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Clara Pandolfo, a primeira mulher formada em Química no Norte do Brasil

Nascida em Belém no início do século 20, Clara lutou pelo movimento sufragista e pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia

Clara Pandolfo - Crédito: Divulgação/Acervo Clara Pandolfo

O jornalista, historiador e escritor Murilo Fiuza de Melo lançou, em 1º de setembro, o livro “Clara Pandolfo, uma cientista da Amazônia“. A obra reconstrói a trajetória de sua avó, uma paraense à frente de seu tempo, que defendeu o desenvolvimento sustentável da Amazônia e conquistou espaços historicamente reservados aos homens.

O lançamento integra um projeto mais amplo, que também reúne um minidocumentário, um site e um ciclo de palestras voltado a estudantes do ensino médio e universitários do Pará. A iniciativa busca ampliar o alcance da história de Clara, permitindo que mais brasileiros conheçam sua contribuição. Para o autor, seu exemplo pode inspirar “mais meninas e mulheres a se aventurarem pelos caminhos da ciência, em especial aquelas que vivem e moram nos estados da Amazônia.”

Clara foi a primeira mulher formada em Química na região Norte e uma das cinco primeiras em todo o Brasil. Estudou na rigorosa Escola de Química Industrial de Belém (1921–1931), dirigida pelo naturalista francês Paul Le Cointe, um dos últimos a explorar a Amazônia.

As aulas, quase todas ministradas em francês, quase a fizeram desistir. Mas foi graças ao incentivo de sua mãe, Judith, uma mulher de ideias avançadas, que Clara permaneceu no curso gratuito — a única alternativa possível para uma família sem recursos para custear uma faculdade particular.

Uma cientista do Norte

A paraense se formou aos 17 anos, em 1929. No ano seguinte, iniciou estágio e logo foi contratada como técnica do Laboratório de Análises Clínicas da Secretaria de Saúde do Estado do Pará, onde permaneceu por 20 anos avaliando produtos que chegavam a Belém pelos navios do Lloyd Brasileiro.

Em 1954 teve a chance de ingressar na recém-criada Superintendência do Plano de Valorização da Amazônia (SPVEA), precursora da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Foi ali que, graças a um “cochilo do machismo estrutural”, ascendeu a cargos de liderança, apresentando projetos inovadores para o desenvolvimento sustentável da região.

Entrevistado pelo Aventuras na História, o autor destacou que a avó atuou em uma época marcada pela resistência à presença feminina em espaços de poder e que, em muitas fotos, aparece cercada apenas por homens. No trabalho, sofreu assédio, além de comentários que tentavam diminuir sua contribuição intelectual, mas nunca recuou.

Além disso, enfrentava as exigências sociais impostas às mulheres: precisava provar que era não apenas uma profissional competente, mas também uma “boa esposa e mãe”. Sua rotina começava antes das cinco da manhã — lavava roupas, preparava refeições, cuidava dos filhos, costurava, pintava a casa com tintas que ela mesma produzia — antes de assumir sua jornada profissional. Vaidosa e firme, Clara ia ao trabalho sempre impecável — com perfume, batom e cabelo arrumado.

Capa do livro “Clara Pandolfo, uma cientista da Amazônia” – Crédito: Divulgação

Movimento sufragista

O engajamento no movimento sufragista veio em 1931, incentivado pela irmã mais velha, Olímpia, sua professora de piano. Juntas, ingressaram no Núcleo Paraense pelo Progresso Feminino, ligado à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada por Bertha Lutz. Graças à luta das sufragistas, em 1932 o novo Código Eleitoral garantiu finalmente o direito das mulheres ao voto e à candidatura política.

Clara também não se calava diante da desigualdade no ambiente profissional. Em 1954, ao ser designada para a SPVEA, percebeu que recebia metade do salário de seus colegas homens na mesma função. Foi diretamente ao superintendente protestar: “Isto não está certo.” O resultado veio rápido e seu salário foi equiparado ao dos demais assessores.

Era, sobretudo, uma cientista que pensava além da técnica, articulando ciência, política pública e futuro da Amazônia. Nesse aspecto, alinhava-se a outras mulheres que desafiaram o machismo no meio científico, como Marie Curie, Lise Meitner e Rosalind Franklin, a química britânica responsável por registrar a imagem da dupla hélice do DNA e ainda assim preterida do Nobel.

Desenvolvimento sustentável

Às vésperas da primeira COP na Amazônia, em Belém, as reflexões de Clara Pandolfo permanecem atuais: é possível construir uma Amazônia onde o modo de vida de sua população diversa — ribeirinhos, indígenas e moradores das periferias urbanas — seja respeitado e valorizado, garantindo a todos a chance de prosperar.

Para isso, não é necessário derrubar mais nenhuma árvore. Clara já enxergava a Amazônia como um espaço em que o futuro de seu povo poderia caminhar em sintonia com a floresta — muito antes de o conceito de sustentabilidade ganhar o nome que tem hoje.

Na Sudam, tornou-se uma voz firme em defesa da utilização racional dos recursos naturais, especialmente das florestas, mesmo enfrentando a política oficial do regime militar, pautada pelo lema “Integrar para não entregar”, que estimulava a ocupação agropecuária.

Já no início dos anos 1970, a paraense afirmava que o verdadeiro valor econômico da Amazônia estava na floresta em pé. “A única ocupação econômica que não destrói a cobertura florestal é a exploração florestal organizada, que permite a utilização desses recursos indefinidamente”, escreveu, em 1972. Preocupada com o avanço do desmatamento, a química foi pioneira ao sugerir o uso de satélites para monitorar a destruição da floresta.

Para Melo, se o Brasil é hoje referência mundial no monitoramento do desmatamento em florestas tropicais, deve muito a essa ideia original de Clara. Mas ela também alertava: apenas ações de repressão seriam insuficientes.

Nem se colocarmos todo o efetivo das Forças Armadas, seremos capazes de acabar com o desmatamento da floresta”, dizia.

A cientista defendia que, ao lado do combate, era preciso criar alternativas que gerassem valor econômico às florestas, garantindo emprego e renda às comunidades locais. Ela foi pioneira ao unir economia e ecologia, propondo o manejo florestal como alternativa para um desenvolvimento verdadeiramente sustentável da Amazônia.

Trajetória invisibilizada

Questionado sobre o motivo pelo qual a história de Clara ter sido esquecida o autor apontou duas possibilidades complementares: era mulher e ousou fazer ciência a partir da Amazônia. Nascida, criada e falecida em Belém, a cientista viveu numa região considerada periférica do Brasil, o que contribuiu para o apagamento de sua trajetória. Além disso, por enfrentar a visão dominante de seu tempo, suas ideias acabaram relegadas ao esquecimento. Somente em 2006, com a Lei de Gestão de Florestas Públicas, parte de suas propostas voltou a ser reconhecida.

Sobre a temática, o autor é enfático: resgatar a trajetória de Clara é urgente não apenas por sua relevância como uma das intelectuais mais importantes no debate sobre o desenvolvimento da Amazônia, mas também por sua própria história de vida — como mulher, cientista e intelectual

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.