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Formiga é capaz de gerar clones machos de uma espécie distinta, diz estudo

Novo estudo aponta que a formiga-ceifadora-ibérica tem botado ovos de outra espécie; caso é inédito no reino animal

Rainha da formiga-ceifadora-ibérica (Messor ibericus) produziu tanto o macho peludo Messor ibericus (à esquerda) quanto o macho sem pelos Messor structor (à direita) - Crédito: Divulgação/Jonathan Romiguier, Yannick Juvé e Laurent Soldati

Um recente estudo divulgado na revista Nature trouxe à luz um fenômeno surpreendente no mundo das formigas: a rainha da formiga-ceifadora-ibérica (Messor ibericus) é capaz de gerar clones machos de uma espécie distinta, a formiga colhedora (Messor structor). Essa descoberta desafia as noções tradicionais sobre reprodução e as barreiras que existem entre diferentes espécies.

A pesquisa, realizada por uma equipe liderada por Jonathan Romiguier, biólogo da Universidade de Montpellier, França, constatou que algumas colônias de M. ibericus não possuíam a presença de M. structor, o que inicialmente causou estranhamento entre os cientistas. “Isso era muito anormal. Era uma espécie de paradoxo”, afirmou Romiguier em entrevista ao site Live Science.

Os pesquisadores começaram a investigar a peculiaridade e logo descobriram que as rainhas M. ibericus eram capazes de depositar ovos contendo formigas machos da espécie M. structor. Esses machos, por sua vez, tornam-se os progenitores das operárias híbridas de M. ibericus. Assim, foi confirmada a primeira observação documentada de um animal produzindo descendentes de outra espécie como parte do seu ciclo reprodutivo normal.

As formigas são reconhecidas por sua estrutura social eussocial, com colônias organizadas em superorganismos compostos principalmente por fêmeas inférteis, conhecidas como operárias, e um número limitado de fêmeas reprodutivas, as rainhas. O papel dos machos na dinâmica social das formigas é geralmente restrito à fertilização das rainhas durante os acasalamentos.

No caso específico das formigas-ceifadoras-ibéricas, quando as rainhas se acasalam com machos da própria espécie, elas somente conseguem gerar novas rainhas. Cientistas especulam que isso ocorre devido à influência de “genes de rainha egoístas”, que favorecem o DNA do macho M. ibericus, promovendo a sobrevivência desse material genético em gerações futuras ao direcionar as larvas para se tornarem rainhas férteis em detrimento das operárias inférteis. Esse fenômeno é denominado “trapaça real”. Para contornar essa situação, as rainhas necessitam utilizar o esperma dos machos M. structor para produzir suas operárias.

O estudo

De acordo com o portal Galileu, a equipe de pesquisa coletou 132 machos provenientes de 26 colônias da formiga-ceifadora-ibérica para verificar a presença de M. structor. A análise revelou que 58 deles eram peludos e 74 carecas; um exame genômico mostrou que os primeiros pertenciam à M. ibericus, enquanto os carecas eram identificados como M. structor.

Entretanto, a análise inicial não era suficiente. Um sequenciamento adicional do DNA mitocondrial – transmitido pela mãe – de 24 machos de M. structor confirmou que esses indivíduos tinham origem comum com os machos da M. ibericus encontrados no mesmo ninho. “Foi esse detalhe que me fez perceber que ‘talvez estejamos diante de algo muito, muito, muito grande'”, destacou Romiguier.

A equipe também analisou geneticamente 16 rainhas provenientes de colônias em laboratório e observou que 9% dos ovos postos continham formigas da espécie M. structor. Adicionalmente, foi documentado um caso em que uma única rainha produziu machos de ambas as espécies, com acompanhamento semanal das ninhadas por um período de 18 meses.

Essas evidências indicam que as rainhas estão “clonando” os machos de M. structor, sem transferir qualquer DNA nuclear próprio. Os cientistas agora buscam entender o mecanismo por trás desse processo de clonagem e identificar em que estágio ocorre a remoção do DNA materno.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.