhecidos e, de início, recusavam-se a comer qualquer tipo de alimento oferecido pelos aldeões. Elas falavam uma língua que ninguém conseguia identificar ou compreender.

Foram levadas para a casa de Sir Richard de Calne, um rico proprietário de terras local, onde passaram a ser cuidadas. Por muitos dias, quase morreram de fome porque só aceitavam um tipo de alimento: vagens cruas. Segundo os relatos, quando os habitantes lhes trouxeram vagens, as crianças abriram as hastes, esperando encontrar comida dentro, e ficaram desapontadas ao não a encontrarem, acabando por comer apenas os grãos.

Com o tempo, no entanto, as crianças começaram a se adaptar à vida e à dieta da aldeia. Infelizmente, o menino adoeceu e morreu pouco tempo depois de ser batizado. A menina sobreviveu, e à medida que sua dieta melhorava e se tornava mais normal, a coloração verde de sua pele começou a desaparecer — e ela gradualmente assumiu uma aparência que não diferia da de qualquer outra criança inglesa.

Origem misteriosa

A parte mais intrigante da história veio quando a menina aprendeu a falar inglês. Ela foi capaz de narrar sua origem, embora seu relato fosse estranho e confuso para os ouvintes medievais.

Ela disse que ela e seu irmão vinham de um lugar chamado Terra de São Martinho (ou Terra de São Martino), que, segundo ela, era um lugar onde o sol nunca brilhava e havia um crepúsculo perpétuo. “Somos habitantes da terra de São Martinho, que é reverenciado com peculiar devoção no país que nos deu à luz.”

“Não sabemos como chegamos aqui; lembramo-nos apenas de que, certo dia, enquanto alimentávamos os rebanhos de nosso pai nos campos, ouvimos um grande som, como o que costumamos ouvir em St. Edmund’s quando os sinos tocam; e, enquanto ouvíamos o som com admiração, ficamos subitamente, por assim dizer, encantados, e nos encontramos entre vocês nos campos onde estavam ceifando.”

O sol não nasce para os nossos compatriotas; a nossa terra pouco se alegra com os seus raios; contentamo-nos com o crepúsculo que, entre vós, precede o nascer do sol ou segue o pôr do sol. Além disso, avista-se uma certa terra luminosa, não muito distante da nossa, e separada dela por um rio muito caudaloso.”

Após a morte do irmão, a menina, que se dizia ter recebido o nome de Agnes em algumas tradições, permaneceu na casa de Sir Richard por muitos anos. Ralph de Coggeshall afirma que, posteriormente, ela se casou com um homem de King’s Lynn (em Norfolk), embora este detalhe seja omitido por William de Newburgh.

As Teorias

O mistério das Crianças Verdes tem cativado historiadores, folcloristas e curiosos por séculos, gerando uma série de teorias que tentam conciliar o relato com a realidade histórica ou científica.

1. A explicação extraterrestre (e a Terra Oca)

A descrição de uma terra subterrânea e a cor verde da pele facilmente levaram a interpretações mais fantásticas. No século 17, o antiquário Robert Burton especulou que as crianças poderiam ter “caído do céu”. No pensamento moderno, a Terra de São Martinho é por vezes interpretada como um mundo alienígena ou, mais romanticamente, como parte do mito da Terra Oca, onde as crianças teriam emergido de uma dimensão paralela ou de um reino subterrâneo.

2. O Conto Folclórico

Muitos consideram a história como um conto folclórico medieval — uma fábula moral ou um mito que se enraizou. Elementos como a “cor verde”, que está fortemente associada a fadas ou seres do Outro Mundo na mitologia celta e inglesa, sugerem que a história pode ter sido inventada ou embelezada para explicar um evento real de forma mágica.

3. Tragédia humana

A teoria mais aceita entre os historiadores e pesquisadores modernos oferece uma explicação baseada em fatos históricos e médicos.

A pobreza e a doença: A coloração verde da pele é frequentemente ligada a uma condição conhecida como anemia ferropriva (deficiência de ferro), especialmente uma forma grave chamada clorose (ou a “doença verde”). Essa condição, que faz a pele parecer esverdeada, era causada por dietas muito pobres e falta de nutrientes, algo comum em crianças camponesas da época. A melhoria na dieta de Sir Richard explicaria por que a cor da pele da menina desapareceu.

Contexto histórico: O historiador e folclorista Paul Harris e, mais tarde, o astrônomo e autor Duncan Lunan, propuseram que as crianças eram, na verdade, órfãs da região de Fornham St. Martin, uma vila a poucos quilômetros de Woolpit. Esta área estava habitada por imigrantes flamengos que, em 1173, foram perseguidos e massacrados durante uma insurreição sob Henrique II. Lunan sugere que as crianças, ao presenciarem a violência, fugiram e se esconderam nos poços de mineração ou túneis subterrâneos de Thetford (uma área localmente famosa por suas escavações).

Confusão linguística: Sua língua desconhecida seria, na verdade, o dialeto flamengo da época, ininteligível para os anglo-saxões de Woolpit. O relato da “Terra de São Martinho” seria uma referência direta à sua aldeia de origem (Fornham St. Martin), onde o “sol não brilha” devido ao tempo que passaram na escuridão dos túneis, e a passagem subterrânea seria o próprio sistema de cavernas.

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!