Bulgária: da aliança com os nazistas ao apoio aos Aliados
Inicialmente aliada da Alemanha nazista, Bulgária preservou seus judeus da deportação, derrubou o governo pró-Eixo e mudou de lado em 1944

A participação da Bulgária na Segunda Guerra Mundial foi marcada por mudanças de rumo, disputas territoriais e uma forte resistência interna às decisões de seus governantes. Inicialmente neutro, o país alinhou-se às potências do Eixo, recuperou territórios perdidos após a Primeira Guerra Mundial, enfrentou pressões da Alemanha nazista e terminou o conflito lutando ao lado dos Aliados.
O antigo czarado búlgaro aderiu ao Pacto Tripartite em 1940, sob o comando do czar Boris III, que governava desde 1918. A aproximação com a Alemanha foi motivada principalmente pelo desejo de recuperar áreas perdidas duas décadas antes. Entre elas estavam a Macedônia, dividida entre o Reino da Iugoslávia e a Grécia, e a Trácia, repartida entre Turquia e Grécia. Em abril de 1941, ao lado das forças do Eixo, a Bulgária participou da invasão da Iugoslávia e da Grécia, conseguindo recuperar temporariamente parte desses territórios.
Foi justamente nessas regiões ocupadas que o país acabou associado ao capítulo mais sombrio da guerra. O registro negativo da Bulgária no Holocausto ocorreu fora de suas fronteiras históricas, nas áreas conquistadas durante o conflito.
Dentro do próprio território búlgaro, a situação dos judeus foi diferente. Em 1941, a população promoveu protestos em massa quando os alemães exigiram a adoção de uma legislação antissemita semelhante às Leis de Nuremberg. A mobilização popular reduziu o impacto imediato dessas medidas e adiou sua aplicação prática.
A pressão alemã, porém, aumentou. No início de 1943, o governo búlgaro atendeu à exigência do Terceiro Reich para deportar secretamente judeus que não possuíam cidadania búlgara, especialmente aqueles que viviam nos territórios ocupados e ainda não anexados formalmente ao país. Eles foram enviados para o campo de extermínio de Treblinka, na Polônia.
Após essa deportação, Adolf Hitler exigiu mais. O objetivo passou a ser a remoção clandestina dos próprios judeus búlgaros. A operação chegou a ser planejada para março de 1943, mas encontrou forte oposição política. Sob a liderança de Dimitar Peshev, vice-presidente da Assembleia Nacional, e com o apoio do Parlamento, a medida foi inicialmente suspensa. Posteriormente, o czar Boris III enfrentou diretamente as exigências alemãs e cancelou oficialmente as ordens de deportação.
A decisão teve consequências. Irritado com a desobediência, Hitler convocou Boris III para uma reunião em Berchtesgaden, na Alemanha, em 28 de agosto de 1943. Segundo os relatos, o encontro foi extremamente tenso. O monarca passou mal após a conversa e morreu duas semanas depois em decorrência de um ataque cardíaco que jamais foi plenamente explicado, alimentando especulações sobre um possível envenenamento.
Com a morte do czar, seu filho Simeão II, então com apenas seis anos de idade, tornou-se herdeiro do trono. Incapaz de governar, permaneceu apenas como figura simbólica enquanto um conselho de regência assumia o poder. O novo governo manteve a aliança com a Alemanha sob a liderança de Dobri Bozhilov, mas o avanço dos Aliados e as sucessivas derrotas alemãs começaram a alterar o cenário político interno.
A mudança
Em 1944, após bombardeios aliados e diante do avanço soviético, cresceram as tentativas de negociar uma nova neutralidade para a Bulgária. Os Aliados rejeitaram a proposta. A única alternativa aceitável era o rompimento definitivo com o Eixo.
A mudança ocorreu em 9 de setembro daquele ano, quando a Frente da Pátria, movimento antifascista apoiado por uma ampla oposição interna, liderou um golpe de Estado que derrubou o governo. Pouco depois, a Bulgária retirou-se do Pacto Tripartite e declarou guerra à Alemanha. A mudança coincidiu com a chegada do Exército soviético a Sófia, que entrou na capital sem enfrentar resistência.
Integrada aos Aliados, a Bulgária participou das operações de libertação dos Bálcãs do domínio nazista. Ao mesmo tempo, grupos comunistas continuaram combatendo qualquer política que contrariasse seus princípios ideológicos, independentemente das disputas territoriais que motivavam parte da ação militar búlgara.
Com o fim da guerra, o país manteve a região de Dobruja, mas devolveu Macedônia, Trácia e Pirot. A monarquia foi abolida e Simeão II partiu para o exílio na Espanha. Décadas depois, retornaria à Bulgária e ocuparia o cargo de primeiro-ministro entre 2001 e 2005.
Os custos humanos do conflito foram elevados. Estima-se que entre 25 mil e 30 mil soldados búlgaros tenham morrido durante a guerra, além de um número indeterminado de civis. Ainda mais severos foram os julgamentos promovidos pelos tribunais populares do pós-guerra.
Entre 1944 e 1945, mais de 11 mil pessoas foram processadas, resultando em 2.730 condenações à morte, 1.305 prisões perpétuas e milhares de outras sentenças. Segundo estimativas citadas pela Encyclopaedia Britannica, cerca de 30 mil opositores políticos teriam sido executados sem julgamento pelo novo regime.
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