Matérias / Segunda Guerra Mundial

As cartas esquecidas dos soldados japoneses que lutaram na Segunda Guerra

Durante décadas, cartas endereçadas a soldados japoneses permaneceram esquecidas; no entanto, uma iniciativa recente deu início a um processo de devolução às famílias

Soldados japoneses durante a Segunda Guerra Mundial; à direita, uma das cartas encontradas - Crédito: Getty Images; Divulgação/Evergreen Aviation & Space Museum and Obon Society

Em 10 de outubro de 1945, pouco mais de um mês após a rendição incondicional do Japão às Forças Aliadas, Torako Toyoshima escreveu uma carta ao marido, o soldado Tadao. O anúncio oficial da capitulação havia ocorrido em 2 de setembro, encerrando a guerra no Pacífico e trazendo o país sob ocupação norte-americana, liderada pelo general Douglas MacArthur.

Os militares japoneses receberam ordens para regressar, mas depois de seis anos de conflito, muitos estavam mortos, desaparecidos ou isolados em ilhas distantes, sem saber que a guerra havia acabado.

A comunicação era caótica. Tropas retornavam sem aviso, algumas vindas da China ou da Coreia, outras ainda perdidas pelo caminho. Diante disso, jornais japoneses começaram a incentivar familiares a escreverem para soldados desaparecidos. Inspirada por uma reportagem publicada em novembro pelo Mainichi Shimbun, Torako decidiu escrever a Tadao, de quem não tinha notícias havia um ano.

Ela iniciou a carta mencionando a rendição: “Mesmo o indomável espírito Yamato parece não ter tido escolha a não ser se render diante do poder da ciência”.

O trecho faz referência à alma japonesa (yamato-damashii) e ao impacto das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Em seguida, contou sobre a vida cotidiana, atualizou o marido sobre os três filhos e descreveu a nova rotina da família. Concluiu com um apelo:

Por favor, volte para casa rapidamente. Não precisamos de nada – apenas do seu retorno seguro. Mesmo que seja outono ou inverno, com você de volta, a casa parecerá primavera novamente. Então, com isso em mente, toda a família está esperando seu retorno.”

O destino, no entanto, foi cruel. Segundo a família Toyoshima, Tadao já havia morrido em combate. A carta nunca chegou às mãos dele, nem retornou a Torako. Décadas depois, de forma inesperada, acabou no acervo do Evergreen Aviation & Space Museum, no Oregon, instituição vinculada à Smithsonian.

Descoberta das cartas

Em setembro de 2024, a voluntária Barb Pittman encontrou um pequeno saco com inscrições em japonês guardado em uma prateleira. Dentro havia 116 objetos — entre cartas e cartões-postais escritos em 1945. Ela levou o material a Jean Herkamp, responsável pelos voluntários do setor de coleções.

A equipe logo descobriu que se tratava de correspondências pessoais de mulheres, mães, esposas e irmãs que, como Torako, escreveram a parentes que nunca voltaram da guerra.

A origem desse conjunto foi parcialmente reconstruída: em 2010, uma mulher chamada Helen Hayley doou as cartas ao museu. Segundo ela, seu pai, veterano da Segunda Guerra, havia encontrado os documentos em um “arquivo de cartas mortas” em um correio de Massachusetts.

Da esquerda para a direita: Yuki Hioki e Keiko Ziak, da Obon Society, e Jean Herkamp, do Evergreen Aviation & Space Museum, examinam cartas – Crédito: Divulgação/Evergreen Aviation & Space Museum and Obon Society

Segundo o portal Smithsonian, o achado levou o Evergreen a procurar a Obon Society, uma organização sem fins lucrativos do Oregon especializada em repatriar artefatos japoneses de guerra, como as bandeiras Yosegaki Hinomaru — amuletos de sorte com assinaturas e mensagens de amigos e familiares dos soldados. A entidade traduziu os textos, muitos escritos em caligrafia antiga, e iniciou a busca pelos descendentes.

Para Scot Laney, CEO do museu, não havia dúvida sobre o que fazer: as cartas deveriam ser entregues às famílias. O trabalho de repatriação já trouxe resultados emocionantes. A família de Futoshi Soma, por exemplo, recebeu um cartão-postal em que ele escrevera: “As forças de ocupação americanas têm sido verdadeiramente gentis e estão tratando o povo japonês de uma maneira que lhes permite viver sem medo. Por favor, cuide bem de sua saúde e faça tudo o que puder para retornar ao Japão o mais rápido possível.” Para os parentes, ler essas palavras após oito décadas foi como recuperar uma peça perdida de sua história.

Não estamos fazendo uma declaração sobre as partes injustas da Segunda Guerra Mundial e as coisas realmente hediondas que o Japão fez – e a América, aliás. Estamos simplesmente focados em ‘Esta é uma mãe escrevendo para seu filho’. E como americanos, isso precisa ser significativo”, afirmou Laney.

Restos humanos não biológicos

Rex e Keiko Ziak, fundadores da Obon Society, descrevem esses objetos como “restos humanos não biológicos”, tamanha a carga afetiva que carregam. Keiko tem propriedade para dizer isso: sua própria família recebeu, mais de 60 anos após a guerra, a bandeira de sorte de seu avô, desaparecido em Mianmar. Para sua mãe e seu tio, que eram muito jovens na época e não tinham lembranças do pai, a devolução foi um “milagre”. Era como se seu espírito tivesse voltado para casa.

Até agosto de 2025, a Obon Society já havia identificado 39 das cartas encontradas em Evergreen. Vinte chegaram às mãos dos familiares e 19 estavam em processo de envio. A correspondência de Torako e a de Soma estão entre as já repatriadas.

Para os Ziaks, esse trabalho vai além da devolução de lembranças: é parte do processo de cicatrização das feridas deixadas pela guerra. Estima-se que 1,9 milhão de soldados japoneses tenham morrido na Segunda Guerra, e que até 50 mil bandeiras de sorte ainda estejam em território americano. A missão, portanto, está longe de terminar.

Como resume Rex: “As guerras não terminam quando o tratado é assinado. A luta para, o tiroteio para. Mas então você tem toda a reconstrução, todos os reparos… e isso leva décadas e décadas para cicatrizar e montar novamente.”

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.