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Mauricio de Sousa 90 anos: A trajetória do pai da Turma da Mônica

Um dos quadrinistas mais importantes de nossa cultura tem uma história de vida digna de filme

Mauricio de Sousa - Mauricio de Sousa Produções

Tudo começou como um sonho de criança. Não tinha como não ser assim. Embora seu pai fosse barbeiro, era poeta e pintor por vocação. Já sua mãe, poetisa. O menino nascido no município paulista de Santa Isabel cresceu em um ambiente cheio de arte e livros. Respirando cultura.

Assim, criou mais de 400 personagens que ajudam a representar a literatura infantojuvenil brasileira — e que também contam sua história. Desde o menino da roça ao cientista; passando pelo garoto travesso com cabelo de cebola, que troca o “R” pelo “L” e vive falhando em seus planos infalíveis. É claro que você também conhece a baixinha, gorducha e dentuça que carrega um coelho e é a líder de toda a turma. A Turma da Mônica.

A história de Mauricio de Sousa começou nas tirinhas, foi imortalizada nos gibis e se modernizou em diferentes plataformas — sejam nos games, no computador ou no cinema. E por falar nas telonas, em 2019, Turma da Mônica: Laços transformou os quadrinhos em personagens ‘reais’. Mas veio muito mais por aí.

Neste dia 27 de outubro, Mauricio completa 90 anos e parte de sua vida é narrada na cinebiografia “Mauricio de Sousa – O Filme”; que estreou nas telonas no dia 23.

Além de uma justa homenagem ao cartunista, o filme também é especial para Mauro Sousa (responsável por interpretar seu próprio pai, logo em sua estreia no audiovisual).

Sou formado em artes cênicas e toda a minha bagagem desde então foi principalmente no teatro musical”, explica em entrevista à equipe de Aventuras. “Agora, no cinema, realmente foi a minha grande estreia e acho que é a melhor estreia que eu poderia imaginar, que é justamente interpretando o meu pai.”

Mauro Sousa, Diego Laumar e Mauricio de Sousa – Vantoen Pereira/Divulgação

Mauro também considera a experiência como um verdadeiro desafio, não só pela responsabilidade do papel, mas também por ser sua primeira vez num set de filmagens; contracenando com grandes nomes da dramaturgia.

O filme, dirigido por Pedro Vasconcelos, tem em seu elenco talentos como Elizabeth Savalla, Othon Bastos, Emilio Orciollo Netto e Thati Lopes.

“Realmente, foi muito desafiador, mas tão prazeroso quanto. Porque, obviamente, era um personagem que eu tinha muito conhecimento. Quando você tem muito conhecimento, domínio sobre um assunto, você se sente muito mais à vontade. Então, eu tinha muito conhecimento sobre esse personagem em todos os sentidos. Tanto de trejeitos, de aspectos físicos, como, obviamente, essa parte toda de comportamentos, de sentimentos, que realmente acho que só eu mesmo poderia e conseguiria acessar isso para esse personagem.”

Mauro também destaca o prazer de participar junto desse processo com a presença de Mauricio.

“Ele realmente participou de tudo, desde o roteiro, até mesmo nas gravações. Eu ligava para ele todos os dias, para falar sobre aquela cena que a gente ia fazer no dia seguinte. Eu ia lá e consultava. Então, eu tinha o melhor dos laboratórios. Eu tinha pesquisa em casa, ali, fácil. Foi muito prazeroso e, com certeza, a experiência mais inesquecível da minha vida.”

Um menino cheio de sonhos

Por trás de todo o talento, Mauricio Araújo de Sousa carregava uma grande timidez. Apesar de ser uma característica comum para muitas crianças, o comportamento não combinava em nada com a história de seus antepassados.

Na biografia “Mauricio – A História Que Não Está no Gibi” (Ed. Primeira Pessoa, 2007), ele explica que sua família era conhecida por ser arrojada, formada por homens e mulheres de ação. Por pessoas que pareciam que suas histórias haviam saído de livros de guerra, romance e mistério.

Seus avós maternos, Francisco Alves de Araújo e Maria Izabel, eram latifundiários na Paraíba. Esta parte de sua família possuía uma das principais plantações de carnaúba da região. Seu avô era ex-militar e coronel, mas que ruiu na carreira após se engajar no movimento de oposição política; tornando-se não só desafeto como sendo perseguido por jagunços.

Os avós de Mauricio – Mauricio de Sousa Produções

Temendo pela vida, fugiu com sua esposa. Durante meses, o casal viajou quase 3 mil quilômetros a pé até se estabelecerem em Igaratá, no interior de São Paulo — próximo a Nazaré Paulista e Santa Isabel.

