Matérias / Número Desconhecido

Número Desconhecido: conheça a chocante história real por trás do documentário

Novo documentário na Netflix, 'Número Desconhecido: Catfishing na Escola' acompanha a verdadeira história perturbadora de Kendra e Lauryn Licari

Lauryn Licari em 'Número Desconhecido: Catfishing na Escola' / Crédito: Divulgação/Netflix

No fim do último mês de agosto, chegou ao catálogo da Netflix o novo documentário ‘Número Desconhecido: Catfishing na Escola‘. Ele explora uma história real e chocante de uma mãe que, pela internet, enganou a própria filha enviando mensagens de texto hostis de um número desconhecido, a fim de fazê-la terminar um relacionamento e até mesmo dizendo para ela se matar.

“Uma adolescente e seu namorado sofrem bullying virtual violento por um número de telefone desconhecido há meses. Mas, à medida que a investigação sobre o assédio se desenrola, as autoridades descobrem um segredo chocante que subverte tudo o que todos pensavam saber sobre o caso”, informa o material de divulgação da Netflix. Veja o trailer:

O caso teve início ainda em 2021, quando Kendra Licari começou a enviar mensagens de texto agressivas para a filha, Lauryn. Ela usou um número desconhecido para tentar fazer a jovem e o namorado Owen terminarem e, por isso, dois anos depois ela foi condenada a pelo menos 19 meses de prisão.

O documentário em questão foi dirigido por Skye Borgman, e destrincha o caso ao revelar algumas mensagens de texto, imagens da câmera corporal da polícia quando Kendra foi presa, além de entrevistas com ela, Lauryn, Owen, e outras pessoas relacionadas ao caso.

Antes de ver ao documentário, confira a seguir a verdadeira história chocante por trás da produção:

Catfishing

Um tipo de problema exclusivo da era moderna, e extremamente facilitado com a internet, o “catfishing” consiste em uma atividade enganosa na qual uma pessoa cria uma identidade falsa em alguma rede social e, com ela, se comporta no meio digital como se fosse outra pessoa, com práticas que vão desde o bullying até golpes de romance.

No caso de Lauryn, as mensagens começaram a surgir no outono de 2021, quando ela tinha apenas 13 anos. Segundo a revista Time, algumas delas diziam coisas como “oi, Lauryn, o Owen está terminando com você”, mesmo que ele não estivesse. Aparentemente, as mensagens eram enviadas por algum colega ou pessoa próxima a Lauryn, pois constantemente se referia à garota como “Lo”, um apelido usado apenas por familiares e amigos próximos.

Além disso, a remetente misteriosa repetidamente disse em mensagens que Owen gostava mais dela, e dizia que eles estavam tendo relações íntimas, enquanto Lauryn ficaria “solitária para sempre”. Os dois jovens chegaram a ligar para o número desconhecido, mas nunca obtinham qualquer resposta.

O documentário destaca que Owen recebia de 30 a 50 mensagens diariamente do remetente, muitas extremamente obscenas; e o mesmo para Lauryn, mas dizendo que ela não o satisfazia sexualmente e o que ele supostamente queria de verdade.

Após cerca de dois anos de namoro, Lauryn e Owen acabaram terminando, principalmente com medo das mensagens de texto e temendo que elas nunca cessariam enquanto eles fossem um casal. Porém, isso só levou a outro momento dos ataques: Lauryn logo começou a receber várias mensagens como “se mata agora, vadia” e “a vida dele seria melhor se você estivesse morta”, o que causou ainda mais temor na garota.

Fotografia de Lauryn e Owen / Crédito: Divulgação/Netflix

Prisão

Autoridades locais se envolveram no caso de Lauryn em janeiro de 2022, e até mesmo pediram reforços ao FBI meses depois, em abril. Bradley Peter, agente do FBI que trabalhou no caso, disse no documentário que pôde descobrir que algumas mensagens de texto foram enviadas através de um aplicativo comum que esconde números de telefone.

Após tal constatação, Peter então enviou um mandado de busca ao aplicativo, e viu alguns números da Verizon (a maior operadora de celulares dos Estados Unidos) e, ao enviar outro mandado para a empresa, chegou à resposta mais chocante no caso: as mensagens eram todas provenientes do número de Kendra Licari, mãe de Lauryn.

O xerife local ficou especialmente intrigado, pois, durante toda a investigação, a mãe colaborou com as autoridades o tempo todo e demonstrou preocupação com a situação da filha.

Após Kendra ter sido finalmente identificada, a polícia foi até sua casa para prendê-la em dezembro de 2022. No documentário, há imagens da câmera corporal da polícia no momento em que chegaram na residência; onde a mulher continua cooperando com as autoridades, enquanto Lauryn pode ser vista perto da mãe em um silêncio, praticamente atordoada.

Motivação

Em entrevistas reveladas no documentário, quando questionada sobre o motivo para enganar a filha, Kendra argumentou que todos cometem erros, inclusive ela. “Realisticamente, muitos de nós provavelmente já infringimos a lei em algum momento e não fomos pegos. Tenho certeza de que pessoas que dirigiram bêbadas não foram pegas”, diz ela.

