A trilha em homenagem ao rei esquecido da Inglaterra
Nova trilha de 160 km em Wiltshire celebra os 1.100 anos da coroação de Etelstano, o monarca que unificou os reinos anglo-saxões

Poucos britânicos conhecem o nome Etelstano — ou Æthelstan, em sua grafia original —, mas foi ele quem se tornou o primeiro rei de toda a Inglaterra. Neto de Alfredo, o Grande, o soberano governou de 924 a 939 d.C., e unificou reinos outrora rivais, conquistando o território de Jorvik (York), então sob domínio viking.
Mais de mil anos depois, o legado desse monarca esquecido ganha nova vida no interior da Inglaterra. Em junho de 2024, foi inaugurado o Athelstan Pilgrim Way, um percurso de 160 quilômetros para caminhantes e ciclistas que começa na Abadia de Malmesbury, onde o rei foi sepultado, e conecta 36 igrejas em toda a região de North Wiltshire.
O projeto é parte das celebrações Athelstan 1100, que marcaram o aniversário de sua coroação, com escavações arqueológicas, palestras históricas e uma peregrinação simbólica de 11 dias até Kingston-upon-Thames, local onde Etelstano foi coroado em 925.
Rei esquecido
Malmesbury, cidade no alto de uma colina cercada por campos verdejantes, é o coração dessa homenagem. Dentro da abadia, sob seus arcos normandos, repousa o túmulo simbólico de Æthelstan. “Eu nunca tinha ouvido falar dele até me mudar para cá”, contou Anne Goodyer, voluntária do Museu Athelstan de Malmesbury. “Mas aqui ele é lembrado com muito carinho. Este é o coração da história inglesa”.
Embora as crianças britânicas aprendam sobre Alfredo, o Grande, queimando bolos em sua cabana, o neto que realizou o sonho de unir os reinos anglo-saxões raramente é mencionado. O historiador Tony McAleavy, autor do livro “Abadia de Malmesbury”, explica que Etelstano foi o primeiro a “governar todos os povos de ascendência anglo-saxônica, ou os ingleses, como começaram a se chamar”.
O rei era conhecido por sua piedade e senso de unidade. Desejou ser enterrado em Malmesbury não apenas por devoção a Santo Aldhelm, abade local do século 8, mas também por razões políticas: a cidade ficava na fronteira entre os antigos reinos de Wessex e Mércia, um símbolo da unificação que ele alcançou.
A trilha
O Caminho de Peregrinação de Athelstan foi idealizado por David Pope, que mapeou as rotas e percorreu todo o trajeto antes de sua inauguração. Ele entrega aos peregrinos um “Passaporte de Peregrinação”, carimbado em cada uma das 36 igrejas do caminho.
“Alguns vêm por interesse histórico, outros buscam uma jornada espiritual”, explica Pope. “Mesmo sendo uma iniciativa da igreja, não é evangelismo, é uma oportunidade de redescoberta, no próprio ritmo de cada um”.
A trilha é dividida em seis rotas circulares e dois circuitos longos de ciclismo, passando por vilas medievais, campos rurais e antigas estradas romanas. A primeira etapa começa na Abadia de Malmesbury e leva os caminhantes até Brokenborough, onde fica a Igreja de São João Batista, do século 13. Lá, cada peregrino recebe um novo carimbo no passaporte — e um lembrete de que as vitórias de Æthelstan tiveram um custo para galeses e escoceses, povos conquistados em seu processo de unificação.
Porque eu sou galês, eu certamente não teria aprovado Æthelstan se vivesse no século 10″, brinca Pope.
Entre os companheiros de trilha de Pope está a Dra. Sheona Beaumont, artista residente do projeto. Ela percorre lentamente os 160 quilômetros, documentando igrejas, paisagens e comunidades locais. “As peregrinações estão de volta à moda”, diz. “Mesmo quem não é religioso se identifica com essas igrejas — elas fazem parte da nossa história compartilhada”.
As igrejas visitadas ao longo do caminho guardam curiosidades únicas. A igreja de Bremilham, por exemplo, tem apenas 3,1 metros quadrados e é considerada a menor igreja em uso na Inglaterra. Já a antiga Fosse Way, estrada romana que liga Exeter a Lincoln, acompanha parte da trilha e conecta o presente ao passado distante.
Legado
Embora o túmulo de Æthelstan esteja vazio, seu espírito continua presente em Malmesbury. Os moradores mantêm viva sua memória em ruas, instituições e tradições locais — há até um lar de idosos com seu nome e uma sociedade cívica que remonta à sua época.
Æthelstan nunca foi redescoberto aqui, porque nunca foi esquecido”, afirma Goodyer.
Para visitantes e curiosos, o Athelstan Pilgrim Way é mais do que uma trilha: é uma viagem pelas origens da Inglaterra, onde cada igreja, estrada e colina guarda um fragmento da história do rei que transformou reinos em nação.
E, enquanto arqueólogos sonham em encontrar seus ossos — talvez sob um estacionamento, como Ricardo III —, a jornada espiritual e histórica pelas terras de Malmesbury garante que o primeiro rei da Inglaterra jamais desapareça da memória.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli