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Há 8 mil anos, lagos no deserto de Gobi sustentaram a vida humana

Evidências indicam que lagos e pântanos apresentaram condições favoráveis à vida humana especialmente entre 8 mil e 5 mil anos atrás

Camadas de sedimentos lacustres no Vale do Krzemienna revelam que esta região árida abrigou um sistema de lagos permanente há pelo menos 140 mil anos - Crédito: Divulgação/Mirosław Masojć

Um estudo recente, publicado na revista PLOS One, revela que o Deserto de Gobi, uma das regiões mais áridas do planeta, já abrigou lagos e pântanos que sustentaram a vida humana há aproximadamente 8 mil anos. Esta pesquisa foi realizada por arqueólogos da Universidade de Wrocław, na Polônia, em colaboração com pesquisadores internacionais.

Atualmente, o deserto se expande devido ao fenômeno de desertificação, com uma perda significativa de pastagens no sul da China, que se estima em cerca de 3.600 km² anualmente. Contudo, os dados obtidos por meio da análise de sedimentos e datagem por luminescência em leitos lacustres, como o Paleolake de Luulityn Toirom, demonstram que a região apresentava abundância hídrica durante os períodos do Pleistoceno Superior e do Holoceno Inferior.

De acordo com o portal Galileu, as evidências apontam para a existência de lagos e pântanos há cerca de 140 mil anos, com condições favoráveis à vida humana especialmente entre 8 mil e 5 mil anos atrás. Durante esses períodos, a região dispunha de solo fértil e água em abundância, permitindo que grupos de caçadores-coletores desenvolvessem ferramentas, caçassem fauna local e utilizassem recursos vegetais para a confecção de objetos do dia a dia. Além disso, foram encontradas algumas das cerâmicas mais antigas da área, datadas em torno de 10.500 a.C., o que sugere uma rica paisagem cultural.

Segundo Mirosław Masojć, líder do projeto e membro do Instituto de Arqueologia da Universidade de Wrocław, “Na região do chamado Vale do Krzemienna, conseguimos encontrar vestígios de um distrito lacustre, um grupo de paleolagos que existiu aqui durante o Pleistoceno, datando de aproximadamente 140 mil anos. Esta é a data mais antiga que conseguimos obter a partir de sedimentos lacustres. Sabemos que, a partir daquela época, o ambiente sustentou a existência humana nesta parte do deserto, até o início e o médio Holoceno”.

O que foi encontrado

O sítio estudado representa um acampamento onde se fazia uso predominante do jaspe, uma rocha vermelha escura utilizada para a fabricação de ferramentas de caça e processamento de materiais. Foram identificados núcleos e microlâminas com comprimentos entre 5 e 6 cm, possivelmente empregadas como pontas de flechas ou em atividades domésticas. A análise microscópica revelou vestígios relacionados ao processamento de carne e vegetais, ressaltando a importância dessas ferramentas na rotina dos habitantes da época.

Os acampamentos próximos aos lagos parecem ter sido temporários, sugerindo um modo de vida nômade. Grupos familiares pequenos migravam entre as áreas montanhosas e retornavam aos lagos durante as épocas chuvosas. Em condições climáticas adversas, muitos buscavam abrigo nas Montanhas Altai, onde cavernas ofereciam refúgio. Evidências humanas nessa região datam de pelo menos 27 mil anos atrás, incluindo um dente fossilizado com 25 mil anos, considerado o mais antigo já encontrado na Mongólia.

Mirosław Masojć complementa: “Também demonstramos que essas comunidades eram muito ativas na exploração das terras altas das Montanhas Altai. Descobrimos duas cavernas nas quais observamos vestígios de atividade humana que datam de 27 mil anos. Os vestígios de assentamento nas montanhas mostram que as comunidades que viviam perto de lagos, quando as condições climáticas se tornaram opressivas, buscaram refúgio nessas áreas mais altas”.

Essas descobertas desafiam concepções anteriores sobre a ocupação humana no Gobi, que acreditavam ser restrita ao ótimo climático do Holoceno Médio. As novas evidências indicam que os humanos habitavam a região muito antes disso, aproveitando os recursos disponíveis nos lagos e pântanos. Além disso, inovações tecnológicas como a produção de microlâminas demonstram a adaptabilidade dessas comunidades frente às pressões ambientais.

O Gobi revela-se assim não como um deserto estéril, mas como um centro fértil repleto de atividade humana no passado distante. Lagos sazonais forneciam recursos essenciais enquanto as montanhas serviam como refúgios durante períodos difíceis.

A relação dinâmica entre os primeiros caçadores-coletores e seu ambiente destaca sua capacidade adaptativa. A equipe continua suas investigações no Vale do Flint e áreas adjacentes onde numerosos locais arqueológicos ainda estão sendo explorados.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.