Kendra Licari / Crédito: Divulgação/Gabinete do Xerife do Condado de Isabella

O que o documentário indica é que um dos principais motivos para que a mulher fizesse os ataques à filha se devia ao fato de que ela não tinha um emprego em tempo integral — ela havia dito ao marido, Shawn, que largou o emprego, mas, na verdade, foi demitida e não conseguia nenhum outro tipo de emprego — e, desocupada, acabou começando a farsa.

Owen e sua mãe chegam a questionar se Kendra sentia alguma atração secreta pelo garoto, no documentário. Owen inclusive ressalta que, quando visitava Lauryn, Kendra cortava o bife em pedaços pequenos para ele, o visitava com frequência para perguntar como ele estava, e, mesmo após ele e Lauryn terminarem, ela sempre ia aos eventos esportivos dele. No entanto, ela não responde a essas acusações em ‘Número Desconhecido’.

Em vez disso, o que ela argumenta ao explicar o comportamento é que ele se deve de traumas anteriores que carregava, e ela menciona ter sido estuprada aos 17 anos. “Quando minha filha estava entrando na adolescência, fiquei com medo”, diz ela. “Eu tinha medo de deixá-la crescer, queria protegê-la e mantê-la segura”.

À Time, a diretora Skye Borgman opina sobre a resposta de Kendra: “Não acho que Kendra esteja dizendo que tinha medo de que Owen estuprasse Lauryn. O medo dela era ver sua filhinha crescer e entrar neste mundo grande e cruel. Ela fez essas coisas para manter Lauryn por perto, para que Lauryn viesse até ela em busca de ajuda. Ao enviar essas mensagens de texto, ela estava essencialmente forçando Lauryn a se aproximar dela”.

Síndrome de Munchausen

No entanto, quando questionada no documentário, Kendra diz que “não estava com medo” de que a filha de machucasse. Por isso, Borgman diz ainda não estar clara a verdadeira motivação, em especial se considerando as mensagens incentivando Lauryn a cometer suicídio.

Eu não tenho uma resposta para você. Eu perguntei isso a ela no documentário, você ouve a pergunta. E ela não tem uma boa resposta”, afirma a cineasta. “Talvez a escalada para dizer a Lauryn para se matar seja a última tentativa de levá-la o mais perto possível. Mas parece tão incrivelmente extremo. Quer dizer, ela diz que nunca pensou que Lauryn faria isso, mas eu simplesmente não conheço nenhum pai que sequer pensaria em fazer algo assim”.

Bill Chillman, ex-superintendente de Beal City, acredita que Kendra tinha uma “versão cibernética” da síndrome de Munchausen — um exemplo da versão real é o da história igualmente alarmante de Gypsy Rose Blanchard —: “Ela queria que sua filha precisasse dela de tal forma que ela estava disposta a machucá-la, e esta é a maneira que ela escolheu fazer isso em vez de tentar fisicamente deixá-la doente, o que é um comportamento típico de Munchausen“.

Por fim, vale destacar que, em entrevista, Kendra é questionada sobre as mensagens em que chamava a filha de anoréxica, e se elas refletiam suas próprias inseguranças. “Possivelmente”, disse ela, “porque eu estava muito magra. Eu não estava comendo. Então, você poderia me colocar nessa categoria de anoréxica”.

Mesmo após o documentário, Borgman reitera que não acredita que exista uma resposta clara para o motivo de Kendra enviar as mensagens para a filha. “Não sei se algum dia vamos entender isso completamente”, disse a diretora à Time. “Acho que vai exigir muito trabalho da parte de Kendra para descobrir isso, uma autorreflexão profunda”.

Mãe e filha

A Time informa que Lauryn já se formou do ensino médio e, hoje, com 18 anos, está completamente livre para ter qualquer tipo de relacionamento com os pais. Após o ocorrido com a mãe, ela está especialmente próxima do pai, Shawn.

Fotografia de família de Shawn, Kendra e Lauryn / Crédito: Divulgação/Netflix

Em 2023, quando Borgman entrevistou Lauryn para o documentário, logo após a prisão de Kendra, a garota disse sentir muita falta da mãe. As duas mantiveram contato durante toda a pena, mas, quando Lauryn foi entrevistada novamente em 2024, ela expressou ter mudado de ideia sobre a proximidade coma mãe.

Ela não odiava a mãe, mas era um pouco mais comedida na comunicação com ela e um pouco mais comedida sobre o quanto estava disposta a deixar Kendra entrar em sua vida”, afirma Bergman.

Por fim, o documentário mostra Kendra saindo da prisão, já há um ano e meio sem ver Lauryn. E enquanto imagens de mensagens e textos do catfishing surgem na tela, a voz da garota diz ao fundo: “Agora que ela saiu, eu só quero que ela receba a ajuda de que precisa, para que, quando nos virmos, não voltemos aos velhos hábitos e a como era antes”. Ela ainda finaliza dizendo: “Eu a amo mais do que tudo“.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.