Notícias / Mundo

Expedição revela reserva de água doce submarina nos EUA

Descoberta de aquífero subterrâneo na costa leste dos EUA traz esperança para crise hídrica; análise de água doce revela segredos antigos

Imagem ilustrativa de uma reserva de água doce - Getty Images

Há milênios, a elevação do nível do mar, resultante do derretimento das geleiras, ocultou sob as águas um segredo valioso na costa nordeste dos Estados Unidos. Quase cinco décadas atrás, um navio do governo americano, em busca de recursos minerais e petróleo, fez uma descoberta surpreendente: água doce.

Neste verão do Hemisfério Norte, uma expedição científica inovadora retornou ao local para investigar mais a fundo essa curiosidade. As perfurações realizadas nas proximidades de Cape Cod, em Massachusetts, revelaram a existência de um vasto aquífero subterrâneo que pode se estender de Nova Jersey até Maine.

Brandon Dugan, co-chefe científico da missão e especialista em geofísica e hidrologia da Colorado School of Mines, enfatizou a importância dessa descoberta. “Precisamos explorar todas as opções disponíveis para encontrar mais água para a sociedade”, afirmou Dugan durante uma entrevista à Associated Press enquanto passava 12 horas na plataforma de perfuração.

A equipe encontrou água em um dos locais menos esperados do planeta. Agora, nos próximos meses, cerca de 50 mil litros dessa água serão analisados em laboratórios ao redor do mundo para determinar sua origem: se advém do derretimento de geleiras ou de sistemas subterrâneos interligados ao continente.

Preocupações

O potencial dessa descoberta é significativo, mas os desafios também são grandes. Questões como a extração da água, a definição de sua propriedade e o uso sustentável sem causar danos ao meio ambiente precisam ser cuidadosamente consideradas. Mesmo se a extração for viável, o transporte dessa água para a costa para consumo público em larga escala poderá levar anos.

A situação global da água é alarmante. De acordo com a ONU, em apenas cinco anos, a demanda por água doce deverá ultrapassar a oferta em 40%. O aumento do nível do mar, impulsionado pelas mudanças climáticas, já está contaminando reservatórios costeiros de água doce. Além disso, o consumo excessivo de água por data centers que sustentam tecnologia digital acentua essa crise.

A famosa frase do marinheiro na obra “A Balada do Velho Marinheiro”, de Samuel Taylor Coleridge, ressoa como um aviso atual: “Água, água por toda parte, e nenhuma gota para beber”. Essa realidade se torna mais pertinente não apenas para marinheiros, mas também para comunidades costeiras e cidades no interior.

Na Virgínia, por exemplo, um quarto da energia gerada no estado é direcionado para data centers — uma proporção que deverá quase dobrar em cinco anos. Cada centro consome em média tanta água quanto mil residências. Estados vizinhos aos Grandes Lagos enfrentam escassez de água subterrânea semelhante.

Casos extremos como o da Cidade do Cabo (África do Sul), que quase ficou sem água durante uma seca severa em 2018, revelam que regiões podem ter reservas submarinas de água doce ainda não exploradas. Indícios sugerem que todos os continentes podem conter depósitos semelhantes.

Trabalhos

A expedição científica conhecida como Expedition 501 custou aproximadamente US$ 25 milhões e contou com a colaboração de cientistas de mais de dez países. Financiada pela Fundação Nacional de Ciências dos EUA e pelo Consórcio Europeu de Perfuração em Pesquisa Oceânica, esta missão pioneira foi a primeira a perfurar sistematicamente o fundo oceânico em busca de água doce.

O trabalho no mar durou três meses a bordo do Liftboat Robert. A embarcação é normalmente utilizada em plataformas de petróleo e parques eólicos offshore e se tornou o cenário ideal para essa investigação inovadora. Jez Everest, gerente do projeto e cientista do British Geological Survey da Escócia, destacou: “Sabemos que esse fenômeno existe aqui e em outras partes do mundo. Mas nunca foi diretamente investigado por um projeto de pesquisa antes”.

No início da expedição, amostras retiradas mostraram salinidade extremamente baixa — apenas quatro partes por mil — comparadas à média oceânica de 35 partes por mil. Dugan descreveu esse achado como um momento “eureka”, sugerindo uma conexão entre a água subterrânea e os sistemas terrestres adjacentes.

À medida que as perfurações avançavam para distâncias maiores da costa, as amostras apresentavam salinidade ainda menor — chegando a uma parte por mil — indicando potencial para serem potáveis. Contudo, essa possibilidade ainda requer análise detalhada antes que qualquer uso seja considerado seguro.

Próximos passos

Nos meses seguintes, os cientistas irão investigar as características desta água: quais microrganismos nela habitam e quais nutrientes são necessários para sua sobrevivência. A determinação da idade da água será crucial; se ela for muito antiga e originada no derretimento das geleiras, pode ser um recurso finito. Caso contrário, se for mais recente e proveniente de infiltração terrestre, isso indicaria uma recarga contínua — embora lenta — deste aquífero.

A exploração deste recurso traz à tona questões não apenas científicas mas sociais: quem administraria essa água? É possível extrair sem contaminar com água salgada? E essa abordagem seria mais econômica e sustentável que as usinas atuais de dessalinização? Dugan acredita que comunidades costeiras poderiam acessar esses aquíferos durante períodos críticos como secas ou contaminações ambientais. No entanto, esse conceito ainda é novo demais para estar na agenda dos formuladores de políticas públicas.

“É um lembrete sobre quanto tempo pode levar para concretizar essas ideias e sobre a perseverança necessária para chegar lá”, comentou Rob Evans da Woods Hole Oceanographic Institution. Ele expressou empolgação pela obtenção das amostras após anos de pesquisas anteriores que prepararam o terreno para esta missão atual.

Por outro lado, segundo o G1, Evans adverte sobre os riscos potenciais associados à extração: mudar as reservas terrestres conectadas ou prejudicar ecossistemas dependentes desses fluxos subaquáticos essenciais pode ter consequências indesejadas.

Após seis meses de análises laboratoriais agendadas na Alemanha com especialistas reunidos novamente para discutir os resultados preliminares sobre a origem e idade da água coletada entre as profundezas marítimas ao largo da costa leste dos EUA, esta expedição promete abrir novas perspectivas sobre o uso sustentável dos recursos hídricos submersos no futuro.