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O ator que serviu de inspiração para o Pernalonga comer cenoura

Embora seja comum a percepção de que coelhos são apaixonados por cenoura, os animais preferem outros alimentos; relação só aconteceu por conta de famoso ator de Hollywood

Clark Gable e Pernalonga - Getty Images e Divulgação

Desde a sua estreia oficial em 1940, no curta de animação A Wild Hare, o coelho Pernalonga da Warner Bros. se tornou um dos personagens mais icônicos e duradouros da cultura pop global.

Conhecido por seu sotaque do Brooklyn, sua atitude imperturbável diante do perigo e seu famoso bordão, “O que é que há, velhinho?”, Pernalonga conquistou o público com seu charme sarcástico e sua capacidade de sempre sair por cima de seu eterno caçador, o Gaguinho.

No entanto, uma das características mais definidoras e reconhecíveis de Pernalonga é o seu hábito inseparável de mastigar cenouras. Em praticamente todas as suas aparições, o coelho surge com o vegetal na mão, parando momentaneamente a mastigação barulhenta apenas para entregar uma de suas frases espirituosas.

A cena se tornou tão sinônimo do personagem que, para o espectador casual, parecia ser uma representação natural e inquestionável do comportamento de um coelho. Contudo, a verdade por trás desse hábito de roer cenouras é muito mais ligada à história do cinema do que à biologia dos coelhos.

O famoso lanche de Pernalonga não foi uma escolha baseada na deita do animal. Na verdade, foi uma homenagem espirituosa e uma paródia direta a um dos maiores sucessos de Hollywood da época, o que transformou o coelho dos desenhos animados em um ícone cultural, mas também perpetuou um dos maiores mitos sobre a alimentação animal.

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Clark Gable e a paródia de Hollywood

O ator que serviu de inspiração direta para o hábito de Pernalonga comer cenouras foi Clark Gable, o “Rei de Hollywood”, e a obra em questão é a aclamada comédia romântica It Happened One Night (Aconteceu Naquela Noite), de 1934, dirigida por Frank Capra.

Gable estava no auge de sua popularidade quando o filme foi lançado. Aconteceu Naquela Noite foi um sucesso estrondoso de bilheteria e crítica, fazendo história ao ser o primeiro filme a ganhar os “Big Five” no Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor (Frank Capra), Melhor Ator (Clark Gable), Melhor Atriz (Claudette Colbert) e Melhor Roteiro.

A performance de Gable como Peter Warne, um repórter esperto e sem sorte, foi amplamente imitada e celebrada pela sociedade americana da época, conforme repercute o MovieWeb.

A cena específica parodiada em A Wild Hare (e nos curtas de Pernalonga subsequentes) ocorre quando Peter Warne está ensinando a herdeira mimada Ellie Andrews (Colbert) como pegar carona.

O personagem de Gable, de maneira displicente e com uma atitude de “sabe tudo”, puxa uma cenoura, a descasca brevemente com um canivete e começa a mastigá-la ruidosamente enquanto fala de forma rápida, com a boca cheia.

Esse maneirismo, um tanto rude e casual, de comer um vegetal enquanto conversava, tornou-se uma marca registrada da cena.

Quando o animador Tex Avery e o designer Chuck Jones criaram a versão definitiva de Pernalonga em 1940, o coelho foi concebido como um coelho de rua, cuja persona era essencialmente uma imitação do personagem de Gable.

Mais referências

As referências não pararam apenas na cenoura. O bordão icônico de Pernalonga, “O que é que há, velhinho?”, também possui uma dupla inspiração no mesmo filme.

A frase não só ecoa a atitude de Peter Warne, mas a expressão “Doc” (velhinho/doutor), usada por Pernalonga na versão em inglês (“What’s up, Doc?”), é usada repetidamente por um personagem secundário chamado Oscar Shapeley (Roscoe Karns) ao se dirigir a Peter Warne no filme.

Até mesmo a voz de Pernalonga, dada pelo lendário Mel Blanc, foi inspirada, em parte, no sotaque e na cadência de Shapeley, que era um nova-iorquino falante e tagarela. O público da época reconheceu instantaneamente a paródia, conta o MeTV.

É interessante notar que a Warner Bros. manteve a cenoura mesmo após o filme envelhecer. De acordo com o próprio Mel Blanc, o som da mastigação da cenoura era obtido na vida real: Blanc roía uma cenoura crua e depois a cuspia em um balde enquanto a gravação de áudio era feita.

O hábito era tão fundamental para o personagem que, em certo momento, quando um fazendeiro de aipo de Utah se ofereceu para fornecer aipo vitalício para todos os funcionários da Warner Bros. se eles trocassem a cenoura pelo aipo, a empresa prontamente recusou, garantindo que o legado de Clark Gable continuasse vivo na boca do coelho.

O mito do coelho e das cenouras

A popularidade de Pernalonga e a repetição constante de seu lanche de cenoura nas telas de cinema e TV tiveram um efeito cultural profundo e duradouro, mas não intencional: solidificaram a ideia falsa de que cenouras são o alimento principal e favorito dos coelhos.

A influência do desenho animado foi tão eficaz que, por décadas, pais e donos de animais de estimação passaram a oferecer cenouras aos seus coelhos, assumindo que era um alimento saudável e natural para eles. No entanto, veterinários e especialistas em coelhos alertam que esta é uma crença equivocada, e o consumo excessivo de cenouras pode ser prejudicial à saúde dos coelhos domésticos.

A realidade é que coelhos na natureza (assim como coelhos de estimação) baseiam sua dieta principalmente em feno e grama. Cenouras são vegetais de raiz, ricos em açúcares naturais e carboidratos, desenvolvidos para armazenar energia. Embora os coelhos possam comer cenouras em pequenas quantidades (a cenoura real é a folhagem verde do topo, que eles adoram), o alto teor de açúcar torna o alimento inadequado como parte da dieta diária ou em grandes porções.

Em essência, a cenoura de Pernalonga é um dos exemplos mais claros de como a cultura pop pode moldar a percepção pública sobre o mundo natural. Um coelho dos desenhos animados, criado como uma paródia de um ator de Hollywood com a boca cheia, tornou-se o principal disseminador de um mito dietético que persiste até hoje.

Portanto, da próxima vez que você vir o Pernalonga roendo seu lanche favorito, lembre-se: você está testemunhando um momento icônico dos desenhos animados, uma homenagem hilária a Clark Gable, e não uma lição de nutrição para coelhos.

 

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!