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Cientistas desvendam segredos dos insetos na Amazônia

Pesquisadores da USP sequenciam o DNA de centenas de milhares de espécies coletadas nas copas das árvores da Amazônia

Amazônia ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa - Getty Images

A Amazônia, frequentemente descrita como o maior laboratório natural do planeta, guarda uma dimensão ainda pouco explorada: a vida que pulsa nas copas das árvores. É nesse espaço invisível ao olhar cotidiano que se esconde um “continente” de insetos, cuja diversidade desafia os próprios limites da ciência. Para investigar essa riqueza, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) estão conduzindo o projeto BioInsecta, que pretende sequenciar o genoma de cerca de 600 mil insetos coletados em diferentes pontos da região.

Com apenas 30% do material já analisado, o levantamento revelou a impressionante marca de 13,5 mil espécies distintas. A estimativa é que esse número aumente significativamente à medida que os outros 230 mil exemplares sejam estudados. “Muita gente imagina a floresta como um bloco homogêneo, quase como no Minecraft. Mas os números de insetos que encontramos até agora são assustadores”, afirma ao Metrópoles Dalton de Souza Amorim, professor da USP em Ribeirão Preto e coordenador do projeto.

Insetos da Amazônia

O desafio é monumental: a teia de interações entre insetos, plantas, fungos, vertebrados e outros invertebrados ainda está longe de ser compreendida em sua totalidade. Há insetos que se alimentam de fezes, cadáveres ou cogumelos; outros atuam como polinizadores, parasitóides, herbívoros, decompositores e predadores.

Para acessar essa diversidade, os cientistas desenvolveram um inovador sistema de “cascata de armadilhas”, instalado desde o solo até 28 metros de altura. O método, descrito em 2022 em um artigo publicado na Nature, permite revelar a fauna das copas mesmo em áreas sem torres de pesquisa.

Embora o imaginário popular associe insetos a baratas ou mosquitos, a floresta abriga uma infinidade de formas: cigarras, besouros metálicos, borboletas, abelhas sem ferrão e mosquinhas de asas pintadas. Povos indígenas reconhecem e nomeiam essa diversidade há milênios, nas mais de 270 línguas faladas no Brasil. “Eles são os maiores protetores da floresta e grandes conhecedores dessa riqueza, com quem temos muito a aprender”, reforça Amorim.

Para lidar com tamanha variedade, a pesquisa aposta na taxonomia integrativa, que combina análises genéticas e morfológicas, garantindo mais precisão e rapidez. O projeto envolve ainda parcerias com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o apoio do CNPq, reunindo ciência, educação e divulgação em um esforço conjunto.

Além da Reserva ZF2, em Manaus, os estudos avançam em Iranduba e Careiro Castanho, alcançando ambas as margens do Rio Negro e do Solimões. A expansão para estados como Maranhão e Acre deve revelar outras faces da Amazônia sob o olhar dos insetos — um universo científico ainda em construção.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.