Vítor Soares / Abu Simbel

Como Jacqueline Kennedy ajudou a salvar um antigo templo egípcio icônico

Nos anos 1960, obra de modernização do Egito colocou em perigo a preservação dos templos de Abu Simbel; que só foram preservados graças à Jackie Kennedy

Templo de Abu Simbel - Getty Images

Em 1960, o Egito vivia um dilema: para ter seu futuro garantido, era preciso abandonar parte de seu rico passado. Afinal, a construção da Represa Alta de Assuã, no sul do país, tinha acabado de começar. 

As obras geraram mais energia hidrelétrica, proporcionaria mais terras aráveis e controlaria o rio Nilo — que sofria com problemas de inundações. Em contrapartida, a represa traria danos irreparáveis para as maravilhas arqueológicas da região. Visto que ela destruiria dezenas de sítios históricos, como os majestosos templos gêmeos de Abu Simbel.

A construção de três milênios fora encomendada por Ramsés II. Suas esculturas haviam sido esculpidas diretamente em um penhasco de arenito na margem oeste do rio. 

A fachada do templo principal abrigava quatro imponentes colossos de Ramsés II — que tinham cerca de 20 metros de altura cada. Já o templo menos era dedicado à rainha Nefertari e a Hator, a deusa do amor, da música e da dança.

Os santuários internos dos templos eram esculpidos profundamente no penhasco e repletos de estátuas de deuses egípcios e relevos representando batalhas militares vitoriosas. Era um dos maiores tesouros faraônicos do Egito e estava prestes a ser perdido para sempre.

Para a missão de resgate de Abu Simbel, um consórcio internacional de conservacionistas lançou um plano sem precedentes que deveria ser concluído antes da entrega da barragem, em 1970. 

O plano tratava-se de cortar todo o complexo da montanha, desconstruindo meticulosamente cada queixo, bochecha e coroa majestosos — transformando as esculturas em quebra-cabeças de cerca de mil peças. Logo depois, esses pedaços seriam transportados e remontados em um terreno mais alto. 

A operação teria uma parceria inédita entre a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e milhares de arqueólogos, arquitetos e egiptólogos de dezenas de países. 

No entanto, o seu custo alto era um problema. O equivalente a 400 milhões de dólares nos dias atuais; um valor alto demais para ser alcançado. Eis então que uma diplomata interveio: Jacqueline Kennedy

Jackie e a paixão pelo Egito

Jacqueline Kennedy começou a se fascinar pela história do Egito quando leu sobre a descoberta da tumba do Rei Tutancâmon em 1922, por Howard Carter. Depois passou a ficar cada vez mais encantada pelas múmias e pirâmides do antigo Egito. 

Anos depois, a necessidade da mudança de Abu Simbel caiu no conhecimento de Jackie após uma amiga lhe presentear com um exemplar do Correio da UNESCO, a revista oficial publicada pela UNESCO, que conclamava os líderes mundiais a salvarem Abu Simbel antes que fosse tarde demais. 

Jackie Kennedy ao inaugurar uma exposição na Galeria Nacional de Arte em Washington, DC, apresentando 34 artefatos do túmulo do Rei Tutancâmon – Biblioteca e Museu Presidencial John F. Kennedy

Em 1961, pouco após John Kennedy assumir como 35º presidente dos Estados Unidos, Jacqueline começou o trabalho de convencê-lo a envolver os Estados Unidos na ajuda. Mas, ao invés do pedido ser particular, a nova primeira-dama fez com que o pedido ocorresse por meio de canais oficiais. 

Assim, elaborou um memorando comparando a perda de Abu Simbel a “deixar o Partenon ser inundado”, ressaltando as possibilidades de pesquisa dos templos e a importância deles para toda a África, região com a qual JFK tentava fortalecer laços diplomáticos durante a Guerra Fria.

Convenci o presidente a pedir ao Congresso que desse dinheiro para salvar os túmulos de Abu Simbel”, Jacqueline lembrou orgulhosamente mais tarde, repercute o National Geographic.

No entanto, JFK colocou uma condição: “Ele [só faria isso] se eu conseguisse convencer [o congressista] John Rooney, do Comitê de Dotações, que sempre foi contra dar dinheiro a estrangeiros.” 

Jackie conseguiu e o governo norte-americano cobriu um terço dos gastos. O restante seria financiado pelo Egito e pela UNESCO.

A mudança

A mudança de Abu Simbel começou a ser colocada em prática em 1963, por uma equipe de trabalhadores egípcios, alemães, franceses, suíços e italianos — entre eles, mestres escultores de mármore de Carrara, Itália.

Os profissionais cortaram Abu Simbel em blocos de até 33 toneladas e numeraram cada uma das peças, depois as transportavam para uma nova montanha artificial de arenito 60 metros mais alta que a antiga costa do Nilo e 210 metros para o interior. Com a ajuda de guindastes, elas foram montadas peça por peça, como se fosse um Lego gigante. 

Templo de Abu Simbel – Getty Images

Pela ajuda no processo, o Egito ofereceu aos Estados Unidos o templo menor de Dendur, um santuário do século I a.C., também salvo da Grande Represa de Assuã. A peça está em exposição no Museu Metropolitano de Arte de Nova York. 

Infelizmente, John Kennedy nunca viu o resultado da contribuição entre sua equipe e o trabalho de sua esposa, visto que ele foi assassinado antes mesmo do início da realocação de Abu Simbel.

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!