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Conheça o interior do quarto ‘secreto’ de Michelangelo em Florença

Conheça o local que o gênio renascentista teria usado como refúgio há quase 500 anos

Quarto secreto de Michelangelo em Florença - Crédito: Divulgação/Francesco Fanfani/Cortesia Musei del Bargello

Sob uma capela no coração de Florença, descendo alguns degraus de pedra escondidos por um alçapão de madeira, encontra-se uma sala secreta. Nesse espaço, repousa um tesouro raro: esboços atribuídos a Michelangelo Buonarroti, o gênio renascentista que, quase 500 anos atrás, teria usado o local como refúgio contra a fúria de um papa.

A sala fica sob as Capelas Medici, na Basílica de San Lorenzo, onde estão os túmulos da poderosa família florentina. Aberta ao público pela primeira vez em 2023, ela mede apenas 10 por 3 metros, possui uma única janela e nenhum mobiliário. As quatro paredes, no entanto, são cobertas de desenhos: torsos, pernas musculosas, mãos e rostos esculpidos em carvão e giz vermelho.

Entre os esboços, destacam-se a reprodução do rosto da célebre escultura grega Laocoonte — descoberta em Roma em 1506 e hoje nos Museus do Vaticano — e o estudo das pernas de um homem sentado, que teria servido de modelo para a estátua que adorna o túmulo de Giuliano de’ Medici, duque de Nemours, projetado pelo mestre na própria capela.

A sala documenta um momento crítico na vida do famoso artista”, afirma Paola D’Agostino, diretora dos Museus Bargello, que incluem as Capelas Medici. “É único porque ilustra a prática de seu desenho no século 16.”

Visitar o ambiente é uma experiência única: a intimidade dos rabiscos transmite a sensação de um encontro direto com Michelangelo, como se o visitante espionasse seu processo criativo em segredo. As informações são do portal Financial Review.

Turbulências

Reconhecido como um dos maiores nomes do Renascimento, Michelangelo (1475–1564) foi escultor, pintor, arquiteto e poeta. Sua estátua de Davi é um ícone de Florença, e os afrescos da Capela Sistina permanecem como uma das mais impressionantes realizações artísticas do Ocidente. Mas, apesar de sua genialidade, ele não escapou das turbulências políticas de sua época.

Entre 1529 e 1530, Florença foi sitiada no contexto da Guerra da Liga de Cognac. No Congresso de Bolonha, o papa Clemente VII — ele próprio um Medici — e o imperador Carlos V selaram a volta da família ao poder. Michelangelo, que havia se alinhado ao governo republicano e trabalhado na fortificação da cidade contra os Médici, viu-se ameaçado.

Forçado a desaparecer, teria passado dois meses escondido na pequena sala, protegido por Giovan Battista Figiovanni, prior da Basílica de San Lorenzo. Anistiado em seguida, retomou seus trabalhos para os Médici, antes de se transferir para Roma.

Interior do esconderijo – Crédito: Divulgação/Francesco Fanfani/Cortesia Musei del Bargello

“Este lugar oferece aos visitantes de hoje a experiência única de poder entrar em contato direto não apenas com o processo criativo do maestro, mas também com a percepção da formação de seu mito como artista divino”, explica Francesca de Luca, curadora do Museu das Capelas Medici.

Redescoberta da sala

A sala permaneceu esquecida durante séculos. Redescoberta em 1975, fora usada até 1955 como depósito de carvão para aquecimento, antes de ser lacrada e encoberta por móveis. Também sofreu com a lama da enchente devastadora do rio Arno, em 1966.

Desde então, restauradores dedicaram décadas a recuperar as paredes, removendo gesso, mofo e sal. A instalação de iluminação LED realçou os traços, mas o processo foi delicado.

Embora os desenhos a carvão fossem bastante resistentes, a restauração foi exigente porque eles estavam cobertos por uma camada de cal, então limpar as paredes foi um desafio”, relata Benedetta Cantini, restauradora dos Museus Bargello.

Hoje, apenas quatro pessoas podem entrar de cada vez — no máximo 100 visitantes por semana. Essa limitação garante períodos prolongados de escuridão, necessários para preservar os desenhos.

Ainda assim, paira a dúvida: não há assinaturas, e especialistas divergem sobre a autoria. Em 2018, o biógrafo William E. Wallace, professor da Universidade de Washington em St. Louis, declarou à rádio pública americana que acreditava que apenas alguns dos esboços poderiam ser realmente de Michelangelo. Mesmo com o ceticismo, o fascínio prevalece.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.