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Qual a origem dos exorcismos católicos como conhecemos hoje?

Uma prática já muito vista em filmes de terror, os exorcismos católicos são reais, e possuem bases extremamente antigas na luta contra o mal

Recorte da obra 'São Francisco Borgia Ajudando um Impenitente Moribundo', de Francisco de Goya / Crédito: Domínio Público

Um dos gêneros mais populares entre os amantes de cinema hoje certamente é o terror, que, por sua vez, possui vários subgêneros e diferentes temáticas em seus filmes. Eles podem ser slashers (com um assassino implacável perseguindo sistematicamente), found footage (com filmagens “realistas”), de ficção científica, e apresentar criaturas como zumbis, lobisomens, vampiros e, claro, demônios.

Pensando neste último caso, filmes como ‘O Exorcista‘ (1973) se eternizaram na história do cinema, ao apresentar os demônios sendo combatidos, como o título sugere, com exorcismos. Essa prática já foi central em vários filmes de terror, geralmente nos apresentando padres católicos expulsando demônios e espíritos malignos com água benta e orações.

Embora os filmes coloquem exorcismos como uma prática bastante imaginativa, tendo em vista a forma como são retratados nas telonas, eles realmente acontecem. E de fato, provavelmente a forma mais conhecida da prática é a da Igreja Católica, mas vale lembrar que, no cerne disso, está a batalha do bem contra o mal, cujas definições podem mudar de acordo com o sistema de crenças — e inclusive através do tempo, remetendo a práticas ainda mais antigas que a própria Igreja Católica.

Cena de 'O Exorcista' (1973)
Cena de ‘O Exorcista’ (1973) / Crédito: Reprodução/Warner Bros. Pictures

Antiguidade

Conforme repercute o National Geographic, já na Mesopotâmia, no primeiro milênio a.C., existiam praticantes de magia chamados ašipu. Eles eram como curandeiros espirituais que, com protetores que usavam como amuletos, realizavam rituais elaborados para afastar e expulsar demônios que traziam doença e caos — por vezes até mesmo envolvendo figuras auxiliares que, no futuro, seriam consideradas demônios pela Igreja Católica.

Parte do motivo para essa associação viria simplesmente por questões de tradução. Por exemplo, a antiga palavra grega “daimon“, utilizada para se referir a espíritos divinos e forças sobrenaturais em geral, que poderiam ser bons ou maus, derivou o “demônio” moderno, que é tomado pela Igreja Católica como uma força maligna que precisa ser expulsa ou exorcizada.

O historiador judaico-romano Flávio Josefo, do século 1 d.C., também chegou a descrever a história de um homem chamado Eleazar, que teria libertado outras pessoas de um demônio, expulsando-o de suas narinas ao invocar repetidamente o nome do Rei Salomão — atestando, assim, também uma espécie de exorcismo já na antiga tradição judaica.

Cristianismo

Nos primeiros séculos d.C., com o crescimento e expansão do cristianismo, possessões e exorcismos se tornaram maneiras de unir os fiéis cristãos, além de justificar suas crenças após a perseguição religiosa realizada. Isso também se associa ao chamado paganismo, termo com conotação maligna utilizado pelos cristãos para se referir a quaisquer crenças e práticas não cristãs, que viam como algo que também precisava ser exorcizado.

Dessa forma, renunciar ao paganismo como um mal passou a ser um requisito necessário para o batismo entre os cristãos, e recair sob a influência de uma crença pagã era visto como algo semelhante a estar possuído. Dessa forma, o exorcismo já era tomado também como um mecanismo para fortalecer a fé cristã, nas comunidades.

Em torno do século 4 d.C., o exorcismo passou também a ser utilizado em contextos pré-batismais, para legitimar o cristianismo, e era feito até de maneiras mais simplificadas, diariamente, por convertidos e aspirantes a cristãos antes do batismo. Já no dia do batismo, efetivamente, um bispo “literalmente” expulsava as más influências pagãs, e o indivíduo era ungido com óleo que havia sido também exorcizado.

No fim da Antiguidade e início da Idade Média, os cristãos podiam até se exorcizar “invocando” um santo como intercessor — como seria, anteriormente, “invocar” um daimon —, indo a santuários e implorando pela ajuda da entidade sagrada para afastarem o mal.

‘Exorcismo de Joana de Castela’, por Willem Geets / Crédito: Getty Images

Idade Média

A prática do exorcismo só passou por uma transformação mais significativa por volta do século 12, já na Idade Média, quando surgiu uma série de vertentes e seitas heréticas do cristianismo. Por exemplo, grupos como os cátaros defendiam a disputa entre o bem e o mal, o que ia de encontro com a doutrina e hierarquia definida na Igreja Católica Romana.

Os católicos ortodoxos, por sua vez, viram um novo benefício do exorcismo em meio a essas heresias, podendo servir também como um mecanismo pelo qual os cristãos seriam libertados das crenças heréticas pecaminosas que vinham surgindo.

Nesse momento, também surgiram formalizações através de exorcismos, com orações pessoais assumindo a forma de “autoexorcismo” como prova da dedicação ao cristianismo. Teólogos como o conhecido São Tomás de Aquino chegaram até a abordar tópicos como demonologia, e ajudaram a definir e esclarecer o propósito do exorcismo.

Com a Reforma Protestante no século 16, o cristianismo se viu dividido mais uma vez, e, com isso, outro grupo “demonizado” ficou bastante forte na perspectiva do Vaticano. Foi nesse momento conturbado também que ocorreram perseguições como a Inquisição, que também tinham um caráter exorcista, e que o primeiro ritual “oficial” de exorcismo foi sancionado pela Igreja Católica.

Já no século 17, em 1614, houve a instituição do Rituale Romanum, um livro litúrgico que contém todos os rituais normalmente administrados por um padre, incluindo o único ritual formal para exorcismo da Igreja Católica, e que continuou praticamente inalterado, até a primeira meta do século 20. Só houve algumas mudanças após a revisão da última parte do livro, após reformar empreendidas pelo Concílio Vaticano II, e a versão mais atualizada do Rituale Romanum foi publicada em 1999.

Homem durante ritual de exorcismo / Crédito: Getty Images

Em geral, a estrutura dos exorcismos no século 17 e atualmente são bastante semelhantes, embora a mais recente reforce a conexão entre o batismo e o exorcismo. Com isso, de certa forma, os exorcismos modernos seguem espelhando seus predecessores; mas, em muitos aspectos, também fecharam o ciclo.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.