Os Maias e a origem ancestral do chiclete
Muito antes da indústria moderna, povos ancestrais, como os maias, já transformavam a seiva das árvores em chiclete

A península de Yucatán, no México, guarda não apenas templos imponentes e vilarejos de cores vibrantes, mas também uma curiosa herança que atravessou o tempo e chegou até nós de forma inusitada: o chiclete. Muito antes de se tornar um produto industrializado, mascado em qualquer esquina do mundo, ele já fazia parte da vida dos povos maias, há mais de dez mil anos.
Entre trilhas de mata fechada, comunidades indígenas ainda preservam o ritual ancestral. A prática começa com a escolha cuidadosa de uma árvore, cuja casca é incisada em cortes diagonais. A seiva escorre lentamente, podendo ser extraída até sete metros de altura — processo que lembra a coleta de borracha das seringueiras amazônicas. Mas, diferentemente do látex brasileiro, o líquido extraído em Yucatán servia para outra finalidade: transformar-se em goma de mascar.
Chiclete ancestral
Os maias chamavam essa substância de chicle, nome que deu origem à palavra chiclete em diversas línguas. Para eles, mascar a goma não era apenas um passatempo. O hábito tinha funções práticas: servia para aliviar a sede durante longas caminhadas, manter a boca limpa e até mesmo reforçar laços sociais. Mulheres, homens e crianças participavam do costume, que acabou se perpetuando como marca cultural da região.
Hoje, quem visita Yucatán encontra esse legado vivo. Em feiras e mercados, artesãos e agricultores demonstram como a seiva ainda pode ser extraída e transformada, conectando o presente ao passado maia. É uma experiência que vai além do turismo: é testemunhar a origem de um produto global em sua forma mais pura e simbólica.
O cenário dessa tradição não poderia ser mais rico. Izamal, por exemplo, conhecida como a “cidade amarela”, carrega nas fachadas ensolaradas e no convento colonial a convivência entre a herança espanhola e a espiritualidade maia. Mais adiante, as ruínas de Uxmal revelam a sofisticação arquitetônica de uma civilização que soube erguer templos, muralhas e tronos esculpidos em formas de jaguar e tartaruga. Tudo isso em harmonia com a natureza que fornecia alimento, inspiração e, claro, a seiva que originou o chiclete.
Para os estudiosos, a história do chicle também é um lembrete. José Ruchim, diretor do sítio arqueológico de Uxmal, destaca ao g1: “Os maias já enfrentaram um colapso devido à destruição das florestas e a crises políticas. Se aprendermos com o passado, poderemos evitar repetir os mesmos erros. É preciso maior sensibilidade com a natureza e com os astros.”
Assim, ao mascar um chiclete hoje, poucos se dão conta de que estão, de certa forma, repetindo um gesto milenar. Um costume que nasceu nas florestas de Yucatán, foi lapidado pela sabedoria maia e atravessou séculos para se tornar parte do cotidiano do mundo inteiro.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli