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Brasileiro voluntário na guerra foge da Ucrânia: ‘Eu estava no limite’

O paranaense Lucas Felype Vieira, de 20 anos, passou três meses na Ucrânia como voluntário na guerra, mas fugiu após não conseguir quebrar contrato

Lucas Felype Vieira Bueno / Crédito: Reprodução / Arquivo pessoal

O jovem paranaense Lucas Felype Vieira Bueno, de 20 anos, decidiu deixar a Ucrânia após receber ordens que o deslocavam para uma posição próxima à linha de frente do conflito. Lucas, que havia se oferecido como voluntário para atuar na guerra, tentou rescindir seu contrato com o governo ucraniano, mas encontrou um obstáculo: a exigência de permanência mínima de seis meses.

A guerra na Ucrânia teve início em fevereiro de 2022 com a autorização do presidente russo Vladimir Putin para uma ofensiva militar contra o território ucraniano. Desde então, o conflito resultou em milhares de mortes e milhões de refugiados, além de intensos combates, especialmente nas regiões leste e sul do país. A Ucrânia recebe apoio militar e humanitário significativo por parte dos Estados Unidos e da União Europeia, enquanto a Rússia enfrenta sanções econômicas severas. Apesar das tentativas diplomáticas para resolver a situação, não há uma perspectiva clara para o fim das hostilidades.

Originário de Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná, Lucas relatou que abandonou a base militar na madrugada do dia 12 e percorreu aproximadamente 20 quilômetros até conseguir carona. Em entrevista exclusiva ao g1, ele compartilhou seus temores: “Quanto mais passavam os dias, mais eu estava perto do front, e chegou uma hora que eu estava no limite. Uma hora eu pensei, ou eu preciso agir, ou pode ser que para onde eu vá não tenha mais volta. Então, comecei a me planejar, a ver rota e decidi ir embora, porque a situação começou a ficar insustentável.”

Conforme explica o especialista em Direito Internacional, Pablo Sukiennik, Lucas pode enfrentar acusações de deserção devido às cláusulas do contrato que assinou, regido pela legislação ucraniana. “A depender do tratamento dado pela lei, poderá ocorrer um pedido de extradição”, alertou.

Vale mencionar que, em junho deste ano, o Ministério das Relações Exteriores alertou sobre os riscos envolvidos no alistamento voluntário de brasileiros em forças armadas estrangeiras durante conflitos armados. O ministério notou um aumento nas fatalidades e dificuldades enfrentadas por cidadãos brasileiros em tais situações. Diante disso, foi recomendado que propostas de trabalho relacionadas à atividade militar fossem recusadas.

Viagem desafiadora

Cerca de 18 dias antes de sua fuga, Lucas havia solicitado ajuda nas redes sociais. Em seu vídeo, ele mencionou ter contatado a Embaixada do Brasil na Ucrânia e recebido a informação de que não poderiam intervir em sua situação. A princípio, sua intenção ao embarcar para a Ucrânia era atuar como operador de drones no combate, mas logo percebeu que estava sendo preparado para a infantaria.

Seu contrato com o Ministério da Defesa Ucraniano impunha restrições rigorosas ao retorno ao Brasil antes do término dos seis meses. Além disso, qualquer rescisão antecipada exigiria acordo mútuo ou motivos relevantes como problemas de saúde ou emergência familiar; caso contrário, seria necessário devolver os equipamentos recebidos ou reembolsar os custos associados.

Após três meses no país, o jovem sentiu-se cada vez mais direcionado para o campo de batalha, contrariando as expectativas iniciais de atuar com drones. A jornada para deixar a Ucrânia levou cinco dias, sendo que a maior parte foi realizada a pé.

“A maior parte da minha jornada foi a pé […] Foram cinco dias da viagem mais tensa da minha vida […] Cada barreira que eu passava era um frio na barriga. Todo esse trajeto que fiz foi um tiro no escuro, eu não sabia se realmente iria conseguir sair dessa”, disse o jovem ao g1.

Lucas partiu da região de Kharkiv e atravessou cidades como Kiev e Lviv antes de alcançar a fronteira, totalizando mais de mil quilômetros percorridos. Ele enfrentou dificuldades na travessia da fronteira e teve que aguardar enquanto as autoridades verificavam seus dados: “A autoridade conseguiu puxar todos os meus dados, tomei um chá de cadeira, mas no fim consegui atravessar”, relatou.

Uma vez fora da Ucrânia, Lucas recebeu um visto de turismo e agora pondera junto à família sobre seu futuro: retornar ao Brasil ou permanecer na Europa. “Meu futuro aqui é incerto, mas está melhor do que antes”, comentou. O g1 não revelou o país em que Lucas está, para não comprometer sua segurança.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil declarou que está prestando assistência consular ao nacional brasileiro através da Embaixada em Kiev.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.