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Quipu de 500 anos revela que registros incas não eram exclusivos da elite

Análise inédita de fios de cabelo humano mostra que plebeus também produziam os complexos sistemas de nós usados no Império Inca

O quipu analisado no estudo - Hyland, School of Divinity, University of St Andrews

Um estudo publicado na revista Science Advances derrubou a antiga suposição de que os quipus eram exclusivos dos quipucamayuqs, escribas de alto escalão da elite imperial.

Pesquisadores analisaram um quipu — intrincados documentos em fios usados como sistema de registro no Império Inca — confeccionado em lã de alpaca e cabelo humano e descobriram que o artesão responsável tinha uma dieta simples, baseada em vegetais e tubérculos, típica de camponeses, e não nos banquetes de milho e carne consumidos pela nobreza inca.

Os quipus eram compostos por um cordão principal com fios pendentes entrelaçados, que representavam valores numéricos em sistema decimal. Costumavam carregar um aspecto ainda mais pessoal: fios de cabelo humano trançados ao cordão central. Durante séculos, cronistas coloniais espanhóis reforçaram a ideia de que esses cabelos pertenciam apenas a burocratas masculinos da elite, enterrados junto aos seus quipus.

Mas a nova análise, que inclui datação por radiocarbono e estudos isotópicos, mostrou que este exemplar foi produzido por alguém de origem humilde, provavelmente residente em altitudes de 2.600 a 2.800 metros no sul do Peru ou no norte do Chile.

Reparação histórica

O achado dá peso a relatos históricos como o do cronista indígena Felipe Guamán Poma de Ayala, que no século 17 já afirmava que mulheres e pessoas comuns também produziam quipus. Além disso, desafia a visão de que esses artefatos eram apenas símbolos de autoridade estatal, sugerindo que a prática de registrar informações em nós era mais ampla e disseminada na sociedade inca.

Segundo o ‘Archaeology News’, embora ainda não se saiba exatamente o que os nós desse quipu específico representam — possivelmente ligados a oferendas rituais —, o estudo abre uma nova linha de investigação sobre o papel dos plebeus na preservação do conhecimento e da memória social andina.

Para os autores, análises isotópicas de outros quipus podem revelar o quanto a prática de tecer registros estava enraizada no cotidiano do povo inca, muito além da esfera do poder imperial.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli