Como a perícia criminal revela a verdade e muda o curso de grandes investigações
Por trás de crimes emblemáticos, o trabalho de um perito transforma vestígios em provas capazes de indiciar o culpado

A perícia criminal sempre despertou curiosidade e foi cercada de mistério. Filmes e séries ajudaram a consolidar uma visão glamorosa do perito como um profissional infalível, que resolve casos em minutos com equipamentos futuristas. Mas a realidade é bem diferente. No Brasil, a rotina desse trabalho é marcada pelo improviso, pela pressão, pelo peso emocional de lidar com tragédias e pela responsabilidade de traduzir vestígios em provas técnicas.
Quando se fala em “vestígios”, pode-se pensar apenas em manchas de sangue ou impressões digitais. Mas, para o perito, qualquer detalhe pode ser crucial: fragmentos de vidro, marcas de pneus, um fio de cabelo, documentos parcialmente queimados.
A partir desses elementos, é possível reconstruir cenas complexas e dar voz ao que as vítimas não podem mais revelar. Preservar o local é preservar a verdade e garantir a atuação do profissional. Cada toque não registrado vira dúvida. Cada pegada não explicada vira suspeita. Sem isso, tudo se desfaz, como uma prova contaminada que escapa entre os dedos.
Casos midiáticos
O assassinato do casal Richthofen, cena de crime que periciei em 2002, foi um dos casos que evidenciaram ao país a competência da perícia criminal. A versão inicial apresentada por Suzane von Richthofen e pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos apontava para uma tentativa de assalto que teria resultado no assassinato dos pais dela.
Mas o trabalho desmentiu essa narrativa. Marcas de sangue, posições dos corpos e a dinâmica da cena indicavam que não se tratava de invasão, mas de um crime cometido por pessoas próximas às vítimas. A análise minuciosa desmontou a farsa e deu sustentação à condenação dos três assassinos.

Outro episódio que marcou a sociedade foi o assassinato de Mércia Nakashima, em 2010. Após dias desaparecida, o corpo da advogada foi encontrado em uma represa na Grande São Paulo. Coube à equipe de perícia, da qual fiz parte, reconstruir os últimos momentos de Mércia: o carro dela foi localizado submerso, e exames técnicos comprovaram que o veículo havia sido empurrado para a água.
Testemunhos poderiam se contradizer, mas vestígios não mentem. A análise de ligações telefônicas, a reconstituição da dinâmica e as provas materiais obtidas no local apontaram para o ex-namorado da vítima, Mizael Bispo de Souza, que acabou condenado.
Em 2012, outro caso mobilizou o país: o assassinato de Marcos Matsunaga, empresário da Yoki, pela esposa Elize Matsunaga. O crime foi brutal e chamou atenção pela tentativa de ocultação do corpo. Aqui, a perícia teve papel central não apenas na identificação de fragmentos encontrados, mas também na reprodução da sequência dos fatos, uma tarefa da qual participei ativamente.
O laudo balístico confirmou o disparo dentro do apartamento e o trabalho de recuperação das imagens das câmeras de segurança ajudou a estabelecer o percurso de Elize após o crime. Cada detalhe técnico contribuiu para revelar uma verdade que as versões apresentadas não sustentavam.
Perícia: muito além do sangue
Esses exemplos mostram como a perícia criminal vai muito além da coleta de provas: ela é a tradução técnica da verdade possível. É o perito quem, diante de uma cena de crime isolada, assume a tarefa de medir, registrar medições, descrever e recolher os materiais.
Depois, em laboratório, ele analisa o que foi encontrado: resíduos químicos, armas de fogo, falsificações, impressões digitais, DNA. Todo esse trabalho resulta em um laudo que será usado pelo judiciário e pode ser defendido pelo próprio profissional em audiência.

Mas não se trata apenas de ciência. A perícia exige ética constante, raciocínio lógico, atenção obsessiva aos detalhes e, sobretudo, equilíbrio emocional. É comum que peritos trabalhem em cenários de violência brutal, acidentes com múltiplas vítimas, incêndios ou suicídios. Nesses momentos, não há espaço para julgamentos pessoais ou para a pressa: apenas a busca pela verdade técnica, sustentada em evidências.
Outro desafio é a falta de rotina. O especialista pode começar o dia em um local de homicídio, depois seguir para analisar um possível cativeiro e, à noite, estar diante de um crime envolvendo brigas de torcidas. A rotina é marcada pela diversidade de ocorrências e pela necessidade de adaptação constante.
Mesmo diante dos obstáculos, é inegável que a perícia criminal consolidou sua importância no sistema de justiça brasileiro. Grandes casos só foram esclarecidos porque alguém soube olhar além do óbvio e dar significado a evidências silenciosas.
O papel do perito é interpretar vestígios e convertê-los em provas técnicas que sustentam a busca pela verdade no processo judicial. É um trabalho invisível para muitos, mas essencial para todos que acreditam que a justiça só pode existir quando o fato é revelado com base em provas sólidas e irrefutáveis.
*Ricardo Salada é perito Criminal, escritor e palestrante, autor de ‘Na Cena do Crime‘.