Vítor Soares / Espionagem

Cavalo de Troia soviético: A obra de arte da URSS usada para espionar os Estados Unidos

Perto do fim da Segunda Guerra, soviéticos presentearam embaixador americano com escultura, mas ninguém sabia se tratar de uma obra de espionagem

O representante dos Estados Unidos nas Nações Unidas, Henry Cabot Lodge, aponta para o local no selo onde foi colocado um grampo - Getty Images

Durante as últimas semanas da Segunda Guerra Mundial, há cerca de 80 anos, para simbolizar a cooperação entre URSS e Estados Unidos, um grupo de escoteiros russos presenteou o Embaixador dos EUA em Moscou com um Grande Selo dos EUA esculpido à mão.

O Embaixador W. Averell Harriman, orgulhoso por ter recebido a escultura, a pendurou orgulhosamente em sua casa, a Spaso House, até meados de 1952. 

Sem saber, porém, o selo continha um dispositivo de escuta secreto. “The Thing” (ou “A Coisa”) foi responsável por espionar conversas diplomáticas, completamente sem ser detectado por sete anos. Mas como isso foi possível? 

A Coisa

John Little, um especialista em contravigilância de 79 anos, é tão fascinado pela “A Coisa” que até mesmo chegou a criar uma réplica do dispositivo. Muitos especialistas, assim como ele, descrevem “A Coisa” como a façanha mais engenhosa desde o Cavalo de Troia de Ulisses. 

À BBC, Little descreve a tecnologia como uma espécie de instrumento musical: sendo composta por canos que lembram tubos de órgão e uma membrana “como a pele de um tambor, que vibrará conforme a voz humana”. 

No entanto, “A Coisa” estava compactada em um objeto minúsculo que se parece com um alfinete de chapéu. Assim, o dispositivo passou desapercebido pelo sistema de vigilância norte-americano, porque “não tinha componentes eletrônicos, nem bateria, e não esquentava”.

A engenharia de “A Coisa” também era de uma meticulosidade extremamente precisa, como se fosse “um cruzamento entre um relógio suíço e um micrômetro”, aponta Little

Já o historiador H. Keith Melton afirmou que, em sua época, a tecnologia “elevou a ciência do monitoramento de áudio a um nível que antes era considerado impossível”.

Espionagem descoberta

Embora “A Coisa” estivesse dentro da Spaso House, o dispositivo só era ativado à distância, através de um transceptor remoto, que ficava num prédio próximo. Ao ser ligado, a tecnologia enviava um sinal de alta frequência que refletia todas as vibrações vindas da antena da escuta. 

“A Coisa” só foi descoberta em 1951 — e por acaso. Naquele ano, um operador de rádio militar britânico, que trabalhava em Moscou, acidentalmente sintonizou no comprimento de onda exato usado pela “A Coisa”. 

No ano seguinte, agentes e técnicos do Departamento de Segurança vasculharam a residência do embaixador. Eles só encontraram “A Coisa” após três longos dias de buscas. O Grande Selo esculpido à mão servia como um ouvido invisível — que bisbilhotava as conversas da embaixada. 

A arte da espionagem

Sobre o sucesso da espionagem, Vadim Goncharov, um dos técnicos russos que operou “A Coisa”, chegou a declarar, segundo a BBC: “por muito tempo, nosso país conseguiu obter informações específicas e muito importantes que nos deram certas vantagens… na Guerra Fria”. 

E, até os dias de hoje, ninguém fora da inteligência soviética sabe quantas outras “Coisas” podem ter sido usadas pela URSS para espionar o Ocidente na época.

O sucesso da missão se deu por um fator simples: sua originalidade. Afinal, à época, obras de arte e itens decorativos eram vistos como símbolos pacíficos. Logo, a União SOviética transformou isso em uma arma secreta de espionagem. 

“A Coisa” também possui uma curiosa história musical, visto que seu engenhoso inventor, Lev Sergeyevich Termen, ou Léon Theremin, foi o criador do primeiro instrumento eletrônico do mundo: o Theremin. 

O Theremin pode ser tocado sem tocar sem encostá-lo, apenas com o movimento das mãos no ar ao redor de suas antenas. 

A revelação

A descoberta de “A Coisa” foi mantida em segredo pela inteligência americana até maio de 1960, quando URSS e EUA estavam no auge da corrida armamentista nuclear. Naquele ano, um avião espião americano U-2 foi abatido sobre a Rússia. 

Em uma reunião do Conselho de Segurança da ONU, funcionários do Departamento de Estado dos EUA expuseram publicamente o Grande Selo, como forma de provar que a espionagem da Guerra Fria não era unilateral. Embora o verdadeiro domínio técnico de “A Coisa” nunca foi revelado ao público em geral.

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!