Strongheart, o pastor alemão que se tornou astro do cinema mudo
Nascido em Berlim, cão policial foi levado aos EUA ainda na década de 1920, sendo transformado em um verdadeiro astro de cinema

Em 1920, o cinema ainda vivia um momento de grande experimentação e descobertas, mas já começava a revelar sua vocação para criar ídolos. Foi nesse cenário que surgiu o pastor alemão Strongheart. A história começou quando o diretor Laurence Trimble e a roteirista Jane Murfin, em busca de um cão que pudesse estrelar um filme de aventura, conheceram Etzel von Oeringen.
O animal, treinado pela polícia em Berlim e auxiliar da Cruz Vermelha Alemã durante a Primeira Guerra Mundial, foi então enviado aos Estados Unidos. Lá, acabou recebendo um novo nome e também um novo destino.
A inteligência e a agilidade de Strongheart chamaram a atenção logo de imediato. Ele assimilava comandos com rapidez e, em pouco tempo, se mostrou ideal para o que Trimble e Murfin desejavam.
Em 1921, os dois fundaram uma empresa de cinema exclusivamente para produzir filmes com o pastor alemão como protagonista. Não demorou para que ele se tornasse um astro legítimo do cinema mudo, abrindo caminho para outras celebridades caninas, como Rin Tin Tin e, décadas depois, Benji.
O primeiro longa
O primeiro longa-metragem estrelado por Strongheart, The Silent Call, lançado em 1921, arrecadou cerca de 1 milhão de dólares, um feito impressionante para a época. De acordo com o portal Smithsonian, o filme mostrava o cão em momentos de força e heroísmo, incluindo a cena marcante em que afoga um antagonista humano.
A recepção crítica foi extremamente positiva, com jornais destacando a beleza e o desempenho do animal. Nos anos seguintes, Strongheart estrelou seis filmes de sucesso, interpretando desde um cachorro-lobo até um salvador de inocentes injustamente acusados. Ele até viveu um romance canino na tela, em The Love Master (1924), ao lado de sua companheira Lady Julie.
Curiosamente, quando chegou aos Estados Unidos, Strongheart não sabia brincar. Seu treinamento militar o deixara acostumado apenas a cumprir ordens. Trimble, consciente disso, usou sua criatividade para ensinar ao cão algo tão simples quanto se divertir.
Criou comandos específicos para estimular o momento de lazer, e até utilizou espelhos para treinar Strongheart a não olhar diretamente para ele durante as filmagens, garantindo maior naturalidade nas cenas. O vínculo entre os dois se tornou notório, a ponto de Trimble afirmar que bastava sentir uma emoção para que Strongheart a reproduzisse com expressividade.

Herói de quatro patas
O público dos anos 1920 se encantava com esse “herói de ação” de quatro patas, comparado por estudiosos modernos a figuras como Jean-Claude Van Damme ou Arnold Schwarzenegger. Suas atuações transmitiam autenticidade, e suas reações em cena soavam mais naturais do que muitas interpretações humanas do cinema mudo.
Um exemplo memorável está em The Return of Boston Blackie (1927), quando Strongheart, preso em uma casa em chamas, consegue escapar, derrubar o vilão e salvar o dia. A crítica descreveu sua performance como a de um “guardião que realmente estava trabalhando”.
Mas Strongheart não era apenas um astro das telas. Ele também participou do fenômeno da cultura de celebridades que começava a se consolidar na década de 1920. Recebia fãs, dava “autógrafos” com a pata mergulhada em tinta e até “concedeu entrevistas” em seu rancho, descrito em reportagens como um verdadeiro reino canino.
Sua popularidade foi tamanha que contribuiu diretamente para tornar o pastor alemão a raça de cães mais procurada dos Estados Unidos em meados da década.
Queimadura em set
No entanto, a fama tem seus limites. Com o avanço do cinema falado, Rin Tin Tin, também pastor alemão, acabou se tornando a grande estrela canina de Hollywood, deixando Strongheart em segundo plano. Em 1929, após sofrer uma queimadura em um set de filmagem, o cão desenvolveu câncer e morreu. A imprensa noticiou sua morte com pesar, ressaltando que ele havia incorporado qualidades de lealdade e afeto dignas de um ser humano.
Mesmo após sua partida, Strongheart continuou inspirando histórias. O escritor J. Allen Boone, que conviveu com o cão, publicou livros que misturavam espiritualismo e memórias, como Letters to Strongheart (1939) e Kinship With All Life (1954). Boone via no pastor alemão não apenas um amigo, mas também uma espécie de elo entre humanos e um mundo espiritual mais profundo.
Hoje, embora grande parte de sua filmografia esteja perdida, Strongheart permanece como um pioneiro do cinema. Sua estrela na Calçada da Fama não deixa negar: ele foi um grande astro canino de seu tempo e acabou por abrir as portas para outros animais no cinema.