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Estatueta reforça o simbolismo dos sapos na civilização Caral

Escavações no sítio arqueológico peruano trouxeram à tona uma peça inédita de 3.800 anos e detalhes sobre a sociedade mais antiga das Américas

Estatueta de sapo - Ministério da Cultura do Peru

As autoridades peruanas anunciaram novas descobertas no sítio arqueológico de Vichama, pertencente à civilização Caral, considerada a mais antiga das Américas. Entre os achados, chamou atenção uma estatueta de argila de 3.800 anos, que representa duas rãs unidas pelas patas traseiras. A peça, com cerca de 13 centímetros, pode ter desempenhado um papel cerimonial ligado à fertilidade e à esperança diante de períodos de instabilidade ambiental.

Segundo especialistas, os sapos possuíam forte carga simbólica na cultura Caral. “No cosmos andino, os sapos estão associados à água e à chuva, elementos essenciais para os ciclos agrícolas e a sobrevivência nas sociedades antigas”, afirmou a arqueóloga Tatiana Abad, durante coletiva organizada pelo Ministério da Cultura do Peru.

As escavações em Vichama vêm sendo realizadas há 18 anos, revelando até o momento cerca de 30 estruturas importantes, entre praças cerimoniais, edifícios públicos e residências. O sítio, localizado a 110 quilômetros ao norte de Lima, funcionava como um centro agrícola e pesqueiro integrado à rede urbana Caral, que floresceu há aproximadamente 5.000 anos, em paralelo a civilizações como o Egito Antigo e o Vale do Indo.

Destaque

A diretora da Zona Arqueológica de Caral, Ruth Shady Solís, destacou que a nova estatueta se conecta a outras esculturas e relevos de Vichama, como “A Dança da Vida e da Morte”, composta por 34 murais que retratam mulheres grávidas, cadáveres emaciados e figuras rituais. Outro exemplo é o “Sapo Humanizado”, que mostra um anfíbio com mãos humanas ao lado de um raio geométrico.

Essas representações, segundo os arqueólogos, serviam como lembretes ideológicos sobre solidariedade, resiliência e adaptação em tempos de mudanças climáticas severas. “Eles narram histórias de escassez e esperança, demonstrando como sociedades antigas se adaptaram a desafios que ainda são relevantes hoje”, disse Solís.

Ao apresentar a descoberta, a equipe reforçou que os Caral conseguiram desenvolver uma sociedade complexa sem o uso da cerâmica ou de guerras generalizadas, mas com avanços em planejamento urbano, religião e redes de comércio. Segundo o ‘Archaeology Magazine’, a influência desse povo reverberou posteriormente em culturas como a Chavín, a Moche e até o Império Inca.

Para os pesquisadores, a estatueta dos sapos não é apenas uma peça artística, mas um testemunho da forma como os Caral lidavam com a escassez e projetavam esperança no futuro. “Esta descoberta nos lembra que sociedades antigas enfrentaram dificuldades ambientais muito semelhantes às nossas”, concluiu Solís.