Em 14 de abril de 1912, nasceu a filha do casal, e mãe de Mauricio, Petronilha Araújo de Sousa. Petronilha ficou órfã muito cedo e precisou ficar sob os cuidados de uma tia-avó. Da herança de seus pais, sobrou apenas o suficiente para pagar seus estudos até se formar em enfermagem. A parte paterna também é contada por posses e perdas.

Mas o fato é que Mauricio de Sousa veio ao mundo em 27 de outubro de 1935, em Santa Isabel. Pouco depois, sua família se mudou para a vizinha Mogi das Cruzes. Se hoje os quadrinhos de Mauricio são responsáveis por introduzir a leitura a milhares de crianças de todas as idades, foi justamente com os gibis que ele aprendeu a ler.

Aos 5 anos, encontrou no lixo de casa uma edição da revista O Guri, trazida por seu pai. Curioso, pediu para que sua mãe lesse a história. O pequeno logo tomou gosto pelos contos daquele estilo e passou a ser ensinado por Petronilha. A paixão pelas histórias em quadrinhos florescia cada vez mais, frustrando os sonhos de sua mãe de ver o filho se tornar um cantor.

Passando os anos, Mauricio começou a desenhar cartazes e fazer pôsteres para rádios e jornais. Foi também quando começou a sonhar seu maior desejo: viver como desenhista. De seu pai, ouviu o seguinte conselho: “Mauricio, desenhe de manhã e administre à tarde”.

Os primeiros traços

Quando completou 19 anos, em 1954, Mauricio — que agora vivia em São Paulo desde o divórcio dos seus pais, no ano anterior — decidiu buscar um emprego como ilustrador. Em uma pasta com seus melhores trabalhos, desenhos de pessoas, animais e paisagens, pôsteres, cartazes para o comércio e até projeto industrial de cafeteira, foi até a redação dos jornais Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite; que anos mais tarde se tornaria a Folha de S.Paulo.

Após uma conversa com o chefe da Folha da Manhã, ouviu uma das frases mais desestimulantes de sua vida: “Desista, menino. Desenho não dá dinheiro nem futuro para ninguém. Vá fazer outra coisa da vida”. Mesmo assim, saiu de lá com um emprego… foi contratado como repórter policial pelo periódico.

Mauricio como repórter policial – Mauricio de Sousa Produções

Aquele ‘Desista, menino’ se tornou uma espécie de pedra fundamental que usei como base para construir o futuro. Em vez de derrubar o sonho, aquilo o reforçou”, registrou em sua biografia.

Ao longo de cinco anos, dos 19 aos 24, Mauricio trabalhou ilustrando suas reportagens com seus desenhos; o que fez um grande sucesso entre os leitores.

Em 18 de julho de 1959, decidiu começar a desenhar histórias em quadrinhos após o Folha da Tarde, veículo do mesmo grupo da Folha da Manhã, publicar sua primeira tirinha: a ilustração trazia seus primeiros personagens, o cão Bidu e Franjinha.

Logo os desenhos de Mauricio começaram a fazer sucesso. As tirinhas passaram a ser adoradas pelas crianças, que escreviam cartas endereçadas à redação do jornal — algo raro de acontecer.

Os quadrinhos deixaram de ser esporádicos e, em cerca de dois meses, já conquistavam um espaço diário no impresso. Em seguida, tornaram-se duas por dia, depois três… O crescimento de seu reconhecimento veio junto de outro momento importante de sua vida: o nascimento de Mariangela, sua primeira filha. Mas logo os problemas começaram.

Trabalhando como repórter de manhã e fazendo seus desenhos no resto da noite, para dar conta de tal demanda, muitas vezes Mauricio optava por ficar até tarde no trabalho; uma forma melhor de se concentrar longe do choro muitas vezes ininterrupto da filha.

Aliado a isso, era comum que o desenhista perdesse o último transporte público do dia e ficasse impossibilitado de voltar para casa. O jeito era juntar algumas cadeiras e dormir em algum espaço dentro do jornal.

Mas a rotina insustentável e o tempo longe da família fizeram Mauricio tomar uma decisão difícil: pedir demissão do cargo de repórter, e abrir mão do seu baixo salário, mas que pagava suas contas, para seguir o seu sonho de ganhar a vida com seus desenhos.

