Marxismo queer: Poder, opressão e desejo nas engrenagens do capitalismo
Corrente crítica une marxismo e estudos queer para mostrar como o capitalismo organiza corpos, desejos e relações sociais

Karl Marx jamais escreveu a palavra “queer” ou qualquer outra expressão favorável sobre relações fora da heterossexualidade. Pelo contrário, ele e Friedrich Engels chegaram a reproduzir visões hostis à homossexualidade, tratando-a como “degeneração burguesa” — e Engels chamou práticas entre pessoas do mesmo sexo de “repugnantes práticas da pederastia”.
Ainda assim, as ideias de Marx sobre sujeito, história e materialidade são pistas essenciais para um diálogo fértil com as teorias que, no século 20, se debruçaram sobre gênero e sexualidade.
Marxismo Queer e o capitalismo
O livro ‘Diversidade sexual e de gênero e Marxismo’, publicado pela Cortez Editora, demonstra que o chamado marxismo queer emerge exatamente desse encontro: de um lado, a crítica à exploração econômica; de outro, a denúncia da norma sexual e de gênero como engrenagens centrais do capitalismo. Embora o termo “marxismo queer” seja recente, seus fundamentos se gestaram ao longo do século 20.
Nos anos 1970, quando feministas e militantes LGBTI+ denunciavam o impacto da moral sexual, pensadores como Guy Hocquenghem já afirmavam que a repressão ao desejo não era apenas questão cultural, mas parte do funcionamento do capitalismo.

Poucos anos depois, John D’Emilio apontaria o papel estratégico da família nuclear heterossexual como pilar da reprodução da força de trabalho — conectando sexualidade e economia em uma mesma engrenagem.
Judith Butler, uma das principais vozes da teoria queer, parte de outro ponto: o desejo como força ambígua, contraditória e até enganosa. Inspirada em Hegel, ela vê o desejo como aquilo que move o sujeito, mas nunca de modo linear ou coerente. Essa leitura desestabiliza a ideia de identidades fixas e abre espaço para pensar como as normas de gênero e sexualidade são construídas e reguladas.
Humano, o ser social em processo
Entre Marx e Butler, surge um campo de tensão criativo. Enquanto o marxismo insiste no caráter histórico e material do sujeito, o queer revela como as identidades se desfazem e se refazem na experiência. O método dialético de Marx entendia o ser humano como ser social em processo, determinado por condições concretas, mas também capaz de transformar as circunstâncias que o moldam. Desta forma, o gênero e a sexualidade, assim como o trabalho e a propriedade, também são produzidos socialmente.
Quem pode ajudar a costurar esse diálogo é o historiador Edward Thompson, que formula o argumento de que a experiência social é vivida como valores, sentimentos e desejos. O que em síntese explicaria que as estruturas não se impõem mecanicamente, na verdade, elas encontram ressonância no cotidiano e podem assim ser reinterpretadas.
Observando essa tradição teórica e diretamente impactados pela tensão criativa entre marxismo e teoria queer, autores como Kevin Floyd e Holly Lewis vão ser determinantes na compreensão do marxismo queer. Floyd, em The Reification of Desire (2009), mostra como o capitalismo molda as próprias formas de desejo, transformando relações afetivas e sexuais em mercadoria e disciplinando corpos para servir à lógica da produção.
Enquanto Lewis, em The Politics of Everybody (2016), insiste que não se trata de escolher entre classe ou identidade: a exploração econômica e a opressão sexual são processos interdependentes, que não podem ser analisados separadamente.
A opressão e o sistema
Deste modo, é possível compreender que o marxismo queer não é um mero arranjo teórico, mas um campo histórico de reflexão e ação. Ele resguarda a memória da descriminalização da homossexualidade no período leninista e evidencia como sexualidade e gênero estão no coração da dinâmica capitalista, como lembra Sherry Wolf em Sexualidade e Socialismo (2021).
A opressão não é periférica, ela é parte constitutiva do sistema. O capitalismo não atua apenas na fábrica ou no mercado, mas também no leito conjugal, na escola e até mesmo nos tão atuais aplicativos de relacionamento. Ele regula não só quem produz, mas quem ama, quem é reconhecido e quem é descartado. Mas se o capitalismo produz sujeitos reificados, ao mesmo tempo, ele também abre brechas para resistências que desnaturalizam identidades e desafiam normas.
Mais do que uma fusão conceitual, o marxismo queer é um chamado político. Ele lembra que a emancipação não virá apenas do salário ou do voto, mas também da possibilidade de viver desejos sem vigilância, sem violência e sem mercantilização. Entre Marx e Butler, essa perspectiva insiste que transformar o mundo exige também reinventar a vida cotidiana. Por fim, é urgente afirmar que a luta LGBTI+ não é apêndice da luta de classes, mas é sobretudo, parte dela.
*Bruna Andrade Irineu é mestra em Sociologia (UFG) e doutora em Serviço Social pela UFRJ. É coautora do livro “Diversidade sexual e de gênero e marxismo” escrito em parceria com Guilherme Gomes Ferreira.