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Descendentes de casal judeu que fugiu do nazismo exigem devolução de quadro de Van Gogh

Herdeiros de um casal judeu estão movendo ação judicial contra o Metropolitan Museum of Art e uma fundação grega; quadro foi deixado para trás na Alemanha durante fuga

"Colheita de Azeitonas" por Vincent van Gogh em 1889; ao lado de Hedwig Stern, seu marido, Frederick, e seu filho, Walter - Crédito: Divulgação/Fundação Basil & Elise Goulandris/Coleção do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos

Descendentes de um casal judeu estão movendo uma ação judicial contra o Metropolitan Museum of Art e uma fundação grega, alegando que uma pintura a óleo de Vincent Van Gogh foi deixada para trás na Alemanha quando o casal fugiu dos nazistas, às vésperas da Segunda Guerra Mundial.

O processo judicial acusa o museu de Nova York, que adquiriu a obra em 1956 por US$ 125 mil, de negligência na verificação da procedência da pintura antes da compra. Em 1972, a obra foi vendida para um magnata grego do setor naval, e os herdeiros agora buscam a restituição da peça. 

A obra em questão, intitulada “Colheita de Azeitonas”, foi criada por Van Gogh em 1889, um ano antes de sua morte. O casal Hedwig e Frederick Stern adquiriu a pintura em 1935. Conforme detalha o processo, os Sterns não puderam levar a obra com eles ao fugirem de Munique com seus seis filhos rumo à Califórnia em 1936. A pintura foi vendida na Alemanha em 1938, mas os lucros foram confiscados pelos nazistas, conforme alegações feitas no tribunal federal de Manhattan.

Após a Segunda Guerra Mundial, a pintura chegou aos Estados Unidos e foi adquirida por Vincent Astor, um dos homens mais ricos da época. Ele comprou a obra de um negociante de arte judeu que supostamente não informou sobre a propriedade anterior dos Sterns. Posteriormente, a esposa de Astor, Brooke Astor, vendeu o quadro a uma galeria que o repassou ao Met. O museu acabou negociando a pintura com Basil Goulandris e sua esposa Elise.

De acordo com informações do New York Times, atualmente, a obra está exposta em um museu em Atenas sob a administração da fundação criada pelo casal Goulandris. O site dessa instituição não menciona os Sterns como proprietários anteriores da pintura.

Ação em Nova York

Os herdeiros já haviam iniciado uma ação similar na Califórnia em 2022, mas o caso foi arquivado devido a questões jurisdicionais. A nova ação argumenta que Nova York é o local adequado para julgamento.

O processo sustenta que o Met deveria ter realizado uma investigação mais aprofundada sobre a origem da obra antes da sua aquisição. Os documentos indicam que Theodore Rousseau Jr., curador de pinturas europeias do museu e especialista em arte saqueada pelos nazistas, supervisionou essa compra. Ele havia sido membro de uma unidade que rastreou obras saqueadas durante a guerra.

Alegações contidas no processo afirmam que Rousseau e o Met estavam cientes ou deveriam estar cientes da possibilidade de que a pintura tivesse sido saqueada. No entanto, segundo as alegações, nenhuma medida foi tomada para verificar as transferências da obra durante o período da guerra.

Os autos também mencionam as tentativas dos Sterns de reivindicar seus direitos sobre a pintura após o conflito, com auxílio de um especialista em restituição do Departamento de Estado dos EUA.

O que dizem as instituições

O Metropolitan Museum declarou não ter conhecimento sobre qualquer ligação nazista envolvendo a história da pintura antes ou depois de sua posse. Em comunicado emitido em 2022, o museu afirmou que “durante o período em que a pintura esteve sob sua guarda, não havia registro de que ela pertencesse à família Stern“, ressaltando que essas informações só foram disponibilizadas anos depois da saída da obra do acervo do museu.

A justificativa para venda do quadro inclui menções ao fato de que ele foi considerado inferior em qualidade comparado a outras obras similares na coleção do museu. O Met reiterou sua posição legal em relação à aquisição e mencionou estar aberto a novas informações que possam surgir sobre a procedência da obra. A fundação Goulandris ainda não se manifestou sobre as alegações apresentadas.

Os descendentes dos Sterns buscam compensação financeira pelo uso e posse da pintura entre 1956 e 1972, além dos lucros obtidos com sua venda.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.