Vale lembrar que se o emprego de Mauricio já não pagava bem o suficiente, o que ele ganhava com seus quadrinhos era muito menos do que o necessário. Ele não recebia nem metade do que era gratificado como repórter. Mesmo assim, não desistiu.

Desde criança nunca duvidei que os desenhos eram meu destino”, aponta em sua biografia.

Bem-vindos, Mônica e Cebolinha

Março de 1960. Na nova fase em busca de seus sonhos, Mauricio também dá um novo passo em sua vida familiar. Marilene de Sousa, a primeira esposa do cartunista, anuncia que está grávida de três meses da segunda filha do casal. A família cresce, a necessidade de ganhar dinheiro também.

Desde janeiro daquele ano, ele já tinha tiras diárias publicadas na recém-criada Folha de São Paulo. Ainda assim, a família precisou se mudar para Bauru, para segurar os custos, enquanto Mauricio buscava outros mercados.

Além das viagens recorrentes para São Paulo, para levar seus desenhos ao jornal, Mauricio decidiu se aventurar no Rio de Janeiro.

Quem sabe conseguiria uma revista só com os quadrinhos dele? O sonho alto trouxe um tombo ainda maior. Quase desistindo após duas recusas, foi até a redação da revista O Cruzeiro — publicada pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand.

A magazine era a mesma em que trabalhava o grande desenhista da época, e outro nome fundamental dos cartunistas de nossa história: Ziraldo. Mas seu contemporâneo também não conseguiu ajudá-lo, apesar de ter pedido um teste de desenho para Mauricio — que teve que passar um dia além do planejado no Rio.

Frustrado com o trabalho, Mauricio ficou ainda mais cabisbaixo ao saber que perdera o nascimento de sua segunda filha. Mônica Spada e Sousa veio ao mundo em 28 de setembro de 1960. Marilene nunca o perdoou por isso.

Semanas depois, Mauricio foi até a sede da Editora Continental, mais tarde rebatizada como Outubro, para vender suas tirinhas. A publicação ficara conhecida por fomentar que histórias escritas e desenhadas fossem produzidas por artistas brasileiros; visto que o mercado era dominado por produções internacionais.

Embora a editora, em sua estreia, tivesse lançado cinco revistas de terror — e Mauricio até mesmo chegou a adaptar suas histórias para o gênero —, eles acabaram selando acordo para a produção da revista Zaz Traz; que teria o cãozinho Bidu como carro-chefe. Mas logo na segunda edição de suas histórias na revista, Mauricio introduziu um de seus personagens mais marcantes: o Cebolinha.

O sonho da Zaz Traz não durou muito. As vendas das revistas mal pagavam os custos de sua produção, algumas vezes com prejuízo ou com pouca margem de lucro. A revista saiu de circulação depois de sete edições — embora Bidu tenha sido publicado até seu oitavo número. Mauricio voltava para a estaca inicial.

Mauricio, o subversivo

Na década de 1950, foi criada a Associação de Desenhistas de São Paulo (ADESP); entidade que visava valorizar os artistas nacionais e abrir espaços para eles. Afinal, como já dito, as publicações brasileiras eram dominadas por artistas estrangeiros. Quando Mauricio ainda escrevia para a Zaz Traz, ele começou a comparecer nas reuniões da associação, no histórico edifício Martinelli, no centro de São Paulo. Não demorou muito para ele presidir a ADESP.

No ano de 1961, os desenhistas viviam com a esperança de o então presidente Jânio Quadros atender suas reivindicações. Mas, no meio do ano, Mauricio acabou intimado por Moacir Correa, redator-chefe da Folha: “Mauricio, você precisa parar com isso… Esse envolvimento político na ADESP. É inadmissível, coisa de comunista. Ou você para, ou não poderei mais mantê-lo como colaborador da Folha”, descreve o cartunista em sua biografia.

Mauricio bateu o pé e acabou dispensado do veículo. Não só isso, passou a ser tachado como “comunista” e subversivo”; e entrou na “lista proibida” de artistas, sendo impedido de ter suas tirinhas publicadas em jornais da capital.

Ele tomou uma consciência, que acho que é uma consciência muito importante, de fazer um trabalho nacional brasileiro por conta própria. Ele nunca teve nenhum nível de apoio, obviamente. Ele conseguiu se tornar uma referência sem esperar nada de ninguém. E acho que essa história do sindicato foi importante para que ele se concentrasse na obra dele”, aponta Pedro Vasconcelos.

