Terremotos silenciosos: falhas profundas se fecham em horas, diz pesquisa
Pesquisa mostra que falhas profundas da zona de subducção de Cascádia podem se recuperar em horas, mudando o entendimento sobre terremotos e deslizamentos lentos

Uma nova pesquisa sugere que rachaduras profundas causadas por certos tipos de terremotos podem se fechar novamente em poucas horas. Isso ocorre em fissuras associadas aos chamados eventos de deslizamento lento.
Diferente dos grandes terremotos, que liberam energia em segundos e causam deformações imediatas, esses deslizamentos se acumulam ao longo de dias, semanas ou meses.
Terremotos silenciosos
De acordo com a autora principal do estudo, Amanda Thomas, professora de geofísica da Universidade da Califórnia, esses eventos são considerados terremotos “silenciosos”. Em outras palavras, o deslizamento ocorre devagar e não irradia ondas fortes capazes de provocar destruição na superfície.
O que determina se a falha desliza lenta ou repentinamente é o comportamento friccional da falha e a tensão efetiva sobre ela”, explicou Thomas em e-mail enviado ao Live Science.
Laboratório natural
Para o estudo, Thomas e sua equipe analisaram uma megafalha nas profundezas da zona de subducção de Cascádia , onde a placa Juan de Fuca mergulha sob a placa Norte-Americana. A região é considerada ideal para esse tipo de investigação porque registra muitos eventos lentos e possui uma das melhores redes de monitoramento sísmico da América do Norte, conforme informações repercutidas pela revista Live Science.
Ainda segundo Thomas, essa megafalha é capaz de gerar terremotos de magnitude 8 e 9. Em zonas de subducção como Cascádia , os eventos mais fortes ocorrem em rochas mais rasas e frias, enquanto os deslizamentos lentos acontecem em profundidades maiores, sob temperaturas e pressões muito mais elevadas.
Experimento recria condições
O novo artigo publicado na Science Advances reforça que as falhas profundas de Cascádia podem se “recuperar” em poucas horas, permitindo que a mesma área volte a romper várias vezes durante um único ciclo de deslizamento lento. O comportamento desafia modelos tradicionais de sismologia e indica uma recarga de tensão muito mais rápida do que se imaginava.
Para entender o processo, os pesquisadores recriaram em laboratório as condições extremas encontradas a dezenas de quilômetros de profundidade. Cápsulas de prata contendo quartzo em pó e água foram aquecidas a cerca de 500 ºC e submetidas a uma pressão 10 mil vezes maior que a atmosférica. Após poucas horas, análises por microscopia eletrônica mostraram que os grãos se fundiram, evidenciando um fortalecimento acelerado do material.

Segundo Thomas, “a cicatrização de falhas depende de temperatura, pressão e fluidos, e nossos experimentos mostraram que esse fortalecimento ocorre em questão de horas”. Em terremotos superficiais, o mesmo processo pode levar anos ou até décadas para acontecer.
O estudo também observou que rajadas sísmicas recorrentes em Cascádia coincidem com ciclos das marés, sugerindo que a variação do oceano pode reativar a falha logo após sua recuperação. A rápida cicatrização, segundo os autores, deve ser incorporada nos próximos modelos sísmicos, já que influencia diretamente a compreensão dos riscos em regiões capazes de gerar grandes terremotos.