Como o rei Charles transformou a figura da rainha Camilla
Novo livro de Andrew Morton revela paralelos entre as estratégias de Winston Churchill com Eduardo VIII e a de Charles com Camilla

Quando o então príncipe Charles decidiu transformar Camilla Parker Bowles em sua esposa, ele seguiu uma estratégia conhecida na Casa de Windsor: jogar o jogo longo. O futuro monarca sabia que o tempo seria seu maior aliado para transformar uma figura inicialmente rejeitada pelo público em uma integrante aceita — e, eventualmente, respeitada — da família real britânica.
Segundo o biógrafo Andrew Morton, autor do recém-lançado “Winston and the Windsors”, Charles inspirou-se em uma fórmula real testada ao longo da história. “Ele disse aos cortesãos que Camilla era uma parte permanente e inegociável de sua vida”, conta Morton. “Então começou um processo lento de normalização: primeiro conquistar a mídia cética, tão marcada pela lembrança de Diana, e depois o público”.
O plano deu resultado. O casal, que enfrentou anos de resistência popular após a morte da princesa Diana, em 1997, casou-se em 2005, consolidando uma das reviravoltas de imagem mais notáveis da monarquia moderna.
Lição do tempo
Morton traça um paralelo curioso: a mesma estratégia de paciência teria sido defendida décadas antes por Winston Churchill, em sua relação com o rei Eduardo VIII, o monarca que abdicou do trono em 1936 para se casar com Wallis Simpson, uma americana divorciada duas vezes.
“Churchill sempre achou que Eduardo acabaria se estabilizando com o tempo”, explica Morton. “Ele nunca imaginou que o rei abriria mão da coroa por um relacionamento que ele mesmo dizia ser platônico”.
Segundo o autor, o primeiro-ministro acreditava que o rei poderia introduzir gradualmente Wallis ao público, por meio de aparições calculadas e fotos oficiais — exatamente o tipo de transição que, décadas depois, Charles adotaria com Camilla. “A política de Churchill era ganhar tempo: passar pela coroação e, aos poucos, apresentar o objeto de seu desejo à sociedade”, diz Morton.
Mas Eduardo VIII não quis esperar. Menos de um ano após subir ao trono, ele abdicou após 326 dias, antes mesmo de ser coroado, abrindo uma ferida histórica na monarquia britânica.
Morton acredita que Charles aprendeu com essa história. “Em 1992, quando Charles e Diana se separaram, o primeiro-ministro John Major anunciou que não havia planos para um divórcio”, relembra. “Havia a sensação de que, mesmo separados, eles compareceriam juntos à coroação”.
O biógrafo argumenta que Charles compreendeu o valor da paciência institucional. “Ele aprendeu que não se deve forçar a barra, e sim pensar no longo prazo. Camilla começou como Duquesa da Cornualha, tornou-se rainha consorte e agora é simplesmente rainha — e não houve tumultos nas ruas”, afirma Morton.
Winston Churchill
O livro também revisita o papel único de Winston Churchill dentro da monarquia. Para Morton, o ex-primeiro-ministro foi mais do que um político — foi um aliado duradouro de várias gerações reais. “Ele teve uma amizade calorosa com George V, quase perdeu a carreira por defender Eduardo VIII e manteve um relacionamento de grande admiração com George VI“, explica o autor.
Com a Rainha Elizabeth II, que assumiu o trono aos 25 anos, Churchill foi um mentor e conselheiro decisivo nos primeiros anos do reinado. “Ele a guiou com sabedoria e ternura. Saía das audiências com lágrimas de riso escorrendo pelo rosto”, recorda Morton.
Segundo o ‘PEOPLE’, o respeito era mútuo. “Não há dúvidas de que ele foi o favorito entre os 15 primeiros-ministros que Elizabeth teve”, afirma o biógrafo.
Morton conclui que, embora Churchill não fosse um moralista, ele compreendia profundamente a necessidade de equilibrar coração e dever na monarquia. “Ele não olhava pelo retrovisor. Quando algo estava resolvido, ele simplesmente seguia em frente”, resume.