Primeira mulher maori a estudar em Oxford recebe diploma póstumo após mais de um século
Mais de 100 anos após sua morte, a pioneira maori Mākereti Papakura recebe postumamente o mestrado em antropologia da Universidade de Oxford

Mais de um século depois, Mākereti Papakura, a primeira mulher maori a estudar na Universidade de Oxford, finalmente recebeu reconhecimento oficial por sua trajetória acadêmica. Ela foi agraciada postumamente com um mestrado em antropologia, após anos de esforços de sua família.
De acordo com o The Guardian, a cerimônia reuniu mais de 100 parentes e membros iwi, que viajaram da Nova Zelândia para acompanhar a homenagem. O diploma celebra seu trabalho pioneiro em documentar a língua, cultura e tradições do povo Te Arawa.
June Northcroft Grant, descendente de Papakura, recebeu o certificado das mãos do vice-reitor e relatou a emoção do momento. “Foi muito surreal. Tive que me recompor porque estava ficando emocionada e não queria chorar feio na TV”, disse ela.
Enquanto familiares acompanhavam a cerimônia de forma remota, dezenas fizeram um haka estrondoso, demonstrando respeito e honra à ancestralidade de Papakura. A celebração reforçou a importância da cultura maori para a história acadêmica mundial.
Mākereti Papakura
Nascida em 1873, na Baía de Plenty, Papakura cresceu em um período de profundas transformações para os maoris, com perda de terras, língua e saberes tradicionais devido à colonização. Sua educação foi orientada pelos mais velhos de Tūhourangi e Ngāti Wahiao, subtribos Arawa.
Na vila geotérmica de Whakarewarewa, Papakura começou a trabalhar como guia turística e artista. Foi lá que chamou atenção durante visitas reais e se tornou modelo de cartões-postais, registrando visualmente sua cultura para o mundo.
Em 1911, ela viajou à Inglaterra com um grupo de apresentações culturais, retornando brevemente à Nova Zelândia antes de se casar com o inglês Richard Staples-Browne. Em Oxfordshire, se matriculou na universidade e desenvolveu amizade com o antropólogo TK Penniman.
Durante anos, Papakura compilou milhares de folhas de genealogia, histórias, costumes e língua maori, produzindo um trabalho minucioso e pioneiro, escrito por uma mulher indígena. Sua tese só seria concluída três semanas antes de sua morte, em 1930.
Reconhecimento de mulher maori
O trabalho de Papakura foi posteriormente publicado por Penniman como The Old Time Māori, referência ainda hoje utilizada para resgatar conhecimento ancestral e apoiar reivindicações legais de terras do povo maori.
A cerimônia em Oxford incluiu homenagens no museu Pitt Rivers, apresentações culturais e a entrega de uma figura esculpida de dois metros, o pou, trazida por Papakura durante a primeira turnê na Inglaterra, em 1911.
Anthony Wihapi, ancião da delegação, resumiu o sentimento do grupo: “É algo incrível para nossa família se orgulhar”. A história de Papakura finalmente recebe o reconhecimento que atravessou décadas, ligando passado e presente em homenagem à sua coragem e legado.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli