As peças de Lego que, 28 anos após incidente com navio, continuam a aparecer em praias

Busca por peças perdidas de lego acabou tomando proporções internacionais e transformando-se em uma forma de conscientização sobre a poluição plástica

Peças de Lego encontradas em praia - Crédito: Divulgação/vídeo/Youtube/Tom Scott

Tracey Williams estava de férias com os filhos em Bigbury Bay, no sul de Devon, no início de 1997, quando se deparou com uma inesperada peça de Lego. O item, que pertencia originalmente a um navio de carga, acabou chegando à costa inglesa depois que a embarcação foi atingida por uma onda inesperada na Cornualha. Logo várias outras peças começaram a aparecer e, o que era apenas um hobby familiar de vasculhar a praia se transformou em uma missão global: rastrear peças perdidas no mar e aumentar a conscientização sobre a poluição plástica.

Desde então, pessoas de diversos países, como Estados Unidos, Itália, Suíça e Bélgica passaram a viajar para a Cornualha apenas para participar da caça às peças. “Fiz entrevistas com blogueiros italianos, jornalistas americanos; É incrível quanto interesse existe”, contou a britânica à BBC, que destacou que, ao longo dos anos, descobertas foram registradas em diversos lugares do mundo.

O navio é atingido

Era 13 de fevereiro de 1997, quando uma onda inesperada atingiu o navio de carga Tokio Express próximo a Land’s End. A embarcação havia partido de Roterdã rumo a Nova York levando a bordo cerca de 5 milhões de peças, que acabaram espalhadas pelo oceano.

Jamais imaginando que aquela onda mudaria sua vida, Tracey, que ficou conhecida como a “Lego Lady”, fez suas primeiras descobertas e depois deu uma pausa até 2010. Foi então que ela se mudou definitivamente para a Cornualha e percebeu que o Lego ainda continuava a chegar à costa. Diante disso, decidiu criar a página do Facebook Lego Lost at Sea, com o objetivo de rastrear avistamentos e conectar-se com outros caçadores de tesouros de praia.

Apesar de inicialmente modesto, o projeto rapidamente se transformou em um verdadeiro fenômeno. Após uma reportagem da BBC, o número de seguidores da página saltou de 400 para mais de 55.000 em poucos dias.

Peças encontradas – Crédito: Divulgação/vídeo/Youtube/Tom Scott

Poluição plástica

Mais do que buscar peças de Lego, a iniciativa se tornou uma forma envolvente de discutir a poluição plástica, especialmente com crianças.

“Pegar plástico na praia é uma tarefa implacável”, disse Tracey. “Mas os limpadores de praia geralmente veem a descoberta de um pedaço de Lego como uma recompensa.” Muitas das peças perdidas tinham temática marítima — polvos, tubarões, nadadeiras e coletes salva-vidas. “É como se Netuno estivesse brincando”, disse ela. Algumas peças, como recifes de Lego, até se tornaram lar de pequenas criaturas marinhas.

Entre os achados mais comuns estão nadadeiras — mais de 352.000 pares em cores preta, azul e vermelha caíram ao mar —, além de coletes salva-vidas e tanques de mergulho, flores e vassouras, que aparecem com frequência, principalmente em pontos da Cornualha como Perranporth e Whitsand Bay.

Já entre os achados mais raros estão os polvos, uma vez que apenas 4.200 peças estavam presentes na embarcação. Encontrar essas peças torna-se uma tarefa difícil uma vez que acabam se camuflando por sua cor escura e formato semelhante a algas. Também se destacam entre os itens mais raros os dragões verdes, já que, dos 33.427 dragões do contêiner, apenas 514 eram verdes. Por fim, vale mencionar que, de 97.000 varinhas mágicas, 15.800 chapéus de bruxa e 18.200 frigideiras perdidas, nenhuma peça foi encontrada.

Novos projetos

A iniciativa se tornou tão popular que Tracey escreveu um livro sobre sua jornada e agora planeja agora publicar uma obra para crianças. Seu trabalho também contribuiu para pesquisas científicas, ajudando a estudar a durabilidade do plástico no ambiente marinho. Vale destacar que o projeto Lego Lost at Sea foi premiado como “Projeto de Resgate do Ano” no Current Archaeology Awards 2023.

“Aprendemos até onde as peças podem flutuar e como se movem na superfície e no fundo do mar”, declarou Tracey, de acordo com a fonte. “Esperamos publicar ainda mais artigos científicos com base nos dados que coletamos”.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.