Independentemente do momento político que nosso país atravessava, Pedro discorre que Mauricio atravessou muitas gerações e se tornou a voz mais importante no que se refere ao exemplo do “Olha, por meio do meu trabalho, da minha persistência, da minha insistência, eu furei todos os bloqueios, sobrepassei qualquer tipo de impedimento que pudesse haver, mesmo de ordem política etc.”.

Mauro corrobora e se lembra de ter falado com seu pai exatamente sobre essa passagem. “Ele lembra de quando foi chamado de subversivo e de como isso o deixou bastante irritado e com muita raiva, do tipo, ‘como que é possível estarem me chamando de subversivo?’. Mas que aquilo funcionou como uma espécie de combustível para ele.”

Mauricio de Sousa – Mauricio de Sousa Produções

A esperança de qualquer mudança que ajudasse Mauricio foi interrompida pouco tempo depois, quando Jânio renunciou à presidência. Com a notícia, ele convocou uma reunião de emergência da ADESP, onde prometeria continuar a luta para a valorização dos artistas nacionais. Ninguém apareceu. Mauricio estava sozinho.

Para completar a fase de desempregado, Marilene estava grávida da terceira filha do casal, Magali. Eles tiveram que deixar Bauru e voltar para Mogi das Cruzes, onde Mauricio ainda poderia contar com a ajuda do pai e da avó. Mesmo assim, as coisas foram difíceis.

Muito antes disso, nos anos 1940, nos fundos da barbearia, o pai de Mauricio montou uma pequena gráfica, onde produzia folhetins na época, como A Vespa e A Caveira, que batiam de frente com políticas regionais e federais. Naquela época, a ditadura varguista do Estado Novo passou a reprimir qualquer atividade considerada subversiva.

O mundo vivia a Segunda Guerra Mundial e papai achava que a política nacionalista, anticomunista e autoritária de Vargas, parelha à do ditador italiano Benito Mussolini, atentava contra a liberdade”, discorre Mauricio em sua biografia.

Como resultado, a polícia invadiu a barbearia e, de forma truculenta, destruiu a pequena gráfica. A perseguição fez com que a família se mudasse para São Paulo, quando Mauricio tinha apenas 5 anos.

Mônica e sua Turma

Com o embargo ao seu trabalho a todo vapor na capital, Mauricio passou a apostar na distribuição de suas tirinhas em veículos menores do interior. Traçou um plano para visitar as cidades até 100 quilômetros de distância de Mogi e se tornou praticamente um caixeiro-viajante com os clichês (uma espécie de carimbo) dos seus desenhos.

O primeiro a aceitar seu trabalho foi o Diário de Jundiaí, depois vieram outros. Em cerca de seis meses, seus quadrinhos estavam em torno de 90 semanários religiosos e em quase dez jornais do interior. Mauricio também começou a oferecer seus quadrinhos para veículos de outros estados, primeiro do Sul e Sudeste, fazendo propaganda de suas criações em cartas enviadas pelos correios.

Conseguiu as primeiras inserções em Belo Horizonte e Londrina, mas logo foi crescendo suas distribuições. O aumento de suas produções foi tamanho que Mauricio até mesmo teve que alugar uma salinha para transformar em estúdio. Mas ainda faltava algo.

Em janeiro de 1963, sob nova administração, a Folha de S. Paulo contactou Mauricio para voltar a publicar seus desenhos na seção de suplemento infantil, a Folhinha de S. Paulo. Numa das idas até a redação, Mauricio reencontrou velhos amigos que ainda trabalhavam por lá.

Numa dessas, foi elogiado por um deles e, durante uma brincadeira, acabou sendo provocado: “Pô, você parece misógino, só tem homens nas suas tirinhas”. A provocação deixou Mauricio “encafifado”, como ele mesmo relatou, por não conhecer a palavra e seu significado. Mas não era nada disso.

De fato, Mauricio não tinha personagens femininos em suas história. Foi então que tudo mudou. Durante sua vida, a timidez fez com que Mauricio não se entrosasse tanto com meninas em sua infância. Mas precisava de exemplo melhor do que ele tinha em casa?

Enquanto tentava se concentrar, Mônica, então com 2 anos e meio, não parava de implicar com as irmãs enquanto carregava pela casa um coelho de pelúcia. Baixinha, briguenta e dentuça, ela serviu de inspiração para uma das personagens mais icônicas de nossa literatura.

“Assim, já na viagem seguinte a São Paulo para entregar a produção semanal, em março de 1963, levei a tirinha em que a Mônica aparece pela primeira vez, já dando coelhada no Cebolinha. Fez sucesso de cara”, narra Mauricio. E mais de seis décadas depois, segue fazendo!

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!