Como Jacqueline Kennedy ajudou a salvar um antigo templo egípcio icônico
Nos anos 1960, obra de modernização do Egito colocou em perigo a preservação dos templos de Abu Simbel; que só foram preservados graças à Jackie Kennedy

Em 1960, o Egito vivia um dilema: para ter seu futuro garantido, era preciso abandonar parte de seu rico passado. Afinal, a construção da Represa Alta de Assuã, no sul do país, tinha acabado de começar.
As obras geraram mais energia hidrelétrica, proporcionaria mais terras aráveis e controlaria o rio Nilo — que sofria com problemas de inundações. Em contrapartida, a represa traria danos irreparáveis para as maravilhas arqueológicas da região. Visto que ela destruiria dezenas de sítios históricos, como os majestosos templos gêmeos de Abu Simbel.
A construção de três milênios fora encomendada por Ramsés II. Suas esculturas haviam sido esculpidas diretamente em um penhasco de arenito na margem oeste do rio.
A fachada do templo principal abrigava quatro imponentes colossos de Ramsés II — que tinham cerca de 20 metros de altura cada. Já o templo menos era dedicado à rainha Nefertari e a Hator, a deusa do amor, da música e da dança.
Os santuários internos dos templos eram esculpidos profundamente no penhasco e repletos de estátuas de deuses egípcios e relevos representando batalhas militares vitoriosas. Era um dos maiores tesouros faraônicos do Egito e estava prestes a ser perdido para sempre.
Para a missão de resgate de Abu Simbel, um consórcio internacional de conservacionistas lançou um plano sem precedentes que deveria ser concluído antes da entrega da barragem, em 1970.
O plano tratava-se de cortar todo o complexo da montanha, desconstruindo meticulosamente cada queixo, bochecha e coroa majestosos — transformando as esculturas em quebra-cabeças de cerca de mil peças. Logo depois, esses pedaços seriam transportados e remontados em um terreno mais alto.
A operação teria uma parceria inédita entre a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e milhares de arqueólogos, arquitetos e egiptólogos de dezenas de países.
No entanto, o seu custo alto era um problema. O equivalente a 400 milhões de dólares nos dias atuais; um valor alto demais para ser alcançado. Eis então que uma diplomata interveio: Jacqueline Kennedy.
Jackie e a paixão pelo Egito
Jacqueline Kennedy começou a se fascinar pela história do Egito quando leu sobre a descoberta da tumba do Rei Tutancâmon em 1922, por Howard Carter. Depois passou a ficar cada vez mais encantada pelas múmias e pirâmides do antigo Egito.
Anos depois, a necessidade da mudança de Abu Simbel caiu no conhecimento de Jackie após uma amiga lhe presentear com um exemplar do Correio da UNESCO, a revista oficial publicada pela UNESCO, que conclamava os líderes mundiais a salvarem Abu Simbel antes que fosse tarde demais.

Em 1961, pouco após John Kennedy assumir como 35º presidente dos Estados Unidos, Jacqueline começou o trabalho de convencê-lo a envolver os Estados Unidos na ajuda. Mas, ao invés do pedido ser particular, a nova primeira-dama fez com que o pedido ocorresse por meio de canais oficiais.
Assim, elaborou um memorando comparando a perda de Abu Simbel a “deixar o Partenon ser inundado”, ressaltando as possibilidades de pesquisa dos templos e a importância deles para toda a África, região com a qual JFK tentava fortalecer laços diplomáticos durante a Guerra Fria.
Convenci o presidente a pedir ao Congresso que desse dinheiro para salvar os túmulos de Abu Simbel”, Jacqueline lembrou orgulhosamente mais tarde, repercute o National Geographic.
No entanto, JFK colocou uma condição: “Ele [só faria isso] se eu conseguisse convencer [o congressista] John Rooney, do Comitê de Dotações, que sempre foi contra dar dinheiro a estrangeiros.”
Jackie conseguiu e o governo norte-americano cobriu um terço dos gastos. O restante seria financiado pelo Egito e pela UNESCO.
A mudança
A mudança de Abu Simbel começou a ser colocada em prática em 1963, por uma equipe de trabalhadores egípcios, alemães, franceses, suíços e italianos — entre eles, mestres escultores de mármore de Carrara, Itália.
Os profissionais cortaram Abu Simbel em blocos de até 33 toneladas e numeraram cada uma das peças, depois as transportavam para uma nova montanha artificial de arenito 60 metros mais alta que a antiga costa do Nilo e 210 metros para o interior. Com a ajuda de guindastes, elas foram montadas peça por peça, como se fosse um Lego gigante.

Pela ajuda no processo, o Egito ofereceu aos Estados Unidos o templo menor de Dendur, um santuário do século I a.C., também salvo da Grande Represa de Assuã. A peça está em exposição no Museu Metropolitano de Arte de Nova York.
Infelizmente, John Kennedy nunca viu o resultado da contribuição entre sua equipe e o trabalho de sua esposa, visto que ele foi assassinado antes mesmo do início da realocação de Abu Simbel.